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A revisão da nossa história e o escamoteamento dos heróis nacionais

Atualizado: 27 de Dez de 2019

Por Léo Camargo*


No último dia 15 não teve relevantes desfiles, paradas ou marchas militares. Foi um dia comum.

Nos meios de comunicação historiadores afirmavam que era melhor não ter derrubado a monarquia, que a mudança do regime monárquico para o republicano foi uma mera passagem de bastão e até absurdos de uma minoria que tem palanque de que a República foi motivada por uma disputa entre Deodoro e Silveira Martins por uma mulher.

Também se aproveitam para transformar os heróis nacionais em "ditadores" e "corruptos".

Tudo isso tem um claro objetivo: escamotear a história do Brasil para que os brasileiros não desenvolvam o sentimento patriótico.



Proclamação da República na praça da Aclamação, atual praça da República

Em 1893, o Havaí é invadido pelos EUA e Daomé(atual Benim) se torna um protetorado da França. No ano seguinte, a Itália invade a Abissínia e a região, que atualmente é a Uganda, se torna protetorado do Reino Unido.


Na América Latina não seria diferente. Em 1895 estava sendo travada em Cuba, com o apoio dos EUA, a terceira guerra contra o domínio espanhol liderada pelo libertador cubano José Martí.


Na década de 1890, conforme registrado acima, estava em funcionamento as expansões imperialistas com suas invasões e anexações, além das disputas interimperialistas, partilhando o mundo entre poucos países, e das fusões entre indústrias. A título de exemplo, a formação frenética de monopólios, em 1897, são de 69 fusões industriais e que aumenta, em 1899, para estratosféricas 1200 fusões.


Indiferente o Brasil não ficaria nessa conjuntura internacional. Em Maio de 1895, a bordo da canhoneira Bengali, as tropas de infantaria da Marinha da França realizaram um massacre na população brasileira civil da vila do Amapá, dando início a intrusão Francesa no Amapá. No mesmo ano a Inglaterra ocupava a ilha de Trindade. Na região do Acre, em 1899, uma companhia anglo-americana iniciava um projeto para operar o modelo colonial de exploração de empresas privilegiadas nos moldes das chartereds companies que funcionavam na África. Avançando no tempo, para o ano de 1904, o Brasil perde para a Inglaterra o território que hoje fica entre Roraima e a República Cooperativa da Guiana e acaba, assim, por permitir acesso a bacia amazônica pelos afluentes Tacutu e Maú.


No campo das pressões econômicas internacionais, o maior credor da dívida brasileira, o Barão de Rothischild, ameaçava desvalorizar os títulos brasileiros a cada medida protecionista que o governo brasileiro tomava.


Não menos importante estavam os conflitos políticos internos do Brasil na última década do século XIX. A luta entre duas frações da classe dominante comandava o cenário. De um lado, os latifundiários - legítimos representantes das políticas liberais, compromissados até o pescoço com os compradores portugueses e ingleses e sedentos em restaurar a monarquia, e do outro lado, a incipiente burguesia industrial, da qual é dada a tarefa de eliminar o atraso econômico brasileiro.


Entre 1891 à 1895 tiveram duas guerras civis no Brasil: A revolução Federalista, que tinha como objetivo derrubar o governo de Castilhos no Rio Grande do Sul, e a revolta da Armada, que lutava contra a instituição republicana recém implantada, tendo, inclusive, uma ameaça de restauração monárquica através do manifesto de 7 de dezembro de 1893 em que o almirante Saldanha da Gama, líder da revolta da Armada, defendia um plebiscito para escolher a forma de governo entre monarquia e República.


O republicano Julio de Castilhos, fundador da doutrina castilhista que teve Getúlio Vargas como seu seguidor.


A luta entre o velho e o novo


Sob muitas destas condições nacionais e internacionais descritas acima estava em exercício o 2° presidente do Brasil, o Marechal Floriano Vieira Peixoto.


A Floriano foi dada a missão histórica de consolidar a República e implantar medidas nacionalistas que visassem o desenvolvimento interno do país, tendo como fio condutor a indústria nacional. Também era necessário repelir intromissões estrangeiras de países imperialistas como EUA, França e Inglaterra.


Floriano Peixoto


Sendo assim, no primeiro dia em que assume o governo revoga o arrendamento da estrada de ferro Central do Brasil e a incorporação das ações da companhia. Em 12 de Maio de 1892 apresenta seu plano de governo, onde prioriza o estímulo a indústria, construção de ferrovias e educação.


A administração de Floriano terá um claro caráter protecionista e desenvolvimentista. Na política de substituição de importações, Peixoto terá uma proposta de lei aprovada pelo congresso em novembro de 1892 onde aumentará em 30% as tarifas alfandegárias sobre produtos têxteis, móveis de luxo e outros produtos de luxo, em contrapartida reduzirá em 30% as tarifas das máquinas importadas, implementos agrícolas e gêneros alimentícios.

Na política cambial seguirá a orientação de manejar o câmbio. Sobre isto o ministro da fazenda de Floriano, Serzedelo Corrêa, dirá: “Razão têm, a meu ver, os economistas que enxergam um perigo no livre câmbio adotado por uma nação, quando ela não está em condições de lutar, e quando, no struggle for life do darwinismo, as suas indústrias tiverem de sucumbir e desaparecer, porque isso importará deslocamento, para fora do país, de trabalho, de capitais e de homens”.


Também vai tomar medidas contra o abuso de emissões e a especulação fazendo a reforma bancária, que colocará o governo federal como único emissor bancário, possibilitando o controle do meio circulante.


Sabendo que a indústria nacional estava em condições bem inferiores à estrangeira, Floriano se manifesta a câmara e diz ser “urgente a intervenção do Poder Legislativo, em ordem a habilitar o govêrno com os meios necessários para impedir que as emprêsas honestas, que têm bons elementos de vida, mas lutam com grandes embaraços para se desenvolverem, sejam compelidas a uma liquidação precipitada, comprometendo os seus capitais e a sorte dos operários nela empregados”. Em seguida baixa o decreto em 17 de dezembro de 1892, onde autorizava o Banco do Brasil a emprestar até 100.000 contos de réis em bônus.

Obviamente estas medidas de Floriano teve críticas e reações por parte da oposição monarquista e liberal. A utilização da tática do moralismo político era muito comum, taxando, por exemplo, as medidas florianistas de "negocistas" e "corruptas". O objetivo deste tipo de ataque era lançar a confusão no seio do debate em torno da essência do movimento transformador, colocando em evidência os erros - reais ou não - e escondendo suas verdadeiras virtudes.


O romancista e jornalista Raul Pompéia ilustra muito bem o funcionamento do jornalismo da velha estrutura nos primeiros momentos da república: "Existe no Brasil um poderoso eleitorado sem voto, dominando o jornalismo das capitais, riquíssimo, numeroso, inteligente, ativo como ensina a prática do comércio, capaz de mover um mundo de manifestações políticas, a que não carece comparecer visivelmente, podendo mesmo nutrir de sua gorda algibeira arruaças e motins, capaz de neutralizar, de paralisar, de suprimir, de matar pela fadiga a administração pública, desde que esta lhe seja molesta, formidável, em suma como depositário e possuidor da melhor parte da fortuna particular, intervindo profundamente na direção dos negócios públicos, e podendo alias eximir-se de todos os compromissos correlativos repentinamente por trás da porta de um consulado — partido forte, portanto, e partido enorme — de conservadores que não conservam absolutamente para o Brasil.”

Entre os oposicionistas estava o nome do deputado federal alagoano, Francisco Leite e Oiticica, filho de dono de engenho e um dos mais exaltados da câmara federal, e também de republicanos que representavam o latifúndio cafeicultor, como era o caso do senador Rangel Pestana que atacava a medidas de incentivo à indústria.


Os ataques também eram desferidos de fora do país em forma de sanções econômicas. Insatisfeito com as medidas de proteção via crédito, o barão de Rothischild telegrafa ao Brasil se mostrando preocupado com tais medidas. O jornal do Comércio publica "que os Srs. Rothschild telegrafaram ao Sr. Ministro da Fazenda, fazendo-lhe sentir que a emissão de apólices para auxílio às indústrias, se resolvida pelos poderes públicos, não será de bom efeito no crédito do país”.


A contra-ofensiva de Floriano e dos florianistas

Durante o governo do Marechal Floriano Peixoto, que durou de 1891 à 1894, foi deflagrada uma guerra civil chamada revolta da Armada. A Marinha sublevada reivindicava a restauração monárquica e a mantenabilidade do modelo econômico liberal.


Estavam interessados neste conflito não somente os atores políticos nacionais, mas países estrangeiros que queriam assegurar seus negócios no Brasil, que agora estavam sendo postas em risco por um governo nacionalista. E foi assim que os rebelados da Marinha recebeu o apoio de vasos de guerra da Inglaterra, França, Itália, Portugal e Holanda. E apesar de Floriano ter feito a compra de dois navios junto aos EUA para enfrentar os rebeldes, um deles(o navio Newark), comandado pelo contra-almirante Staton, ficou depois do lado da Marinha revoltosa.


A situação de Floriano era extremamente complicada. Mas é nestas condições que, sob a liderança de Floriano, o sentimento nacionalista brasileiro vai se espalhar por todo o país e vai dar as condições subjetivas para mobilizações de setores populares.


A partir daí é que, para defender a pátria, começava a formação dos batalhões patrióticos compostos pela população civil, sendo maioria oriunda dos clubes jacobinos e republicanos. Os batalhões executavam ações de atos bélicos, protestos e formação de imprensa.


Bateria de salvas nas ruínas de Villegaignon na revolta da Armada

Os batalhões patrióticos giravam em torno, juntamente com outros setores da sociedade brasileira, da figura nacionalista de Floriano Peixoto, formando o que passou a se chamar de florianistas - defensores do governo de Floriano e do seu legado pós-morte.


Sob este grande movimento nacionalista, Floriano, com o apoio dos batalhões patrióticos, impõe a derrota aos sublevados da Marinha na revolta da Armada e repele as ameaças de invasão dos vasos de guerra dos países estrangeiros estacionados em águas brasileiras. Quando perguntado como receberia as investidas estrangeiras no Brasil, Floriano disse que "responderia à bala" qualquer ameaça de invasão.


Nesse mesmo tempo, Peixoto também concedeu apoio militar para os republicanos Castilhistas no Rio Grande do Sul derrotarem os Maragatos liderados pelo liberal monarquista Silveira Martins e o general Joca Tavares. Junto aos republicanos castilhistas estava Manoel do Nascimento Vargas, pai de Getúlio, que anos depois escreve uma carta ao filho pedindo para continuar o legado do florianismo.

Com postura firme e enérgica Floriano assegura a manutenção da República e se torna o seu consolidador, ficando conhecido também como o Marechal de ferro.


O nacionalismo brasileiro


Mesmo depois que Floriano deixa a presidência, e posteriormente à sua morte, os franceses são expulsos do Amapá, os ingleses se retiram da ilha de Trindade e o Acre é reanexado ao território brasileiro.


Funeral de Floriano Peixoto em 29 de junho de 1895


Cumpre ressaltar que sobre muitos problemas relacionados a questão nacional havia união entre os florianistas e sua oposição, apesar das enormes divergências, algumas contraditórias, de modelos políticos e econômicos para o país.


Foi assim que sob protestos de diferentes setores nacionalistas (estavam entre eles os florianistas) somado ao ímpeto do liberal republicano e general Francisco Xavier da Veiga Cabral, o Cabralzinho, que os franceses foram expulsos do Amapá. Posteriormente Veiga Cabral se tornou herói do Amapá e general honorário do exército.

Na revolução Acreana foi um militar gaúcho chamado José Plácido de Castro, que lutou junto aos Maragatos, o responsável por comandar o sitiamento da empresa de exploração colonial, paralisando todas as suas operações. Estavam com ele 15 mil caboclos acreanos armados e imbuídos do sentimento patriótico. Antes de Castro houve uma fracassada investida para retomar o Acre batizada de expedição Floriano Peixoto.


A questão do Acre gerou mobilizações de vários setores por todo o país, inclusive de alguns órgãos de imprensa, como atesta o jornal do Brasil do dia 15/07/1902, onde acusa o presidente Campos Sales de não apoiar os brasileiros no Acre e faz críticas aos EUA caricaturando o tio Sam como um professor que erguia a palmatória para uma menina, que representava a Bolívia, e perguntava: “De quem é o Acre, menina? Diga isso bem alto para ser ouvido até no Brasil”. A Bolívia respondia com medo: “Mas estou farta de dizer... O Acre é de Vossa Senhoria, Sr. Mestre”.

Na ilha de Trindade, os ingleses desocuparam a região depois de severas reações dos parlamentares e das legacões diplomáticas brasileiras. Registra-se palavras como a do deputado Lamenha Lins: “(...) as nações européias estavam de alcatéia para explorar nossa fraqueza (...) Os incidentes do Amapá e da Trindade vieram recordar-nos que era necessário fazermos política americana, porque talvez nem todas as forças reunidas deste continente fossem suficientes para opor uma barreira à intervenção européia (...)”.


Estes exemplos vem a mostrar que no final do século XIX para o início do século XX o Brasil estava desenvolvendo um forte conteúdo patriótico no seio dos brasileiros. Contrasta com isto a antiga pecha de que os brasileiros não tem consciência nacional.


Na verdade, o exame dos fatos históricos nos coloca uma questão oportuna: a revisão consciente da história brasileira colocada em prática pela classe dominante entreguista e o apagamento dos heróis nacionais é, de fato, um dos maiores responsáveis pela esterilização do sentimento patriótico. Pois é exatamente a identificação correta dos elementos nacionais que impulsionará o povo brasileiro na luta pela sua liberdade. Desse modo, o tratamento justo da contradição principal entre imperialismo e nação passa necessariamente pela questão nacional.



* Léo Camargo, Operador de máquina de celulose, 38 anos, pai e preocupado com a questão nacional

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