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  • Camarada C.

A censura chinesa não teme críticas ao regime



O regime chinês conta com um sofisticado aparato de censura que atualmente emprega centenas de milhares de pessoas. Mas se engana quem pensa que o principal objetivo do braço repressivo do Partido Comunista chinês (PC) seja silenciar vozes críticas às políticas ou ações do governo. Na verdade, a sua raison d’être consiste em evitar a mobilização social.


Após os protestos na praça da Paz Celestial, em 1989, o governo chinês reforçou o seu aparelho repressivo. A orientação de Deng Xiaoping e demais lideranças do PC consistia em garantir a “estabilidade social” a todo custo. Essa ênfase ocasionou mudanças nas táticas do PC em lidar com os dissidentes. Os censores resolveram centrar as suas atenções aos críticos do regime cujos textos ou ações poderiam, na visão deles, servir para estimular o surgimento de movimentos independentes. Enquanto o regime perseguia esses dissidentes de forma implacável, os demais opositores geralmente eram deixados de lado, mesmo quando destilavam as suas críticas ao PC em artigos, discursos ou salas de aulas.


Observamos, então, que o regime passou a distinguir as críticas ao regime que consideravam inofensivas daquelas que poderiam funcionar como estopim para a organização e mobilização da população.


A nova tática empregada pelos censores chineses criou certos espaços para a liberdade de expressão, principalmente nos meios de comunicação e no ambiente universitário. Havia uma maior tolerância às críticas do governo por professores universitários, contanto que suas observações ficassem confinadas às discussões de sala de aula. Jornalistas também testavam os limites da censura por meio da publicação de artigos sobre temas menos sensíveis, como escândalos de corrupção nos governos locais ou problemas ambientais.


A orientação da censura chinesa pós-1989 também pode ser observada nitidamente na maneira como o governo lida atualmente com o conteúdo das redes sociais. Em seu estudo “How Censorship in China Allows Government Criticism but Silences Collective Expression” (como a censura na China permite críticas ao governo, mas silencia expressão coletiva), o cientista político da Universidade Harvard Gary King argumenta que a censura chinesa direciona seus esforços às discussões _geralmente no âmbito local_ que ameacem encorajar a ação coletiva dos seus cidadãos. Com base numa análise do conteúdo de 1.400 diferentes redes sociais em 2011, King mostra que as críticas ao governo chinês não são necessariamente alvo dos censores.


King cita o exemplo do ativista ambiental Chen Fei, em Wenzhou, na Província de Zhejiang. Embora as suas iniciativas de proteção do meio ambiente contem com o respaldo de Pequim, os censores apagaram sistematicamente os comentários de apoio ao trabalho do ativista nas redes sociais por considerarem que tais opiniões poderiam incitar uma mobilização da população local que não estivesse sob controle do governo.

Em contrapartida, a censura parece ter fechado os olhos à maioria das críticas explícitas às políticas de filho único e de educação. Conforme assinala o estudo de King, apenas um pequeno percentual dos comentários sobre esses assuntos acabou sendo censurado em 2011.


Segundo King, entre os acontecimentos no ano passado que deixaram os censores chineses em estado de alerta se destacam a prisão do dissidente Ai Weiwei, os protestos na Mongólia Interior e o acidente nuclear em Fukushima no Japão. Nos dois primeiros casos _Ai Weiwei e Mongólia Interior_, a censura mostrou tolerância zero, apagando das redes sociais tanto críticas quanto elogios à ação do regime. King explica que os censores identificaram esses dois casos como apresentando um elevado “potencial de ação coletiva” por parte da população. Nesse sentido, a ação dos censores foi norteada por uma preocupação com uma possível mobilização dos cidadãos chineses _tanto a favor do regime como contra ele, e não por se tratar de um assunto politicamente sensível.


Os censores demonstraram um raciocínio semelhante no caso do acidente nuclear em Fukushima. Logo após o acidente, começaram a circular rumores _em especial na Província de Zhejiang_ de que o iodo no sal serviria para proteger as pessoas contra a radiação que ameaçava chegar à China. Tais rumores serviram para estimular uma corrida dos chineses em Zhejiang às lojas a procura de sal. A censura, argumenta King, passou então a concentrar esforços em apagar os comentários a esse respeito nas redes sociais para controlar a situação.


O estudo de King revela um elevado grau de sofisticação da censura chinesa, desafiando duas percepções equivocadas sobre o impacto das mídias sociais no país. Primeiro, os censores não procuraram eliminar toda e qualquer crítica ao regime. Apenas dois assuntos, segundo King, são apagados sistematicamente: pornografia e críticas aos censores. Segundo, as redes sociais, em vez de ameaçar, auxiliam o PC a manter o seu controle sobre o país. Nesse sentido, as críticas ventiladas no mundo virtual atuam como uma espécie de termômetro do humor da população chinesa, permitindo ao governo aprender a avaliar e lidar com problemas sociais. E a sobrevivência do PC depende do sucesso de suas lideranças em resolvê-los e atender aos anseios de seus cidadãos.


Matéria original.

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