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Bacurau, Coringa e Parasita: a Tríade de catarse e reações violentas no cinema de 2019

Atualizado: 19 de Dez de 2019

(Bruno Torres, 9 de dezembro de 2019).

Muito mais que comentar sobre cada uma destas obras em artigos separados, cabe mais condensar Bacurau, Coringa e Parasita em um compêndio de comentários e reflexões que devemos fazer sobre os três num texto único. Estes dois últimos filmes estrangeiros, abordam mais temas como desigualdade, austeridade e a atomização dos indivíduos nas sociedades capitalistas contemporâneas, enquanto Bacurau é uma ficção um pouco mais distinta, mas ainda assim, há razões para colocarmos todos na mesma tríade.


Agora, um resumo breve de cada um dos três:


1 - CORINGA (JOKER), DE TODD PHILLIPS


Em Joker, o protagonista é um trabalhador terceirizado de uma empresa que loca “palhaços” para realizar animações em hospitais, escolas, segurar placas de anúncio em frente a lojas e dentre outras utilidades que estas pessoas em trabalho precário possam ter.


A cidade de Gotham ambienta uma metrópole dos anos 70 ou 80. A decadência das ruas, a ascensão da criminalidade e das mazelas é acompanhada por um fosso de desigualdade social gigantesco. Thomas Wayne, pai do garoto Bruce que virá a se tornar o homem morcego em algum momento do universo ali ambientado, chefia um grande conglomerado empresarial chamado Wayne’s Enterprise, sendo um dos maiores representantes da elite local, e pretenso candidato a prefeito.


Na perspectiva do protagonista, Arthur Fleck – ou apenas Coringa, caso assim o queiram chamar – Thomas Wayne personifica as camadas abastadas da cidade, aqueles que são os responsáveis por esta situação de penúria em que eles, os menos afortunados, assalariados de baixa renda, precarizados, desempregados e marginalizados, vivem.


As relações interpessoais são bastante atomizadas: quantidades gigantescas de indivíduos soltos desconhecidos entre si, correndo nas ruas da cidade unicamente atrás de seus próprios interesses imediatos sem que enxerguem os demais. Não existem “outros”, não existe “sociedade”, mas apenas indivíduos, que na concepção do candidato a prefeito Thomas Wayne, estes indivíduos se dividem geralmente em “esforçados e bem-sucedidos” ou em “perdedores e invejosos”.


Fleck, em um de seus milhares de dias horríveis de sua miserável e indesejável vida, é espancado por jovens playboys investidores da Wayne’s Enterprise, e a reação do palhaço, quase que impulsivamente para se defender, é atirar nos três. Como Thomas Wayne vai se pronunciar sobre o ato? Que são três garotos exemplares, assassinados por um ressentido que tem inveja das grandes conquistas daqueles jovens investidores. É um discurso recauchutado sobre meritocracia e, supostamente, a sociedade dos mais fortes. Nem cogitaram a possibilidade de serem três idiotas que estavam assediando uma mulher e espancando um coitado qualquer. Se um pobre “que não é bem-sucedido” o matou, com certeza foi por “inveja”.


A sequência desses fatos, conjuntamente com as medidas neoliberais de austeridade demandada pelos ricos “esforçados e bem-sucedidos” – fechando clínicas de psiquiatria e postos de assistência social, inclusive onde Arthur Fleck necessitava frequentar por seu tratamento e remédios – vão, como em uma cadeia de eventos, se somando a outros problemas sociais e pessoais, explodindo mais tarde no surgimento da personalidade que conhecemos por Coringa.


Assim, para os “pobres” de Gotham, o Joker se torna o símbolo da reação e da insatisfação perante esse mesmo quadro. A austeridade e a “ordem” dos ricos são respondidas pela insatisfação e pelo “caos” dos pobres. A violência substantiva e concreta, que nunca é tida como “violenta”, perpetrada pelo desemprego, pela fome, pelos cortes neoliberais, é respondida por atos violentos radicalizados e descontrolados de parcelas das massas mais empobrecidas da cidade.


De uma forma geral, a cidade é tomada por uma onda de protestos que não tem como raiz o Coringa, mas apenas o seu estopim.


2 – PARASITA (기생충), DE BONG JOON-HO (봉준호)


Neste filme, a família do senhor Kim Ki-Taek está toda desempregada. Moram num apartamento que na verdade é um porão, e vez ou outra conseguem um bico de dobradores de caixa de pizza, o que lhes rende uma renda de miséria para tentar sobreviver. Kim Ki-Woo, filho do senhor Ki-Taek, consegue um emprego temporário de tutor de aulas de inglês de uma menina de uma família rica, o que mudará drasticamente a vida da família.


Adentrando na casa de um rico executivo sul coreano, além de conseguir emprego para si, Ki-Woo busca, por meio de “artimanhas” e métodos não muito éticos, empregar os restantes dos membros de sua família: sua irmã, seu pai e sua mãe. Esse processo desencadeia uma trama visceral sobre como as camadas mais pobres da Coreia do Sul vivem e morrem em busca do mínimo de dignidade – mesmo que nesta busca questões como “bem” ou “mal”, “certo” e “errado” passem a ser relativizados –, e traz a luz um debate forte sobre desigualdades e austeridade na Coreia do Sul.


O próprio título do filme “Parasita” passa a ideia de um organismo que está além dos preceitos morais e éticos mais comuns. Segundo o próprio diretor Bong Joon-Ho, não há bondade ou maldade, certo ou errado, nas atitudes naturais de um parasita, ele faz o que faz para sobreviver e tão somente por isso, é o seu modo de vida. Esta é a metáfora que Joon-Ho quis levar aos protagonistas de sua obra.


Na contraparte da precarizada e pobre família Kim, temos a família Park, donde o Sr. Park é o chefe executivo de uma empresa renomada da Coreia do Sul. Em sua casa, moram sua esposa, filha e filho caçula. A família, além de muito rica, goza de empregados aos montes na sua empresa, mas também “necessitam” de empregados particulares na casa, desde a motoristas, governanta, tutores e professores particulares para os seus filhos. Além de ricos, são visivelmente americanófilos, colocando os Estados Unidos como uma referência de vida, de moral e de consumo – não à toa querem que sua filha aprenda inglês o quanto antes e mandam seu filho caçula para ser instruído como um tradicional “garoto escoteiro americano”.


O fosso de desigualdade da Coreia do Sul é retratado e citado no filme em vários momentos.


Há metáforas sobre como a “chuva” atinge de formas diferentes a alta burguesia coreana e uma família de trabalhadores precarizados: a chuva foi muito bem-vinda pelos mais abastados, proporcionando um momento de lazer em seu jardim, enquanto no bairro da família do sr. Kim, onde os mesmos possuem uma residência numa cave, um semi-porão, num dos níveis mais baixos da cidade, a chuva alagou completamente as suas casas, misturando-se inclusive com água da fossa e as lamas da rua. A distribuição das classes sociais tem uma metáfora até geográfica sobre a “altitude” de suas residências.


O problema de desemprego da família do sr. Kim, mesmo que todos integrantes de sua família fossem ótimos profissionais e habilidosos no que fazem, são somados em outros diálogos do filme com a impossibilidade de certo personagem de se aposentar – devido as normas previdenciárias do país – e a forma torpe e insana como ele tem de “viver” para sobreviver num bunker subterrâneo da casa de um burguês.


As circunstâncias postas no filme podem fazer o público terem uma mescla de pena, lamento e ao mesmo tempo ódio, pela situação que certos personagens vivem. Mas tudo isto, claro, cresce numa escalada muito bem trabalhada na sequência de cenas.


Seguindo isto, numa sequência de incidentes “insanos”, a vida da família do sr. Kim Ki-Taek vira de ponta-cabeça, e a relação às vezes até de adoração à rica família Park é deixada de lado e substituída por um ódio visceral ao burguês em questão, muito por causa da própria forma como o sr. Park tratava e percebia os trabalhadores e pessoas de origem humilde – sobre o mau cheiro das pessoas, o cheiro “de pobre”, a forma como o mesmo desumanizou pessoas que lhes prestavam respeito...


O fato é que, Kim Ki-Taek, com o acúmulo de situações abordadas no filme em torno de sua família e sua pessoa, somando-se as posturas do sr. Park, acaba tendo um momento “Joker” e se toma por violência e ódio em uma forma um tanto quanto surpreendente.


3 – BACURAU, DE KLEBER MENDONÇA E DORNELLES


Em Bacurau temos ambientado uma comunidade rural em “um futuro não muito distante”, mas que é avassalada pelos problemas que agridem o sertão nordestino no tempo presente: o latifúndio, conflito por terra, conflito por água, seca, presença de jagunços e política local com resquícios de coronelismo (o prefeito é um típico latifundiário sertanejo e representante de sua classe).


A comunidade faz parte do município fictício de Serra Verde e sobrevive a duras penas em meio à seca, à falta de ajuda governamental, graças a força de vontade da população local, bem como da ajuda de seus parentes que residem em localidades relativamente mais prósperas, a exemplo de Tereza, neta de Carmelita (falecida líder da comunidade), que parece vir de Recife trazendo vacinas, remédios e outros mantimentos.


Importante salientar que a narrativa do filme não parece privilegiar nenhum protagonista em específico, mas colocar a própria “comunidade” como protagonista e epicentro da trama, donde os personagens são meros agentes por meio do qual a comunidade atua, fato que faz com que nenhum personagem em específico da comunidade permaneça em destaque absoluto por todo o tempo da obra.


Plínio, pai da recém-chegada Tereza e filho de Carmelita, é atualmente o líder da comunidade. Em certo momento ele percebe que Bacurau passou a ficar fora dos mapas onlines. Mais tarde, as redes de comunicação, que forneciam internet e rede de telefonia à comunidade, foram todas cortadas.


O fato é que, seguindo uma premissa semelhante a obra Uma Noite de Crime, a população de Bacurau se vê vítima de uma conspiração de forasteiros que querem fazer da comunidade um safari para realizações de purgas, numa competição de psicopatas em busca de pontuações por “nativos alvejados”.


Como típico cenário marcado por latifundiários e jagunços, o banditismo social acaba aparecendo, e Lunga, o líder de um bando destes bandidos locais que costumam trocar tiros com jagunços que protegem regiões com água, é convocado por um matador de aluguel que reside em Bacurau, para ajudar a população a se proteger.


A comunidade de Bacurau é tipicamente “pacífica” mesmo com todos os problemas que lá assolam, mas em meio a essa situação muito peculiar acaba tendo de recorrer a violência como último recurso. Na percepção do telespectador, da violência como espetáculo.


Este é o clímax de Bacurau.


4 – PONDERAÇÕES SOBRE OS FILMES


Do seu jeito peculiar Coringa e Parasita podem potencialmente até serem mais politizantes que Bacurau, onde, os elementos políticos deste último são mais perceptíveis a quem já possuem algum “nível de consciência” – fato tal que foi um filme tão aclamado nas camadas urbanas mais “jovens” e “progressistas” do Brasil, sobretudo do Nordeste. Coringa e Parasita, todavia, tem um público mais amplo, com um potencial de cativar certo “ódio” até em pessoas politicamente “leigas”.


Coringa tornou-se um símbolo semelhante ao próprio filme V de Vingança ou a série La Casa de Papel, em que o rosto do palhaço já pode ser visto em alguns protestos pelo mundo, sobretudo no Chile, onde o problema da previdência e os regimes de austeridade e neoliberalismo são muito agressivos – não muito diferente da Gotham City. Entretanto, a perspectiva de violência encarnada em Joker, é da reação violenta das massas, mas em um tom caótico e desorganizado, o que, é óbvio, pode causar excessos ilógicos e entre outros danos que seriam preferíveis evitar, por meio da organização desse caos, e da transformação da violência desorganizada em violência organizada, pautada por certos princípios revolucionários que devemos advogar. Isto, necessariamente, acabaria adentrando na noção de moralidade revolucionária, ética, disciplina, necessidade de estudar e também de se organizar coletivamente.


Evidentemente, não se pode esperar esse nível de consciência de filmes da indústria cultural, ainda que ele tenha incomodado de forma voraz o establishment norte-americano, nos jornais e nas declarações de figuras políticas da direita e “esquerda”, que abordavam o filme como uma obra por demais “extremista”.


Segundo a concepção da esquerda social-liberal, o filme seria praticamente o responsável por todo atentado escolar ou de “incels” praticados após sua exibição, porque encorajariam os “héteros brancos que se sentem excluídos” a reagirem de forma “extremada”, o que “é um risco a democracia e a paz”. Na contrapartida, na direita abundava comentários negativos sobre como a obra fomentava um “ódio aos ricos” e de como isso não seria bom para a consciência do povo.


Mas é preciso ter em conta que essas proposições se limitam aí. O filme pode nos preencher de ódio à normalidade das relações interpessoais contemporâneas, onde tudo é atomizado e a indiferença pela coletividade é pisoteada por um sistema econômico que fomenta o egoísmo, mas não vai além, não traz uma proposição de alternativa a isto, ou mesmo dos métodos corretos para construir esta alternativa.


Parasita está num horizonte semelhante.


Quem não assistiu ao filme e não se sentiu na pele o ódio do sr. Kim pelo magnata sr. Park, é alguém morto por dentro. Porém, quem viu o filme se recordará que a perspectiva passada pelo filho do Sr. Kim Ki-Taek, o jovem Ki-Woo, é a idílica ideia de que um dia “ficará muito rico” e que com isso conseguirá “salvar seu pai”.


O filme denuncia a brutal desigualdade sul coreana, mas ao mesmo tempo demonstra como nem em circunstâncias infernais o jovem pobre e desempregado abandona a ilusão de que poderá ser rico tal como o sr. Park, dando um tom um pouco pessimista ao final da obra.


As chagas da sociedade capitalista sul coreana são denunciadas e expostas com maestria pelo filme de Bong Joon-ho, mas a linha de incógnita passada nos minutos finais da obra, traz uma percepção de que pouco há o que ser feito. Quais as opções? Agir como Kim Ki-Taek que teve um momento de violência súbita e de violência irracional contra o burguês, somando isso a um cenário de caos semelhante ao promovido pelo personagem Coringa? Agir como o filho, o Kim Ki-Woo, e realizar planos sobre como “ficar rico”?


No grosso do enredo, estas obras são realisticamente espetaculares, mas pecam quanto a construção de um processo alternativo. Bacurau, todavia, faz o caminho inverso: tem elementos mais positivos quanto a necessidade da violência, mas com ponderações que precisam ser levadas em conta no enredo e na ambientação mais geral.


Ainda que a violência em Bacurau seja mais um elemento da “violência como espetáculo” – o que lembra um pouco obras de Quentin Tarantino – a mensagem é bastante clara: contra inimigos armados até os dentes que estejam dispostos a lhe matar, você não deve se comportar como um cordeiro passivo rumo ao abate, mas responder violentamente e, se necessário, até em níveis mais elevados.


Mas é bom ter em conta algumas irrealidades da obra de Bacurau. Por exemplo, é irreal pensar que uma situação social como a encontrada no filme – latifúndio, luta incessante pela terra, dependência descomunal pelas forças da natureza para trabalhar a terra –, ainda que seja pensada “alguns anos no futuro”, vá ser tão absurdamente diferente da realidade atual.


Inconcebível pensar, por exemplo, que nestas mesmas circunstâncias sociais, a relação da comunidade com a prostituição seria tão harmônica quanto o é no filme (que nas comunidades rurais a prostituição é abundante, mas as prostitutas são sempre tratadas como um elemento marginalizado, nunca no epicentro da comunidade rural, de uma forma bem “digerida” por todos).


A noção de moralidade da comunidade é um tanto quanto “pra frentex” seja em ter como duas de suas líderes comunitárias mais respeitadas um casal de lésbicas, seja a sexualidade ser um tanto quanto “liberal” de uma forma geral, ou mesmo a relação que a comunidade tem com drogas psicoativas, como o “psicotrópico” usado no velório de Carmelita e em outros momentos do filme.


As mesmas circunstâncias que levam ao banditismo, via de regra, são as responsáveis pela força que há nestas mesmas regiões do catolicismo mais fervoroso e das superstições mais inflexíveis – fenômenos como o messianismo de Canudos, o sebastianismo em torno da morte de Quirino, o gatilheiro, estão dentro deste contexto . Experimente falar em qualquer comunidade rural sobre Padre Cícero, Frei Damião ou contra a própria Igreja Católica e você será mais execrado do que que árbitro ladrão em jogo de futebol. Existem problemas endêmicos sobre as “drogas sociais” quanto ao alcoolismo e ao próprio tabagismo, mas qualquer outra droga é vista como, via de regra, com maus olhos, e não usada de forma sistemática como é no filme, ainda mais se tratando de um psicotrópico.


Tudo isso nos leva a crer o seguinte ponto: a obra, muito bem elaborada do ponto de vista técnico e tocando em temas políticos importantes (como a violência de resistência numa comunidade rural), ainda que ambiente o meio interiorano, não foi um filme feito para um camponês e um trabalhador rural típico assistir e se identificar, ou identificar ali a sua comunidade. Foi uma obra com um público um pouco mais específico que este, pensado sobretudo para as camadas médias progressistas (do meio urbano).


Basta prestar atenção na recepção do filme, e perceber que esta provavelmente foi a própria intenção do Kleber Mendonça Filho, já que inclusive este é seu público alvo e é um setor do qual ele próprio, como diretor se insere, entre artistas, intelectuais, ativistas, cinéfilos, etc., de esquerda, mais próximos da influência do filo-petismo e do ativismo urbano (como o Ocupe Estelita de Recife).


Pautando certa “liberdade poética”, sob a justificativa de se tratar de uma distopia ficcional, o filme aborda a resistência armada de uma comunidade rural que pouco teria condições de permear o ideário e a própria identidade de uma comunidade rural real. Obviamente, estas ressalvas não excluem, de modo algum, os méritos desta e das demais obras acima citadas.


5 – CATARSE E VIOLÊNCIA


Apesar das ressalvas pontuadas no tópico acima, é importante salientar que todos estes três filmes figuram entre as melhoras obras cinematográficas deste ano, algumas delas até de nosso século.


A catarse, a ebulição da tragédia social, que não é mais tolerada, transforma homens e mulheres comuns em pessoas que se percebem como seres humanos que têm nada a perder. E o homem sem nada a perder, já diria Malcolm X, é a criação mais perigosa que pode existir.


O que explica o sucesso de bilheteria de uma releitura sobre o desenvolvimento de um vilão, à revelia do establishment e de boa parte da crítica especializada terem disparado opiniões negativas por todos os lados? Além de todas as qualidades técnicas e cinematográficas, a resposta está também naquilo que nos toca e no que nos identificamos. No fato de estarmos cansados de empregos medíocres, das hostilidades de um patrão idiota e do escárnio de burgueses que não enxergam o mundo abaixo de seus narizes. Cansados de trabalhos precários e de salários de misérias.


Parasita também está em grande repercussão internacional, embora seja um filme sul coreano – o que explica o fato dele não ser tão conhecido aqui no Brasil. Ainda que façamos ponderações sobre dilemas éticos a partir das atitudes da família Kim, e ainda que não possamos justificar a maior parte de seus atos, é necessário ao menos compreender as circunstâncias que levaram o sr. Kim Ki-Taek a cometer tal ato de violência, e a família Kim a ter buscado se “infiltrar” na casa indevidamente na busca por empregos dignos. Aqui, a discussão sobre as reações violentas tidas em Joker ganham outro pano de fundo e são revestidas com o explícito ódio de classe incorporado na visão do senhor Ki-Taek.


Bacurau, por outro lado, um pouco mais do que discussões puramente “de classes” (como em Parasita) ou sobre a decadência do capitalismo contemporâneo (como em Coringa) pode dar pano para debates quanto a questão nacional. De uma forma mais ou menos inédita os gringos são estereotipados como sociopatas irracionais e reacionários, pessoas que veem o Terceiro Mundo como formado por nativos não-humanos, enquanto a razoabilidade e a violência justificada estão do lado da população local. Aqui, uma comunidade mais ou menos orgânica, que tem consciência de si e de sua coletividade, resiste violentamente a invasão estrangeira sob formas mais ou menos organizadas, ainda que esta violência apareça como fenômeno excepcional e não como necessidade intrínseca de emancipação. O filme não traz um projeto alternativo de poder, de sociedade, a violência aqui não é para fazer o povo ultrapassar a própria violência substantiva da penúria vivida, mas unicamente por uma emergência de sobrevivência mais imediata. Mas as lições ainda assim podem ser tomadas.


É inexorável que as lições que podemos tirar de todas estas três magníficas obras, se olhados por uma percepção crítica e revolucionária é a de que nem toda violência é igual e que, sim, existem violências que se justificam mais do que outras em determinas circunstâncias e em determinados contextos. As massas de Gotham não precisam ser menos afeitas à violência, mas organizá-las; as massas empobrecidas da Coreia do Sul não devem substituir seu ódio pela adoração dos mais ricos, mas usar este mesmo sentimento como combustível para transformações e rupturas, também violentas; a comunidade de Bacurau não deve largar as armas, mas empunhá-las até onde for necessário, não só por sua sobrevivência, mas ultrapassando esses limites mais imediatos e desenvolvendo a reforma agrária e demais demandas dos camponeses sob insígnia das armas, não se limitando a Bacurau mais a todo o país.


É necessário compreender as circunstâncias adversas que criam figuras como Arthur Fleck, Ki-Taek e Lunga, ao passo que devamos ir além delas próprias.


É preciso ir além de uma reação violenta desorganizada e ir além do banditismo social. Catarse e violência precisam ser canalizados num projeto, o banditismo precisa ser substituído por organizações políticas sólidas e o caos precisa ser organizado.


Obviamente, todos estes elementos estão muito além das propostas dos três filmes, mas eles já nos dão passos importantes na discussão desses assuntos, e ir além disso não são compromissos exatamente de seus diretores e produtores, mas tão somente obrigações nossas.


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