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  • Camarada C.

Anos 70 e 80: após choque do petróleo, juros sobem nos EUA e América Latina vive crise da dívida



Como peças enfileiradas de um dominó, os países de América Latina foram caindo um a um em uma crise que começou na década de 80 e teve efeitos até os anos 2000. A chamada “crise da dívida externa” fez países como México, Argentina, Equador e o Brasil anunciarem que não iriam honrar com o pagamento de suas dívidas, abalando a economia global, após uma forte alta dos juros internacionais, iniciada em 1979, após Paul Volcker assumir a presidência do Federal Reserve, o banco central americano. As altas foram puxadas pela decisão do Federal Reserve (o banco central dos Estados Unidos), com o objetivo de segurar os preços após os dois choques de petróleo que sacudiram o mundo nos anos 70.


As duas crises do petróleo interromperam um ciclo de prosperidade mundial que tinha começado na década de 50. Conflitos entre países membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) derrubaram a oferta do insumo entre 1973 e 1974, fazendo os preços quase quadruplicarem no período (o barril subiu de US$ 3 para US$ 11,60), afetando países importadores como o Brasil, segundo explica Ceres Aires Cerqueira, no livro “Dívida externa brasileira”, de 1997. Na ocasião, a autora era chefe-adjunta do Departamento da Dívida Externa do Banco Central do Brasil.


A segunda crise do petróleo aconteceu em 1979, com o Irã, então segundo maior produtor do mundo, passando por uma revolução religiosa comandada pelo aiatolá Khomeini, que fez novamente os preços aumentarem. Durante os anos 70, na ditadura, a estratégia adotada pelos governantes brasileiros foi de continuar o aporte de recursos para financiar grandes obras em setores como de energia, transportes e siderurgia, o que fez a dívida externa do país crescer. Também em 1979, Paul Volcker, presidente do banco central americano, deu uma “pancada” nos juros: as taxas saltaram de uma média de 12,88% ao ano, em 1979, para 20,18% em 1980. A decisão provocou reflexos também na taxa London Interbank (Libor), de Londres, que subiu de uma média de 12,27% para 18,03% ao ano em 1980, segundo dados da agência de notícias Reuters.


A elevada dívida externa era um problema que afetava toda a América Latina, e o estopim da crise aconteceu em uma sexta-feira, 20 de agosto de 1982. Dirigentes do México se reuniram na sede do Federal Reserve, em Nova York, com representantes de cem bancos internacionais, e obtiveram uma moratória de três meses para uma parcela de US$ 10 bilhões de sua dívida externa total de US$ 80 bilhões. O anúncio do resultado dessa reunião caiu como uma bomba no mundo das finanças e desencadeou a crise da dívida externa na América Latina. O ministro das Finanças do México, Jesus Silva Herzog, atribuía as dificuldades econômicas do país à queda do preço e das exportações de petróleo, à queda das cotações de café e do cobre e às altas de juros.


O clima nas ruas também era dramático. Um ano antes, os mexicanos se gabavam de ter batido recordes na produção de petróleo e de não precisar mais importar alimentos para cobrir as necessidades internas. O país tinha a segunda maior reserva de petróleo do mundo, atrás da Arábia Saudita. Quando a moratória foi declarada, filas dobravam quarteirões em frente à principal agência de empregos da capital Cidade do México, enquanto outros tentavam salvar suas economias comprando objetos preciosos para se defender das fortes desvalorizações do peso mexicano. A moratória foi destaque na imprensa internacional, principalmente no vizinho Estados Unidos. O México devia para os bancos daquele país parcela de US$ 17 bilhões da dívida externa total de US$ 80 bilhões em valores da época.


Em setembro, o então presidente do México, José Lopes Portillo, estatizava todos os bancos privados, com exceção dos estrangeiros, culpando-os pela “caótica e contraditória situação financeira” do país e os acusando de promoverem uma especulação sobre a moeda nacional que provocou uma fuga de capitais do país.

— Já nos saquearam. O México não se acabou. Não nos voltarão a saquear — disse Portillo sobre os bancos privados em 1º de setembro de 1982, em sua última mensagem no congresso mexicano. Exatamente três meses depois ele entregaria o poder a Miguel de La Madrid, eleito seu sucessor.


O mês de setembro daquele ano é chamado, na história econômica do Brasil, de “setembro negro”. Sob o governo do general-presidente João Figueiredo, o país teria quebrado sem a ajuda dos Estados Unidos, que liberaram empréstimos de US$ 1,5 bilhão e deram fôlego para o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) no ano seguinte. Só que o preço a pagar pela “mãozinha” americana ia além dos juros, conforme revelou O GLOBO em 2012, ao ter acesso a documentos da época. As exigências iam do alinhamento incondicional aos Estados Unidos na Guerra Fria à aprovação de propostas encaminhadas pela maior potência do mundo ao sistema internacional de comércio, mesmo que essas normas pudessem ferir, no futuro, os interesses brasileiros.


Os sucessivos acordos financeiros e renegociações do Brasil com credores, entre eles o FMI, não evitariam uma moratória, que aconteceu em 1987, já no governo José Sarney. Antes, porém, estavam na fila do calote outros vizinhos, como a Argentina. Países como Uruguai, Honduras, Costa Rica, Nicarágua e Bolívia também negociavam suas dívidas externas também em 1987 em caráter de urgência, para evitar a insolvência financeira e o descrédito total junto aos bancos internacionais. O GLOBO divulgava que, em agosto de 1982, o desemprego na América Latina atingia 23,9%, segundo uma pesquisa realizada por correspondentes da agência de notícias alemã DPA.


Em 15 de dezembro de 1983 era a vez de a Argentina pedir uma moratória de seis meses para uma dívida de US$ 40 bilhões. Essa era a terceira maior dívida da América Latina, atribuída, em maior parte, aos gastos militares com a Guerra das Malvinas, importação de supérfluos e manobras financeiras. O Brasil era o campeão no endividamento externo, com um rombo de US$ 96 bilhões, seguido do México, que devia US$ 85 bilhões. Nesses três países, a taxa de desemprego variava de 22% a 24%, segundo noticiado na época.


O efeito cascata continuou com toda a força. Até o fim de 1987, o Brasil já tinha entrado para o grupo de países que decretaram moratória, fazendo companhia a Bolívia, Costa Rica e Honduras. Em dezembro daquele ano, a dívida externa do Brasil chegava a US$ 107 bilhões, contra US$ 61 bilhões em 1981, segundo dados do Banco Central. O Peru tinha limitado os pagamentos de suas dívidas a 10% do valor de suas exportações. Para o ano seguinte, a expectativa era de novos calotes de México e Argentina, além do Chile. Na noite de sexta-feira, 20 de fevereiro de 1987, o então presidente da República, José Sarney, convocava cadeia nacional de rádio e televisão para anunciar, entre outras medidas, a suspensão temporária do pagamento de juros da dívida externa, o que significava uma moratória, já que as parcelas dos empréstimos também já não estavam sendo pagas.


Também foi em cadeia nacional que, em 26 de setembro de 1999, o presidente do Equador, Jamil Mahuad, disse que o país só teria condições de pagar os juros dos bônus de uma parcela de US$ 96 milhões de uma dívida com o Tesouro dos EUA que venceria dois dias depois. O valor que seria pago não era nem a metade disso. No mesmo dia, a Colômbia, que também passava pela pior recessão desde os anos 30, anunciava que ia abandonar o sistema de banda cambial, adotado cinco anos antes, em 1994, e deixar o valor de sua moeda nacional, o peso, flutuar livremente frente ao dólar. Na semana anterior, o banco central colombiano vendeu US$ 400 milhões (de uma reserva de US$ 7,7 bilhões) para conter um ataque especulativo sobre sua moeda, que já tinha desvalorizado 22% naquele ano.


A última peça da crise da dívida externa a cair foi também a mais pesada. Às vésperas do Natal de 2001, a Argentina anunciava outro calote, considerado o maior da História, de US$ 102 bilhões. O país só conseguiu quitar usas dívidas em 2016, após anos de renegociações e lutas judiciais com os chamados “fundos abutres”, que são fundos de investimentos que adquirem papeis de economias em dificuldade para para depois pedir na Justiça o pagamento do valor integral.


Neste período, o martírio do Brasil com a dívida externa já estava perto do fim. Em 2005, o país quitou o último débito que tinha com o FMI, no valor de US$ 15,5 bilhões, fazendo com que a dívida externa ficasse sob controle.


Matéria original.

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