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A classe trabalhadora brasileira que carrega a dor da pandemia (por Danilo Diego)

Atualizado: Ago 7

O progressismo liberal nesse começo de século oferece um desafio pra esquerda aparentemente tão vital quanto aquele da ordem da direita dita conservadora. Por um lado, precisamos urgentemente cercear as bases das formas que a palavrarmadilha liberdade assume nos nossos dias – o que nos abrirá terreno pra pôr no lugar de tal liberdade a emancipação; por outro – e esse parece ser mais o objeto desse texto - não se pode permitir que uma generalização da ideia de progresso dos costumes alcance a esquerda, ao ponto dela – tal qual faz o tipo liberal – condecorar a submissão de classe ao nomear de barbárie a ira que se volta contra o civilizado controle sobre o trabalho. ¿O que garante a crença no “processo evolutivo” dos costumes se não a linguagem, a recordação do que é “bárbaro” e “civilizado”?


Em uma publicação recente para o Elpaís, Juan Arias representou uma tipologia que só por meio de um erro grosseiro – mas não incomum – se pode vestir de vermelho: a do progressista liberal.


O segmento médio de classe, ou os tipos que acabam por representá-lo – muitas vezes de maneira instintiva por virem dessa própria fisiologia mediana – parece acreditar que o Brasil tocado no seu exercício de classe é a medida de toda as coisas brasileiras. Não a toa se associa à classe mediana uma mentalidade operacional, ela que respira os cargos de gerência e que entende por cotidiano o mando da execução do como fazer, mas que nem desconfia que esse como é impensável sem um “o que fazer”, esse que está diretamente ligado ao projeto de país - intra e internacionalmente falando.


Primeira representação


A primeira representação dessa tipologia mediana no texto do sr. Arias se dá nesse funcionacionalismo. Segundo ele, “quando esta guerra contra o corona vírus terminar, todos os trabalhadores invisíveis e anônimos terão de ser condecorados”, pois eles fariam parte de um “Brasil sem guerras ideológicas, de direita e de esquerda, que se sente unido por uma mesma responsabilidade para com o país”. ¿Serão os trabalhadores essenciais os nossos novos pracinhas com sua voluntariedade responsável? Terminada a “guerra contra o corona vírus”, ¿terão todas as forças mínimas de insurgência retiradas ainda nos portos, quando desembarcarem no pós-guerra? Os pracinhas do século passado foram subtraídos das armas de fogo, ¿que armas então estou acusando de retirarem dos trabalhadores ditos essenciais? Deixemos a subtração de tais armas pra quando falarmos da segunda representação, ainda faltam pingos nos is sobre a primeira, essa que é a ideia funcional do Brasil, do país que não pode parar.


Ao inserir os entregadores na lista dos trabalhadores essenciais, o sr. Arias nos dá uma oportunidade de retirá-los daí e inseri-los na existência. Assim ele os descreve: toda essa nuvem de sacrificados entregadores para que não falte comida à grande maioria das pessoas. Ora, como se “a grande maioria” não estivesse do lado desses mesmos entregadores, que, como falado na Folha, “com fome carregam comida nas costas” - ou deles não fossem familiares; como se aqueles que detém de condições econômicas pra pedir comida dia-sim-dia-não fosse a grande maioria brasileira; ou, ainda, como se nos cantos em que não se tem esse processo produtivo específico – a entrega, o fim da distância por aplicativo - não houvessem os anacrônicos meninos que carregam as feiras no carro de mão – anacrônicos, é claro, pros mais desavisados de como a história do controle sobre o trabalho se dá de forma difusa e simultânea no globo. Acontece que pensar em trabalhadores essenciais exige pensar em trabalhos que são essenciais para uma configuração de divisão social do trabalho específica, e não para toda e qualquer divisão do trabalho. Assim, falar de trabalhadores essenciais é falar de uma essência que só pode se inserir numa existência, num mundo do trabalho histórico, específico: e isso – o mundo do trabalho específico – é, no nível da política democrático-liberal que nos é contemporânea, resultado de um projeto de país. A propósito, um problema que a luta de classes acaba por ter de encarar na forma do que se chama “nacionalismo”, ou, pra alguns, “responsabilidade para com o país”.


Segunda representação


Já falei como essa noção técnica da nação – do funciona ou não funciona – faz do como fazer a própria finalidade do país, se esquecendo que esse como sempre responde a um “o que fazer”. Com a recente possibilidade do chefe do executivo se ver afogado nos próprios fluidos e a justa torcida nesse caso particular para que o vírus expanda toda a sua vontade de potência, toda essa gente liberal deixou à mostra algo que pros mais avisados da esquerda já era fácil de se notar: o repúdio progressista ao que chamam de “cultura do ódio”, e é justamente nesse ponto que se encontra a subtração das armas dos trabalhadores logo após o “novo normal”, logo após a “guerra contra o corona vírus” terminar.


O Brasil não existe – ou funciona, pra continuarmos nos termos do sr. Arias – apesar das “guerras ideológicas, de direita e de esquerda”, mas sobretudo nesse embate. Acreditar que seja possível que essa luta entre esquerda e direita possa se dar meramente no campo ideológico é acreditar que o mover da matéria que produz, os corpos que trabalham, estão a parte dessa luta. Essa noção de política sem classe marca a segunda representação da tipologia mediana – o que não deixa de ser uma outra expressão do funcionacionalismo - ela que classifica os essenciais como “esse Brasil que mantém o país funcionando e evita milhares de vítimas”, mas se esquece de como se despublicizou o SUS, sobretudo no conflito de classe, e não apesar dele. E pensar que iriam atomizar o trabalho ao ponto de deixá-lo na esfera da “responsabilidade” pessoal, justo agora que nos preparamos pra ver o segundo breque dos entregadores que tem cheiro de tudo, menos de imperativo categórico.


“Os trabalhadores invisíveis e anônimos […] estão se sacrificando para que o Brasil não pare”; numa análise causal, fenomênica: sem dúvida; mas chamá-los de classe trabalhadora é no mínimo mais coerente, já que “não parar” é o exercício de classe de quem trabalha. Talvez assim não caiamos nas armadilhas da democracia liberal que, sob o pretexto de “combater o ódio”, insere a noção técnica de política acima da disputa de classe, reservando aos ditos essenciais medalhas, condecorações e a vala comum.


Danilo Diego

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