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As características do autoritarismo em Bolsonaro

28 de Outubro de 2018. O país que ficou conhecido no século 20 como o “país das mulheres de biquíni” acabava de eleger o governo mais conservador desde o processo de redemocratização do país.

Segundo turno das eleições, o candidato pelo PSL, Jair Bolsonaro havia derrotado o candidato do PT, Haddad, com a ajuda de um Judiciário partidário, um Congresso golpista e uma perseguição midiática aos membros do PT nos últimos anos, havia se tornado o novo presidente do Brasil.


Dando início a uma “Nova Era”, segundo os seus eleitores. Uma “Nova Era” que marcaria o fim do legado do “governo mais corrupto da história”, acabaria com a “palhaçada” e “mamata” de políticos e instituições corruptas, assim como programas sociais que sustentavam a “vagabundagem” e destruíam a família tradicional brasileira.


Como, por exemplo: A Lei Rouanet.


Essa vitória foi comemorada como uma vitória de um time na final do Brasileirão. Com direitos a gritos de “chora mais” e “mito”. 2018 foi o ano em que o brasileiro médio, que sempre disse que “política, futebol e religião não se discutem” e também “todos os políticos desse país são corruptos, tudo farinha do mesmo saco” vestiu sua camisa da CBF e repetiu dois dos slogans de seu candidato: “Meu partido é o Brasil” e “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” defendendo com unhas e dentes todos os atos de seu candidato até o dia do segundo turno.


O brasileiro médio acabava de eleger um bobo da corte autoritário, mascote da elite brasileira e cachorrinho dos oligopólios mundiais que buscam ter sua parcela de lucros em nossa renda nacional, nos prendendo aos laços sufocante do imperialismo, e trazer a classe trabalhadora brasileira semelhante a da classe trabalhadora inglesa durante a revolução industrial; sem os direitos trabalhistas minimamente humanitário e a morte antes da aposentadoria.


A rejeição das regras democráticas


Desde suas primeiras aparições públicas, a principal característica de Bolsonaro era de um deputado eleito sucessivas vezes por viúvas da ditadura e que rejeitava as regras da democracia e do respeito as instituições, uma das falas mais famosas de Bolsonaro; Em entrevista ao programa Câmera Aberta há 19 anos, porém, Bolsonaro foi questionado pelo entrevistador se ele fecharia o Congresso Nacional se fosse presidente da República.


"Não há menor dúvida, daria golpe no mesmo dia! Não funciona! E tenho certeza de que pelo menos 90% da população ia fazer festa, ia bater palma, porque não funciona. O Congresso hoje em dia não serve pra nada, só vota o que o presidente quer. Se ele é a pessoa que decide, que manda, que tripudia em cima do Congresso, dê logo o golpe, parte logo para a ditadura", afirmou. Na mesma entrevista, de 1999, afirmou que não acreditava que houvesse solução por meio da democracia e defendeu a morte de "30 mil", incluindo a de civis e a do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB).


"Através do voto você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, no dia em que partir para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez. Matando uns 30 mil, começando pelo FHC, não deixar ele pra fora não, matando! Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente."


Durante a corrida eleitoral, quase 20 anos depois, Bolsonaro continuava rejeitando as regras democráticas e negava a legitimidade de seus oponentes (durante o segundo turno, das 123 fake news encontradas por agências de checagem, 104 beneficiavam Bolsonaro. Durante anos Bolsonaro ficava falando sobre o “kit gay” criado pelo PT para “ensinar sexo para as nossas crianças”, um dos casos mais icônicos e repetida até ser formalmente proibida pela Justiça.) e dos veículos midiáticos tradicionais (que historicamente se alinharam com políticos de direita, como o caso Collor, em que a Globo editou o debate contra Lula para beneficiar seu candidato), chamando-os de “esquerdistas” e propagadores de “fake news” sobre ele e incentivando os seus eleitores a boicotarem esses veículos. Uma técnica muito semelhante a de Trump, com os seus “fatos alternativos”. O slogan de sua campanha (Brasil acima de tudo, Deus acima de todos) também possui um viés autoritário que desrespeita a laicidade do Estado. Enquanto estava visitando Campina Grande, no estado de Paraíba, Bolsonaro se mostrou a favor de um regime teocrático cristão ao dizer: “Não tem essa de Estado Laico não, é Estado cristão.”


Após anos de ameaças de “banir os vagabundos vermelhos”, chegou o momento em que a sua equipe foi além e usou o poder do governo. Na primeira reunião ministerial houveram a organização de novas medidas e a reforma das estruturas da administração públicas, o que incluiu a demissão dos funcionários que defendem ideias “comunistas”, como anunciou o ministro Onyx Lorezoni. Onyx também disse que o país teve no governo pessoas com ideais socialistas e comunistas nos últimos 30 anos, e isso seria o principal motivo pela situação caótica do país.


Na véspera das eleições, Bolsonaro contestava a legitimidade do processo eleitoral, afirmando que a culpa de não ter sido eleito no primeiro turno (46,23% dos votos) seria de uma fraude nas urnas. Essas declarações geraram uma grande onda de ódio e choque. Essa declaração revela que Bolsonaro já tinha uma carta na manga para dar o xeque-mate na democracia caso não conseguisse chegar ao segundo turno; o apelo populacional por um golpe contra o novo presidente eleito, semelhante aos acontecimentos de 64. A fala de seu filho, Eduardo Bolsonaro, durante uma palestra em que diz; “Basta um cabo e um soldado para fechar o STF” e a piada por parte de seus eleitores (principalmente os Youtubers que o apoiam, alguns já falaram que são a favor da dissolução do STF) que surgiram em cima disso demonstram o apoio em que Bolsonaro teria em usurpar o poder. A guinada para o autoritarismo democraticamente eleito é feito através de gotas, quase imperceptível, como em alguns países que elegeram líderes autoritários. No Peru de Fujimori, a corrosão das instituições e os massacres populacionais promovidos pelo Estado não aconteceram no primeiro ano de governo, mas durante o primeiro ano, Fujimori se usou a mesma estratégia de Bolsonaro: brigas com os veículos midiáticos tradicionais para deslegitimar suas reportagens.


O constante ataque a espantalhos para minar seus oponentes políticos e conseguir atingir seus objetivos.


Desde os anos da ascensão de sua popularidade até hoje (2014 a 2016) se há uma coisa que caracteriza Bolsonaro é: mentir compulsivamente sobre seus opositores. Assim como Trump (já que tiveram o mesmo coordenador de campanha, Steve Bannon) Bolsonaro teve uma publicidade extra gratuita na mídia comparado com outros candidatos. Mas como? Criando polêmicas e controvérsias. As maiores delas foi, sem dúvidas o incidente da facada e a sua campanha feita por grupos de WhatsApp sendo bancada por alguns oligopólios misteriosos que se beneficiariam do seu projeto de desmontagem do Estado. Durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff, em 2013, Bolsonaro protestando contra o programa Mais Médicos no Congresso, se exalta, ele busca citar uma entrevista de Geneton Moraes, amigo de Dilma Rousseff, e faz menção a uma quantidade x de “agentes” oferecidos pelo governo cubano. Em sua fala, ele trata a tal oferta como uma espécie de humilhação às forças armadas: “Prestem atenção! Está na medida provisória: cada médico cubano pode trazer todos os seus dependentes. E a gente sabe um pouquinho como funciona a ditadura castrista. Então, cada médico vai trazer 10, 20, 30 agentes para cá. Podemos ter, a exemplo da Venezuela, 70 mil cubanos aqui dentro! E um detalhe, Marquezelli: esses agentes podem adquirir emprego em qualquer lugar do Brasil com carteira assinada, inclusive cargos em comissão. Olhem o perigo para a nossa democracia!”

O então deputado federal, Bolsonaro, começa a construir o mito de MEC “comunista”, fazendo o movimento estratégico característico de regimes autocráticos onde a elite não está mais sendo capaz de manter a ordem, o apelo aos militares:


Nossos livros escolares - agora não é kit gay, não - há dezenas e dezenas de páginas louvando o regime cubano, louvando o regime chinês de Mao Tsé-Tung, o norte-coreano e por aí afora; e esculhambando os regimes democráticos. Há gravuras e gravuras mostrando, de um lado, que o capitalismo é uma desgraça e, de outro lado, que o socialismo é um paraíso. Estão metendo isso na cabeça das nossas crianças a partir de 6 anos de idade, e esses livros são aprovados pelo MEC[...] Vocês vão ter dezenas de milhares de cubanos aqui dentro. Aquela ideia de pré-64 não sai da cabeça desses retrógrados petistas!

E digo mais. Numa entrevista este ano ao jornalista Geneton Moraes, um dos amigos de Dilma Rousseff falou que, naquela época, o chefe do Exército cubano havia oferecido 100 soldados para a Guerrilha do Araguaia - matéria de janeiro deste ano. Acabaram não vindo, porque viram que a guerra seria perdida com o nosso Exército. 

Mas, no momento, eles esculhambam as Forças Armadas com a tal da Comissão da Verdade que esta Câmara aqui, passivamente, aprovou. Acreditar em verdade por parte do PT, pelo amor de Deus! O PT quer a verdade? Vão se catar, porra! Vão se catar! A verdade do Celso Daniel, a verdade do Rose gate, entre outras. Vocês querem é esculhambar as Forças Armadas.

Essa questão dos cubanos é um crime. O pessoal é formado nas coxas. São 2 anos de ideologia marxista/leninista. Querem, por tabela, revalidar o diploma dos companheiros indicados pelo PCdoB e pelo MST a fazer curso dito de Medicina em Cuba e na Bolívia. Querem trazer esse pessoal para cá e, revalidando esses diplomas, serão essas pessoas que ocuparão os postos-chaves da medicina pública em nosso País. 

Assim como agora temos a ideologia nas escolas, que o socialismo... Inclusive, pessoal, aqui - podem comprar o livro - José Dirceu é símbolo de honestidade e democracia. Esse bandido que esteve refugiado em Cuba por tanto tempo, que enganou a própria mulher por 10 anos, que matou tanta gente em nosso País para impor a ditadura do proletariado!

Meus companheiros, não teria muito o que falar não, concluindo: pelo amor de Deus, vamos ler esta MP 621. Vamos rejeitá-la na íntegra. Vão impor uma ditadura em nosso País...”


Sem fundamentação e usando a tática dos EUA durante a Guerra Fria de “ameaça comunista” para golpear governos democraticamente eleitos ao redor do mundo, acusou o PT de diversos absurdos usando bodes expiatórios, digno de um delírio. Esse é um momento importante, onde Bolsonaro estabelece mais um espantalho para atacar o PT que iria cair na boca de seus eleitores: a retórica do processo de “venezuelização” do Brasil (ignorando a posição geopolítica da Venezuela) e do PT ser um partido “comunista” sem fundamentação, ignorando completamente o que seria a teoria socialista para Marx e Engels. Durante anos, desde os protestos pelo impeachment da Dilma até a eleição de Bolsonaro, a massa social que apoia Bolsonaro repetia essas duas coisas como um zoológico cheio de papagaios.


Semelhante situação aconteceu durante as eleições presidenciais de 2008, nos Estados Unidos. As elites mais uma vez adotaram a retórica da “ameaça comunista” para minar uma candidatura, as mídias de direita, incluindo os maiores canais do país, com uma retórica intolerante, começaram a implantar a paranoia nos cidadãos americanos de que o candidato Barack Obama era um marxista, antiamericano e a sua verdadeira nacionalidade era muçulmana. A campanha promoveu um esforço contínuo para ligar Obama aos terroristas do Oriente Médio. Diversos políticos do partido Republicano, como Steve King, advertiram que ele levaria o país a uma “ditadura totalitária”.


Para Bolsonaro, o combate ao (suposto) marxismo ensinados por professores “doutrinadores” por influência do PT e a mídia tradicional, começava agora com a sua equipe administrativa. Bolsonaro concedia entrevistas a apenas determinados veículos midiáticos, em específico os que o apoiaram abertamente (como o SBT), ameaçando o corte de verbas a outros grupos. Com os eleitores de Bolsonaro indo em reportagens de jornais como Folha de São Paulo (que apoiou o golpe de 64) e chamando-os de “comunistas”, “petistas”. Também houveram ameaças de mortes a determinados jornalistas, como o caso mais icônico, ao Reinaldo Azevedo (um dos principais críticos do governo do PT e criador do termo “petralha”).


Em seu discurso de posse, Jair Bolsonaro repetiu vários elementos construídos de sua retórica delirante e tão profunda quanto uma poça d’água que usou durante a corrida eleitoral; “restaurar e e reerguer nossa pátria, libertando-a definitivamente do julgo da corrupção, da criminalidade, da irresponsabilidade econômica e da submissão ideológica. [...] O cidadão de bem merece dispor de meios para se defender, respeitando o referendo de 2005, quando optou, nas urnas, pelo direito à legítima defesa. [...]”


Agora, a paranóia e o medo de um inimigo inexistente, está no poder.


O incentivo a violência


Durante toda a sua campanha, Bolsonaro constantemente incentivava seus eleitores a violência e fazia discursos de ódio. E dezenas de agressões e violências aconteceram, resultando até em mortes (o mestre de capoeira Moa do Katendê foi morto a facadas semanas após Bolsonaro, no Acre, dizer “vamos metralhar a petralhada”, simulando uma arma com um tripé). Segundo Adélio Bispo, o motivo da facada foi devido aos discurso de intolerância de Bolsonaro. Quando Bolsonaro foi constatado sobre as agressões vinda de seus eleitores, Bolsonaro apenas respondeu: “Não posso controlar eles.”


Em um discurso transmitido em um telão na Avenida Paulista, em São Paulo, Bolsonaro acusou a Folha de São Paulo de ser uma mídia mentirosa, e ao se referir a essa mídia “comunista” disse:


“Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria”.


Bolsonaro também fez uma menção ao Brilhante Ustra, torturador da ditadura, durante o processo de votação para o impeachment da então presidente Dilma Rousseff, mas antes elogiou o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que estava sendo investigado por crimes de corrupção; “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff […] o meu voto é sim”.


Bolsonaro também incentivou a violência contra homossexuais no programa “Participação Popular”, da TV Câmara; “O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um couro, ele muda o comportamento dele. Tá certo?” 


Bolsonaro, ao apelar para a retórica cristã durante a sua campanha e fazer essas declarações, cospe nos ensinamentos de Jesus Cristo e induz seus eleitores a desobedecer um dos “10 mandamentos” de Deus: “não matarás”.


A retórica contraditória


Uma das principais características do fascismo é a metamorfose pela qual o discurso passa quando é um movimento social e de quando assume o poder. Como movimento social, o fascismo emprega apelos populistas contra o atual regime, e promete uma mudança drástica e rápida do status quo. E quando chega ao poder tende a ser rigidamente hierárquico, autoritário, elitista e ultraconservador.


Durante sua campanha, um dos seus slogans era “Meu partido é o Brasil”, porém seus votos como deputado no Congresso demonstram o contrário, Bolsonaro sempre foi a favor da herança maldita do início da República: o abandono de classe que os negros sofreram, sendo a favor de um extermínio promovido pelo Estado nas periferias, elitista, anti-pobre e votou, promoveu e apoiou medidas que prejudicavam a classe média e a classe baixa, como a reforma trabalhista de Temer e a reforma da previdência, e nas entregas de nossas riquezas para o capital estrangeiro, em específico, os EUA, mantendo uma relação semelhante a das elites colônias e a burguesia da metrópole (semelhante a outros ditadores que ele já admitiu admirar, como Pinochet). O PSL, partido de Bolsonaro, foi o partido que mais apoiou o então MDB, indo ao contrário com os discursos de Bolsonaro de fazer uma nova política. O presidente eleito disse que só iria contar com 15 ministros, mas a equipe administrativa de Bolsonaro conta com 22 ministros (tendo 5 sidos recomendados pelo astrólogo Olavo de Carvalho) dos mais diversos partidos do “jeito antigo” de se fazer política, e esses partidos estiveram envolvidos em casos de corrupção como o DEM, PSDB e o MDB. Bolsonaro e seu partido também estará apoiando a reeleição de Rodrigo Maia para presidente da Câmara. Além disso há diversos casos de nepotismo e corrupção na equipe administrativa; Mourão, vice de Bolsonaro, promove o filho no Banco do Brasil, Flávio enfrenta o Caso Queiroz, Michelle Bolsonaro colocou uma amiga na para um cargo no governo, Onyx usava notas fiscais de empresas de amigos para receber verba de gabinete, o próprio Bolsonaro já teve diversos funcionários fantasmas, incluindo o próprio irmão...


A barbárie do neoliberalismo e a extensão da agenda do governo Temer com gotas de autoritarismo sendo pingada gradualmente em uma xícara em cima de uma mesa bamba. Esse é o Brasil em 2019. É a “Nova Era”, está com medo?


“Acabou a esperança, é daqui pra pior!” - Surra


Por Diego Costa

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