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A Guerra da Geórgia no Contexto de Segurança Europeu


Fonte: New York Times, 2019.


Introdução

O que pode ser concebido como Ocidente, ou mais especificamente como europeu é muito variável historicamente, assim, como geograficamente, pois este continente tem várias sub-regiões, seja os países nórdicos setentrionais, os do sul da Europa que tem acesso ao mar mediterrâneo, o leste europeu.


Cada um tem uma forma muito específica organizacional que se deve a uma origem ancestral, seja o federalismo alemão que remonta um passado das tribos germânicas, que respeitavam sua autonomia governativa, o direito civil romano forte ainda na Itália e na França.


Assim como, os outros tipos de regionalização temática, de ordem física, climática, política, religiosa, neste contexto que hoje omite essa diversidade europeia, que ao contrário do democratismo contemporâneo que defende a diversidade como uma fonte da liberdade, foi fruto de ojeriza e guerras europeias intermináveis.


O mundo pós-1945, e o arranjo das instituições multilaterais criou um mito da cidadania europeia, esta, que aos contemporâneos cidadãos europeus vem sendo rediscutida, até que ponto vale permitir uma zona de circulação de pessoas? Em que isso atinge as populações pobres locais, que não podem migrar, diferentemente das classes médias, como a segurança é mantida a esta maneira?


Ao contrário de preconceitos nacionalistas, são questões pragmáticas, que independente das respostas, tem essa pergunta subjacente aos escritórios jornalísticos, departamentos científicos de ciência política e os prédios diplomáticos de todo o mundo? Existe tal uniformidade democrática das nações?


Justificativa

O texto não diretamente se prontificará a falar da União Europeia, da Europa, da imigração, mas da segurança continental europeia, que não pode jamais deixar de incluir a Rússia, assunto demasiadamente discutido por este autor, mas na condição dessa redação não ser somente uma descrição empírica do desgaste russo-europeu.


Pedro, o Grande, sua filia, Catarina II, afirmavam veementemente que a Rússia era um país ocidental, que seus servos eram europeus, fizeram ambos reformas no sistema educacional, no Estado, espelhando-se em países como a França e a Holanda, longe de um provincialismo anti-universal, as ideias que inspiraram o Estado russo foram penetradas em todo o Ocidente, seja o despotismo esclarecido, o liberalismo e o marxismo.


A Rússia, diferentemente de alguns europeístas não é um país intrometido nos problemas securitários europeus, mas tem parte de seu território na Europa, suas capitais sempre foram ocidentais, Kiev, São Petesburgo, Moscou, cidades que localizam-se geograficamente na Europa, com a exceção do período de dominação mongol, a Rússia nunca teve uma elite dos rincões mais orientais.


A questão da identidade da Rússia em relação à Europa e ao Ocidente é controversa entre os próprios russos. Afinal, a Rússia é um país europeu, asiático, uma mistura dos dois ou nenhum dos dois? A Rus’ kievana era muito ligada à Constantinopla (Bizâncio), no Oriente, tanto cultural quanto economicamente, como já vimos. Posteriormente, no período das Desordens, além de guerras civis e disputas palacianas, o país sofreu diversas invasões vindas mais do oeste, especialmente da Polônia. Isso aumentou o contato dos russos com os estrangeiros e, no período dos primeiros Romanov, houve um discreto aumento dos intercâmbios com o Ocidente.” (SEGRILLO, 2008, p. 135)


A visão de uma Rússia inimiga da Europa, não é sequer uma ideia de origem europeia e sim estadunidense, pois Nicolau II e Joséf Stalin, ambos distintos de determinadas democracias parlamentares europeias que tem a figura do político profissional, remunerado, com limitação de cargos, ainda com essa contradição, foram heróis europeus a medida que contribuíram para a derrota de Napoleão Bonaparte e Adolf Hitler.


Discussão


O objeto de contemplação desse texto é em especial a guerra da Geórgia no ano de 2008, situado na condição de um problema regional europeu, retrospectivamente, o ano de 2004, quando a OTAN, amplia o seu tamanho de países membros, o que vem a incluir países vizinhos da Rússia, no caso desse mesmo ano, os três países bálticos, Estônia, Lituânia e Letônia.


Figura 02: Países bálticos.

Fonte: Wikivoyage, 2021.


O descontentamento russo face ao que descreve como ingerência ocidental, e cujo tom agreste foi gradualmente aumentado de intensidade, inclui a política de alargamento da NATO, que a Rússia entende como hostil, em particular pós-2004, quando os estados bálticos entram na organização e o ministro russo da Defesa Sergei Ivanov comenta que a partir de então a NATO tem capacidade para ter estacionados jactos de combate a apenas três minutos de voo de São Petersburgo (um sentimento de cerco explorado especialmente no seio das elites militares) (FREIRE, 2008 p.50)


A menção de Freire (2008), de uma interpretação das instituições militares, que existe um cerco contra a Rússia, demonstra que essa doutrina de segurança de preservação do espaço russo não é um monopólio dos políticos de Moscou, mas que penetra mais que os poderes políticos da Federação Russa.


A Rússia a partir de 2008 torna-se mais proativa para fins de Defesa, ela não toma a iniciativa, porém dissuade energicamente as iniciativas da OTAN, principalmente quando diz respeito ao espaço ex-soviético, que diz respeito justamente as suas fronteiras, ela não é a tomadora de iniciativa, mas não deixa de reagir quando questões estratégicas lhe surgem.


Desde então, a proposta da OTAN de uma paz com base na cooperação, não trouxe exclusivamente estabilidade, a instalação de bases militares em países do leste europeu levou a Rússia, antes mesmo de respostas de natureza militar a politizar o fornecimento de energia a países como Ucrânia, Bielorússia e à Geórgia.


A Rússia tem usado a questão energética como forma de pressão política e econômica sobre países vizinhos, como a Geórgia, mas também a Bielorússia ou a Ucrânia. Esta estratégia tem implicações directas nas políticas energéticas europeias, e eventualmente mais difusa nas políticas de Washington para a área. (FREIRE, 2008 p.52)


As duas preocupações russas, uma mais realista, voltada aos seus próprios interesses são a variedade de importações que os países vizinhos podem vir a ter, caso adentrem na União Europeia, outra é uma questão instintiva, de sobrevivência, a manutenção do Estado como um sistema vivo de instituições presente em um dado território, a dissuasão da instalação de mísseis da OTAN nas suas fronteiras.


A ação militar da Rússia na Geórgia remete também para esta questão sinalizando o desacordo de Moscovo face a desenvolvimentos que entendem de como a política de diversificação energética em detrimento de Moscovo,e uma cada vez maior presença ocidental nesta área geográfica. Assim, além de uma demonstração de força. (Ibid, p.52)


O peso ideológico que tinha a guerra fria, que formatava a política externa em termos de valores políticos, onde havia todo um construtivismo circunscrito na decisão política, deu lugar a uma arena de Estados, no modo mais realista possível, onde a ‘raison d’état’, volta mais forte.


Existe um pragmatismo russo, mais fácil de ser executado que uma política europeia conjunta, que para além de toda organização de uma política unificada de vários Estados, tem uma série de princípios que norteiam o direcionamento dessas ações, somada a toda doutrina de segurança internacional estadunidense, nesse sentido, a Rússia é a mais flexível e mais fácil de mover-se em uma estrutura que considera arquitetônica e que dá forma a sua política internacional.


O conceito que pode servir de chave hermenêutica dessa sociedade europeia em constante redefinição securitária é uma parceria estratégica, onde os benefícios podem ser maximizados entre os acordantes, uma estrutura mais próxima a criada em Westfália, onde os Estados nacionais eram o ator central da diplomacia internacional.


Referências

FREIRE, Maria Raquel. Debate: uma nova Guerra Fria?. Relações Internacionais, Lisboa, n. 20, p. 49-66, dez. 2008, p.50, p.52.


Os russos / Angelo Segrillo. – São Paulo : Contexto, 2012, p.135


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