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Achou que marxismo afirma “valor = quantidade crua de tempo de trabalho”? Achou errado, otário!

Atualizado: 19 de Dez de 2019

(Bruno Torres, 2 de março de 2018).

É de praxe os liberais afirmarem que os marxistas defendem a tosca ideia de que “a quantidade de tempo que um trabalhador desempenha em um trabalho é a medida do valor daquele trabalho”.


Este tipo de raciocínio é a premissa para falácias e jargões como a seguinte:


“Para o marxismo, se eu demorei 10 horas cavando um buraco inútil de 1 metro de profundidade no meio do Saara, ou se eu demorei 10 horas para construir um carro com métodos de automação, o buraco e o carro possuem o mesmo valor uma vez que ambos tiveram a mesma medida de tempo de trabalho”.


Tamanho é o nível do conhecimento que os liberais possuem, sobretudo os mais ousados defensores da Escola Austríaca.


É de uma desonestidade sem tamanho – ou de uma burrice escatológica – afirmar que os textos econômicos de Marx e Engels (ou de qualquer adepto dessa corrente de pensamento econômico) defendem algo deste calibre.


Caso o marxismo defendesse tais concepções, isto abriria precedentes para a falsa ideia de que, sob um regime capitalista, é possível instituir formas de intercâmbio e de trocas de mercadorias baseadas, pura e unicamente, numa suposta medida de trabalho, substituindo o mecanismo da “oferta e procura” (que, bem ou mal, é um mecanismo que faz o “preço” manter-se próximo da média do “valor”), por uma elaboração de preços tão somente baseada no “tempo de trabalho”.


Obviamente, defender que é possível reformar a sociedade capitalista de tal modo é de um utopismo sem tamanho, de um idealismo torpe e de uma ingenuidade de pequeno-burgueses idealistas.


Marx nunca afirmou isso. Engels nunca afirmou isso. Nenhum marxista nunca afirmou isso.


Sabe quem afirmou isso? Um anarquista ‘reformista’ com uma concepção bem peculiar de mercado (mutualista) e de uma “livre sociedade”: Pierre-Joseph Proudhon. Além dele, é claro, houveram outros teóricos burgueses e pequeno-burgueses que tentaram instituir concepções semelhantes, sendo um dos mais famosos dele, Rodbertus.


Ou seja, não foi Marx nem nenhum socialista científico quem trouxe essas ideias econômicas irreais: foram certos anarquistas (socialistas libertários) e socialistas utópicos que, inclusive, são setores do “socialismo” muito mais próximo de certas ideias liberais (inclusive do ponto de vista da teoria econômica).


E sabe o que Marx e Engels vão achar desse tipo de concepção? Vão simplesmente pisotear essas concepções e esmagar todas elas.


Vocês, liberais de botequins, que se acham o máximo quando “refutam” um socialista afirmando abobrinhas sobre “horas trabalhadas num buraco inútil VS as mesmas horas trabalhadas num produto super tecnológico” só tornam mais evidente o seu fracasso teórico e a mediocridade de suas vidas.


Aquele que realmente fez críticas profundas e embasadas à essas concepções equivocadas e ‘antieconômicas’ é justamente o senhor do qual vocês atribuem essas concepções equivocadas e ‘antieconômicas’.


Tudo que vocês, liberais de boteco, acusam que se tenha na teoria marxista, não está em Marx, mas sim, em seu rival, Proudhon, na obra “Filosofia da Miséria”. E sabe quem é o teórico econômico que vai justamente estudar com profundidade as brechas e limitações dessas concepções proudhonianas (que vocês pensam ser marxistas)? O próprio Marx, numa obra que, inclusive, ironiza e satiriza o título do seu adversário.


Se em Proudhon temos “A Filosofia da Miséria”, Marx vem e traz à tona a pobreza (ou a miséria) teórica de Proudhon com o título “A Miséria da Filosofia”.


Enquanto vocês se acham o máximo porque responderam à um marxista com um meme super “engraçado” sobre “buraco VS carro produzidos no mesmo tempo”, Marx, muito antes de vocês, já aprofundou a crítica a esse assunto há quase dois séculos atrás.


No mais, convido vocês a lerem esse pequeno trecho do prefácio de Engels de 1884 da Miséria da Filosofia (de Marx), que não deixa dúvidas sobre a questão.


ENGELS: SOBRE O PREÇO, O VALOR E O TEMPO DE TRABALHO


Na sociedade capitalista atual, cada capitalista industrial produz por sua própria conta aquilo que quiser, como quiser e na proporção que quiser. A quantidade socialmente exigida permanece para o industrial uma grandeza desconhecida e ele ignora a qualidade dos objetos procurados assim como sua quantidade.


Aquilo que hoje não pode ser entregue com bastante rapidez, poderá ser oferecido amanhã além da procura.


Entretanto, a procura acaba sendo satisfeita, bem ou mal, e geralmente a produção é regulada de modo definitivo pelos objetos procurados.


Como se efetua a conciliação desta contradição?


Pela concorrência.


E como chega ela a esta solução?


Pela simples depreciação, até abaixo de seu valor de trabalho, das mercadorias que não podem ser utilizadas, pela sua qualidade ou pela sua quantidade, no estado presente das exigências da sociedade, e fazendo sentir aos produtores, desta maneira indireta, que eles têm na fábrica artigos que absolutamente não podem ser utilizados ou que fabricaram em quantidade que não pode ser utilizada, supérflua.


Seguem-se duas coisas:


Em primeiro lugar, verifica-se que os desvios contínuos dos preços das mercadorias em relação aos valores das mercadorias são a condição necessária sem a qual o valor das mercadorias não poderá existir.


Não é senão pelas flutuações da concorrência e, como consequência, dos preços das mercadorias, que a lei do valor se realiza na produção das mercadorias, e que a determinação do valor pelo tempo de trabalho socialmente necessário se torna uma realidade.


Que a forma de representação do valor, que o preço tenha, como regra geral, um aspecto muito diferente daquele que manifesta, é uma sorte que ele partilha com a maior parte das relações sociais.


O rei, às mais das vezes, se parece pouco com a monarquia que representa.


Numa sociedade de produtores trocadores de mercadorias, querer determinar o valor pelo tempo de trabalho impedindo que a concorrência estabeleça esta determinação do valor na única forma pela qual ela pode se efetuar, influindo sobre os preços, é mostrar que, pelo menos neste terreno, se aceita o habitual desconhecimento utópico das leis econômicas.


Em segundo lugar, a concorrência, realizando a lei do valor da produção das mercadorias numa sociedade de produtores trocadores, estabelece por isso mesmo, e em certas condições, a única ordem e a única organização possíveis da produção social.


Não é senão pela depreciação ou pela majoração dos preços dos produtos que os produtores de mercadorias isolados ficam sabendo à sua custa quais os produtos e qual quantidade de tais produtos que a sociedade necessita. Mas é precisamente este único regulador que a utopia de que Rodbertus partilha quer suprimir.


E se perguntamos qual a garantia que temos de que não será produzida senão a quantidade necessária de cada produto, que não teremos falta nem de trigo nem de carne enquanto o açúcar de beterraba seja mais do que abundante e a aguardente de batata sobre, que as calças não venham a faltar para cobrir nossa nudez, ao mesmo tempo que os botões de calças se multipliquem aos milhares – Rodbertus, triunfante, mostra-nos o seu famoso cálculo, no qual se estabeleceu um certificado exato para cada libra de açúcar supérflua, para cada tonel de aguardente não comprada, para cada botão de calça inútil, cálculo que é “justo”, que “satisfaz todas as exigências e no qual a liquidação é exata”.


E quem não acreditar nisso não tem outra coisa a fazer senão dirigir-se ao sr. X., empregado superior da Caixa da dívida pública da Pomerânia, que pode ser considerado como pessoa incapaz de cometer um erro nas suas contas, e que, tendo revisto o cálculo, achou que estava certo.


Londres, 29 de março de 1884, Friedrich Engels.


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