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Carlos Lyra: um bossa-nova-marxista



Como sempre, Carlos Lyra está na oposição, descontente com muito do que acontece no Brasil contemporâneo, política e culturalmente. Mas, mesmo crítico de Dilma e aliados, não embarca na nostalgia ditatorial, em marchas da família e que tais.


“Essa coisa de pedir a volta dos militares é uma grande bobagem. Quem viveu ou se informou sobre aquele período não entra nessa”, garante ele, corpo sarado e queimado de sol como um autêntico carioca bossa-novista que é, em nada aparentando os 77 anos bem rodados.


Às vésperas dos 50 anos do golpe que instalou a ditadura, o cantor e compositor é testemunha ocular dessa História. E estava no olho do furacão, como relembrou no livro de memórias “Eu & a bossa” (editado em 2008 acompanhado de um CD duplo reunindo muitos de seus clássicos em 48 faixas).


“Entre a noite de 31 de março e a manhã de 1º de abril nos foi pregada a maior peça de que jamais tivemos memória. Por volta das nove horas daquela noite, cheguei à sede da UNE. Junto ao portão principal da sede, achavam-se Vianninha e outros participantes do CPC. Já haviam chegado cerca de duzentas pessoas, entre artistas, intelectuais e estudantes que vinham prestar solidariedade a esses últimos que acabavam de sofrer ali mesmo um atentado por parte do MAC (Movimento Anticomunista) composto por estudantes da direita radical (…). Mal acabamos de entrar, ouvimos o ruído seco e aterrador dos tiros de metralhadora (…) Quando mais tarde tentamos voltar ao prédio da UNE, nem sequer podíamos nos aproximar. Os componentes do MAC haviam retornado ao local e, diante da total impassibilidade dos fuzileiros navais, atearam fogo ao prédio (…). Pessoalmente, tenho sérias dúvidas de qual seria, dali pra frente, a maior ameaça: a ditadura militar ou a mediocridade que, aproveitando-se da ditadura, estabeleceu-se em todas as áreas da cultura (…). Em conversa com o amigo e jornalista Jânio de Freitas – uma espécie de conselheiro artístico e guru político -, ouvi dele: ‘Numa hora dessas, ou se pega em armas ou se pega um avião’”.


Como se sabe, Lyra optou pela segunda pegada, embarcando para os EUA com suas armas: o violão, a voz e um repertório que àquela altura começava a rodar o mundo nos braços do jazz. Viajou, no fim de 1964, com trabalho garantido, uma turnê com o saxofonista Paul Winter promovendo o álbum “The sound of Ipanema”, que os dois tinham gravado no verão carioca, lançado em julho daquele ano nos EUA pela Columbia. Começava um auto-exílio de quase seis anos, com uma única e rápida passagem por São Paulo para um show com o grupo de Stan Getz.


Em 1962, graças a uma turnê pela América do Sul bancada pelo Departamento de Estado dos EUA, o saxofonista americano foi um dos primeiros jazzmen a entrar em contato com os novos sons brasileiros, fazendo com seu Paul Winter Sextet o disco “Jazz meets bossa nova”. Um simpático encontro, mas híbrido, de cintura dura. Dois anos depois, Winter voltou ao Rio disposto a fazer a coisa certa, e dessa vez cercado por brasileiros gravou “The sound of Ipanema” com um time de sonhos: Carlos Lyra (que cantou, tocou violão e é o autor das 11 canções), Sérgio Mendes (piano), Tião Neto (baixo) e Milton Banana (bateria). Detalhe, esse disco está inédito no Brasil (alô Sony Music!, tem data redonda aí) e ainda não teve vez na iTunes Store (alô alguém!).

Mas, voltando ao período pré-golpe, em 1964, Carlos Lyra já contribuira com clássicos fundadores da bossa nova como “Você e eu”, “Coisa mais linda”, “Minha namorada”, “Samba do carioca”, “Primavera” (todas da rica parceria com Vinicius), “Lobo bobo”, “Saudade fez um samba”, “Canção que morre no ar” (estas da não menos genial parceria com Bôscoli), “Maria Ninguém”, “Influência do jazz” (duas nas quais também fez a letra), “Quem quiser encontrar o amor”, “Aruanda” (duas com Geraldo Vandré)…


Seu primeiro álbum solo, “Bossa nova”, é de 1959, mesmo ano do álbum de estreia de João Gilberto, mas, nos primeiros anos da década de 60, Lyra enveredou por temática muito além dos limites da Zona Sul carioca, preocupado com questões sociais e políticas. Como um dos diretores do CPC (o Centro Popular de Cultura da União Nacional de Estudantes) e também um comunista de carteirinha, pode parecer contraditório que tenha se abrigado nos EUA, mas, 50 anos depois, Lyra não se arrepende e assegura que, ideologicamente, continua o mesmo.


“Ainda sou marxista, mas distante do leninismo, do stalinismo, de todos os regimes totalitários, continuo pedindo por mais justiça social. Infelizmente, nesses quesitos o Brasil pouco avançou, a desigualdade é enorme, assim como a corrupção”, diz ele, contando como ocorreu essa guinada.


“Foi quando comecei a trabalhar com o pessoal do Teatro de Arena em São Paulo. As conversas com Guarnieri, Boal, Vianninha, entre outros, fizeram a minha cabeça. Comecei a ler Marx, entrei para o Partido Comunista, que na época tinha também entre seus quadros gente como Jorge Amado, Dias Gomes…”. Uma virada e tanto para o rapaz nascido em Botafogo, filho do um oficial da marinha, e que na véspera de prestar o vestibular para arquitetura trocou as pranchetas pela música.


“Meu pai tinha sido integralista, assim como Vinicius (de Moraes), e acho que teria também passado para a esquerda. Mas ele morreu muito cedo, em 1946, contaminado pela radiação ao trabalhar como ofical da Marinha e engenheiro eletrônico nos primeiros submarinos que o Brasil teve”.


Vinicius de Moraes, parceiro de Lyra tanto nos clássicos da bossa como quanto no panfletário “Hino da UNE”, também virou para a esquerda na época. Já Ronaldo Bôscoli ficou de mal.


“Apesar de ‘esquerdista’ no nome, Ronaldo Fernando Esquerdo e Bôscoli, ele estava no outro lado. Já o Tom se mantinha neutro, o que não impediu que também fosse perseguido e censurado nos anos 1970. Nessa época, Jobim brincava com a gente dizendo que era da ‘direita festiva’”.


Lyra passou seus seis anos de auto-exílio entre os EUA e o México, onde chegou em 1966 numa turnê com o grupo de Stan Getz. Na capital mexicana, alugou uma casa do escritor Carlos Fuentes no bairro de San Angel, entre seus vizinhos estava o poeta Octavio Paz e até montou uma versão em espanhol do musical “Pobre menina rica” com uma equipe de tradutores que incluía o colombiano Gabriel García Márquez. De volta ao Brasil em 1971, percebeu que a barra estava mais pesada ainda, mas, como o título de seu sexto disco anunciava: “…e no entanto é preciso cantar”. Em 1975, lançou “Herói do medo” e passou mais dois anos fora, desta vez em Los Angeles, onde fez a terapia do Grito Primal (de Arthur Janov, que teve entre seus pacientes John Lennon) e descobriu a astrologia sideral. Como também contou em “Eu & a bossa”…”Tudo isso sem deixar de ser materialista dialético, só que de olho na bruxaria…”.


Em 2014, é nítido que a mistura de, entre outros ingredientes, carioquice, bossa-nova, marxismo, astrologia sideral, grito primal, tem funcionado muito bem para o botafoguense Carlos Eduardo Lyra Barbosa. Conversador fluente, humor aguçado, opiniões contundentes, sem meias palavras, ele também continua de bem com sua música. No dia 11 de abril, fará um espetáculo ao ar livre em Brasília, na II Bienal Brasil do Livro e da Leitura.


“Será um show temático, com minhas canções mais políticas, tanto as da época do CPC quanto as que sofreram com a censura nos anos 70. Ou seja, pela primeira vez não vou cantar ‘Minha namorada’. Estou trabalhando nos arranjos para esse repertório, comigo e um quarteto de piano, baixo, bateria e sopros.”


Será a vez de temas como “Samba da legalidade” (parceria com Zé Keti), “Feio não é bonito” (com Guarnieri), “Hino da UNE” (com Vinicius), “Canção do subdesenvolvido” (com Chico de Assis) e a premonitória “Marcha da quarta-feira de cinzas”.


“Vinicius e eu fizemos a ‘Marcha…’ em 1963, no mesmo dia em que também escrevemos o ‘Hino da UNE’. Posteriormente, muitos interpretaram essa música como de protesto, de contestação ao golpe de 64 devido a versos como ‘Acabou nosso carnaval / Ninguém ouve cantar canções / Ninguém passa mais brincando feliz…’. Sem dúvida, nessa letra Vinicius parecia advinhar o que teríamos pela frente”.

Em seguida, Lyra começa a preparar outro show, de repertório mais abrangente, para a partir de setembro rodar algumas cidades brasileiras comemorando os 60 anos de carreira. O marco para essa contagem é a primeira composição gravada, “Menino”, por Sylvia Telles, num compacto lançado em 1955 que trazia no outro lado “Foi a noite”, de Tom Jobim e Newton Mendonça. Nesse mesmo ano, e com o sexo original, “Menina” ganhou o Festival da Canção da TV Rio, na voz de Geraldo Vandré (na época, ainda assinando Geraldo Dias). Assunto para outros postes, já que não faltam histórias de Carlos Lyra e sua obra.


Matéria original, no G1.

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