Publicações e Posts


 

Esta é a seção de Postagens e Publicações, partilhadas pelos distintos sites vinculados ao Jornal A Pátria. Para retornar a seção ou blog que estava anteriormente, basta clicar nela abaixo (ou voltar no navegador):

A moralização irrefletida do consumo

Deixar de usar canudinhos plásticos e simplesmente condenar quem os usa, não vai fazer com que o ecossistema seja salvo da perversa lógica de produção vigente

Você sai de noite com alguns amigos e acaba entrando em um bar para tomar umas. Seis caipirinhas, por favor. Querem o drinque com ou sem canudo? — eis a questão. Bom, provavelmente você já ouviu falar sobre o indevido modo de descarte do plástico e de como os oceanos já estão cheios dele. A vida marinha ameaçada, formação de ilhas plásticas nos oceanos, a declaração da ONU Meio Ambiente que considera a poluição plástica o grande desafio do século e a estimativa de que, no ritmo de produção e descarte que há hoje, até 2050 poderemos ter mais plásticos do que peixes no mar.


Com afinco responde: Sem canudo, é claro! Ora, o canudo que eu for usar só vai contribuir mais e mais para a degradação ambiental. Seria uma irresponsabilidade absoluta usá-lo, portanto. Devo alertar a todos sobre isso, pois se cada um fizer a sua parte, salvaremos o meio ambiente! A culpa é toda dessa gente que usa canudinhos e copos descartáveis sem medir consequências!

Com otimismo, penso que o leitor não é a pessoa do caso, que justifica todo o desastre ambiental do planeta pelas escolhas individuais de gente inserida em um contexto amplo de produtivismo desenfreado. Claro, a pequena atitude relatada de não usar canudos, não é, de todo modo, insignificante, mas é quase isso. O grande problema é restringir a responsabilidade a uma classe que não tem sequer poder para mudar esta realidade. Vislumbremos por uma ótica ampliada.


O problema em questão

Assim como não existe Bem Viver onde existe exploração ou opressão, tampouco ele existirá mediante um desastre ambiental planetário. A humanidade levou nosso planeta a um marco histórico: em consequência da ação humana predatória desde a Revolução Industrial atingimos uma nova era geológica, conhecida como antropoceno ou capitaloceno. Essa nova era é caracterizada por uma série de problemas ambientais, tendo como principal deles o aquecimento global. Estudos mais recentes estimam que a cada um grau de elevação da temperatura da Terra cerca de um bilhão de pessoas morrerão vítimas de seus efeitos, que atingem sempre com mais força os países e as populações mais pobres, principalmente no Sul Global […] Questionar o modelo de desenvolvimento e estabelecer a grande transição ecológica para o mundo deve ser uma das principais prioridades da humanidade (junto com o fim da exploração e de todas as opressões) não apenas para alcançar o Bem Viver, mas para não encontrar a extinção da vida na Terra. ¹

Para Marcuse, o consumismo como ideologia que beneficia a reprodução do modo de produção vigente através da visão de que o consumo, dentro do sistema, é fator fundamental para a realização do indivíduo, esconde a outra relação que este tem com o sistema, que é de exploração. Ou seja, a identidade como consumidor acaba prevalecendo em cima da consciência de classe. Marcuse, portanto, afirma que isso gera uma visão afirmativa da realidade. Essa é a visão que serve para suprimir a consciência de classe dos indivíduos e corroborar com a reprodução do sistema de exploração.


Esta prática é entendida, de modo geral, como uma compulsão que leva o indivíduo a comprar de forma ilimitada e sem necessidade bens, mercadorias e/ou serviços. No exemplo inicialmente apresentado, a ideia parece ter pouca relação. De outro modo, a visão de Marcuse sobre a supressão da consciência de classe é muito interessante para a reflexão do problema apresentado.


Consciência de classe


O capitalismo é um fato social. Vivemos neste contexto em que uns poucos são donos dos meios de produção (fábricas, bancos, propriedades rurais, etc.), enquanto que outros, por não ter em posse os meios de produção, vendem sua força de trabalho para sobreviver, querendo nós ou não. Observando essa diferença, é natural passarmos a compreender a sociedade a partir de uma categorização denominada “classe social”. A partir dessa teoria — e com o desenvolvimento de outras formas de trabalho — o conceito foi se desenvolvendo para além da definição de quem tem ou não meios de produção, ainda que quase sempre o fator socioeconômico fosse usado para a classificação dos indivíduos em estratos sociais.


Lembrando Marx, observamos que classes mais abastadas, além de detentoras dos meios de produção, portanto, de poder econômico, são, também, possuidoras do poder político. Buscando manter o domínio socioeconômico, essas classes produzem falsas ideias que buscam legitimar suas posições privilegiadas na estrutura social. Os trabalhadores, por sua vez, norteados pelas falsas ideias criadas pela burguesia, acabam não se rebelando e não reconhecendo sua situação de exploração, ao menos não a ponto de se rebelar contra o status quo.


Por meio da incompreensão do seu estado de explorado, e de apropriação da riqueza que produz pelo patrão, o trabalhador se acomoda, não reconhecendo a possibilidade de se livrar das amarras da exploração burguesa. Trata-se do não reconhecimento de sua situação e da condição de muitos de seus semelhantes. Isso que não lhe possibilita compreender que é explorado e que pode, se organizado com outros indivíduos na mesma situação de classe, mudar os estados das coisas. A consciência de classe é entender, ainda que subjetivamente, o estado das coisas e buscar a fonte do problema para que assim seja possível uma real transformação social, que começa no meio de produção vigente. Culpar outros semelhantes pelo desastre ambiental é se alienar da condição de classe que subsidia nossa vida em sociedade.


O relatório de um estudo intitulado de “The Carbon Majors Report 2017”, elaborado pela Carbon Disclosure Project (CDP), em colaboração com o Climate Accountability Institute, refere que desde 1988 apenas 100 empresas foram responsáveis pela emissão de 71% de gases com efeito de estufa. A grande maioria das empresas são norte-americanas, indianas e chinesas. De acordo com a Carbon Disclosure Project, em 1988 as empresas sabiam, ou deveriam saber, dos efeitos das suas atividades para o meio-ambiente, no entanto, a maioria das empresas decidiu-se pela expansão.

Há muito o que falar. Por enquanto, acho que foi suficiente. Não se trata apenas dos canudos ou dos copos de plástico, como o leitor deve ter percebido. Devemos vislumbrar todo o desastre ambiental em progresso nas raízes do problema. É fato que as grandes empresas são as maiores responsáveis pela degradação ambiental contemporânea, e é sabendo disso que podemos pensar em novas formas de organização para uma mudança efetiva dessa realidade, através da diplomacia legislativa com forte controle estatal nos processos de produção. A solução mais fácil é mandar todos pararem de consumir o que consomem, espalhar a mensagem de que se deve parar de usar canudos e de quem ainda os usa é irresponsável e não tem moral — atitude que só serve mesmo ao egocentrismo do indivíduo que acha que faz muito pelo meio ambiente.


Paremos de usar canudos. Paremos com tamanha irresponsabilidade. Tenhamos, também, posição crítica sobre o assunto.


Pedro Lucena

CONHEÇA A NOSSA LIVRARIA! COMPRE OS NOSSOS TÍTULOS!