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Carnaval autêntico VS Carnaval-espetáculo: existe mesmo essa dicotomia? (por Gabriel Deslandes)

Os críticos da cultura de massa costumam enxergar no carnaval do Rio o dilema da espetacularização. O modelo de espetáculo carnavalesco seria problemático devido à sua natureza cênica, entendendo a separação entre o palco (onde se apresentam os artistas) e a plateia leiga como uma assimetria nas relações sociais. A representação artística no palco se definiria pela manifestação calculada da aparência para a contemplação e o aplauso de estranhos.


Logo, a espetacularidade desviaria o carnaval de uma unidade comunitária e espontânea, desprezaria a memória coletiva e internalizaria na festa uma vontade de dominação comunicativa, com o objetivo de construir uma homogeneidade por cima das desigualdades socioculturais da sociedade carioca e brasileira.


Assim, para esses teóricos, o carnaval-espetáculo é identificado como “falso”, à medida que propõe a simulação e o apelo fácil à percepção com base no glamour artificial das imagens, supostamente eliminando mediações e especificidades (conceito de valor de exibição em Walter Benjamin).


Em relação ao desfile das escolas de samba, a mesma crítica adquiriu contornos dramáticos, ao detectar a intromissão do Estado, da indústria cultural e das empresas de turismo e serviços no cerne do ritual carnavalesco.


Associado ao show business, o desfile teria sido sequestrado de suas matrizes afrobrasileiras, esvaziando seu caráter de ritual subversivo.


Essa denúncia retomou a visão folclorista de “cultura do povo”, fixando uma dicotomia entre o abandono da “autenticidade” popular do samba e o predomínio do “visual”, ou seja, dos elementos alegóricos. Para esse modelo, a presença do “visual” é espúria e desprovida de raízes históricas, ao contrário do samba, ligado às identidades étnicas das comunidades afrobrasileiras proletarizadas.


Assim, na ótica desses críticos, a parte estética configuraria um desvirtuamento do sentido do carnaval e seria peça estandardizada de entretenimento, e o desfile das escolas de samba não faria mais parte da totalidade de uma mesma tradição.


É necessário, contudo, que esse sentido de “espetacularidade” seja reinterpretado.


Rituais da magnitude do carnaval carioca precisam ser estudados não pela perspectiva romântica das fronteiras entre grupos sociais e níveis de cultura, já que existe nesse modelo uma idealização do conceito de “povo” como ser étnico-político homogêneo. Esse tipo de análise geralmente coloca as classes sociais subalternas como reconhecidas por certa uniformidade.


Seria muito mais interessante, como propõe a historiadora Maria Laura Viveiros, observar as práticas culturais a partir das mediações entre as heterogeneidades ambientadas no tecido social urbano do Rio.


Por meio dessa metodologia, conclui ela que a espetacularidade é intrínseca à forma dos desfiles carnavalescos. O ritual carnavalesco se realiza justamente devido a seu formato operístico-dramatúrgico, e está envolvido em uma teia de relações sociais emolduradas na complexa metrópole que é o Rio de Janeiro.


É preciso recuperar as condições sócio-históricas e estruturais responsáveis pela formalização do desfiles das escolas de samba na cidade, seus princípios estéticos e organizacionais e a própria inserção da “festa espetacularizada” na cultura popular.


Optar pela análise das mediações sociais possibilita reafirmar movimentos e experiências de agentes como sujeitos históricos, sem mantê-los atados a fórmulas identitárias românticas e pensando quais mecanismos atuam no contexto urbano do Rio para consagra essa modalidade espetacular de carnaval, ao mesclar festa popular e a lógica da exibição artística.


Gabriel Deslandes (9 de fevereiro de 2018)

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