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Dialética britânica: Escócia, uma região ou nação?


Imagem 01: Protestos em 2014 pela saída do Reino Unido.

Fonte: Telám digital, 2021.


Texto por: Guilherme Melo.


Dedicatória e justificativa

Este é um texto, dedicado ao tema do nacionalismo e resistência patriótica, seja na cultura, política e em último grau, na guerra, em um momento, onde a Europa revive o problema das fronteiras, que é um tema cuja a história e a geografia se dedicaram arduamente, com nomes como Fernand Braudel, Claude Raffestin, Regine Pernoud e Friedrich Ratzel, além de todo acervo da cultura imaterial do ocidente.


Este texto também conta com uma dedicatória à Bruna Schmidt, cujo incentivo ao estudo da língua inglesa e da anglofilia, me fez dedicar este artigo de opinião sobre os problemas históricos da geopolítica local do Reino Unido, em especial pelo livro de Peter Burke e Maria Pallares (2016) “Os Ingleses”.


O distanciamento histórico é uma das necessidades para o conhecimento e interpretação dos fatos, cuja revelação de seu processo dar-se de modo sincrônico, a potência ativa para uma determinada conclusão de tendência finalística do desencadeamento de fatos é melhor interpretado ao final de um determinado ciclo de acontecimentos.


Por isso, a existência de assuntos sensíveis no leste europeu pode ser considerada prematura para uma análise teórica, cuja a descrição dos fatos ainda precisa ser concatenada com o acervo institucional dos mecanismos de cooperação internacional do pós-guerra, que possibilitou a criação da OTAN, ONU e outros órgãos multilaterais.


Introdução


Na teoria da Geohistória (BRAUDEL, 1949) e do determinismo geográfico de Friedrich Ratzel (1895), existe uma relação simbiótica entre o homem e o espaço, o seu ser está ligado a sua natureza, enquanto o racionalismo de Descartes, na abertura do movimento iluminismo, descrevia o conhecimento como produto da capacidade inata do homem de alcançar a razão, o materialismo marxista e o determinismo geográfico, tratavam a consciência como produto do meio material.


Em Fernand Braudel, a história está condicionada pelas condições geográficas, ou seja, as técnicas, as instituições, a cultura material são originadas pelas pressões naturais exercidas pelo meio, sendo diminuídas essa pressão, pelo meio do desenvolvimento técnico da civilização.


Processos como a revolução agrícola e antes mesmo, o sedentarismo no neolítico, por meio do domínio da agricultura permitiu ao ser humano diminuir sua simbiose ao meio natural, ele não era somente produto desta pressão natural, do condicionamento dos reforçadores locais, porém, ele agia sobre o meio.


Mas ele não agia, ao contrário de uma tipificação de homem universal, como o Neur Mann de Immanuel Kant, mas sim, um homem que independente da cultura imaterial compartilhada pela humanidade, como representação da condição intelectual do ser humano, no período do iluminismo, onde ideias pretensiosas como o fim do Estado-nação foi pensada, no caso da proposta da Federação da República Universal, deste mesmo filósofo, Immanuel Kant.


Por isso, processos de produção da cultura material e imaterial de populações nativas e disciplinas como da História nacional, são relevantes para a compreensão de fenômenos localizados, na condição de estudos de casos, não dispensando a sua possível relação com uma matéria universal, útil ao domínio científico e a contribuição para a criação de um patrimônio cultural da civilização.


É com esta pretensão, que dentro da filosofia liberal aplicada as relações internacionais, pode-se cometer equívocos ao propor generalizações, como se o fato de países participarem de órgãos multilaterais, agendas compartilhadas, a criação de um mercado comum e a semi-soberania excluíssem obrigatoriamente os processos territoriais locais de média escala, que venham ou não interagir com uma escala global.


O objeto propriamente dito


As pretensões expansionistas da Inglaterra, já se revelavam na baixa idade média, com Eduardo I de Inglaterra, rei de 1272 até 1307, quando ao fazer uma declaração de força sobre o reino inglês disse que era necessário provar que os ingleses sabiam governar a si mesmos, governando a sua própria ilha.


Hoje, as ilhas britânicas são povoadas por três povos, a Escócia, Inglaterra e País de Gales e essa unificação passou longe de ser pacífica; ao norte da ilha, povos célticos, como os Pictos e Gaélicos disputaram o domínio da região, até serem unidos, no ano 900 D.C.


Esta unificação fora feita por Dominal II, Rei de Alba, um nome gaélico, versão etimológica da palavra “Escócia” neste antigo idioma, a consolidação desta unificação do reino se dá num processo histórico, amadurecido em décadas depois, com o rei Athelstan; o primeiro Rei da Inglaterra.


No ano 927, ele conquista o reino de York, que estava no contexto das invasões bárbaras, posterior ao Império Romano, onde, no caso os dinamarqueses, por meio de suas navegações, deslumbravam realizar pilhagens em reinos europeus ao oeste, após estabelecerem este mesmo mecanismo nos países bálticos e no Reino de Kiev, atual ucrânia.

Ele contribuiu para a formação da cristandade medieval, inspirado em Carlos Magno, criou leis contra fraudes e foi coroado como o primeiro Rei da Inglaterra e consolidou a nobreza como a classe dominante do período medieval, por meio do assentamento de nobres em terras.


A Idade Média, tal como se apresentava, corria o risco de nunca conhecer senão caos e decomposição. Nascida de um império desmoronando e de vagas de invasões sucessivas, formada por povos desarmónicos que tinham cada um os seus usos, os seus quadros e a sua ordem social diferentes, quando não opostos – e quase todos um sentido muito vivo das castas, da sua superioridade de vencedores, ela deveria apresentar, e não apresentou, de facto, nos seus começos, senão o mais inconcebível esboroamento. (PERNOUD,1997, p.47)


A nobreza feudal era produto do êxodo urbano, provocado pelo fim da Pax Romana, que era justamente a unificação da Europa sobre um Império, um exército, ao decair, este mesmo Império, permite as invasões germânicas e nórdicas, a vida urbana torna-se insegura e milícias e antigos corpos oficiais se organizam para criar uma atividade econômica de proteção as propriedades agrícolas.


Tal como nos aparece no século X, a sociedade assim compreendida apresenta como traço essencial a noção de solidariedade familiar saída dos costume bárbaros, germânico ou nórdicos. A família é considerada como um corpo, em todo o membros do qual circula um mesmo sangue, ou como um mundo reduzido, desempenhando cada ser o eu papel como consciência de fazer parte de um todo. (PERNOUD, 1997, p.16)


São estes costumes e tal organização que vão dá origem aos clãs, os assentamentos familiares de tribos dão origem as cidades, que futuramente reunidas darão origem aos Estados, durante o período da monarquia absolutista, esta solidariedade e consciência coletiva é o que permitirá identificar as nações, as fronteiras como algo além de limites físicos, como propriamente uma distinção da identidade nacional.


A primeira guerra entre ingleses e escoceses se deram no contexto da expulsão nórdica das ilhas britânicas, os ingleses, pertencentes ao tronco anglo-saxão, com costumes e instituições se consolidando, fazendo parte da identidade inglesa, viam como ameaça a presença Viking na Escócia.


Disto resultou a Batalha de Brunabburh, 937 d.c. conduzida pelo rei inglês Aethelstan; o clã familiar era de suma importância para as monarquias medievais, pois eram o resultado da unificação de tribos e cidades, ao menos simbolicamente, que distinguiam o interesse de cada segmento nacional, com seus patriarcas e mitos fundadores.


Essa Batalha é de suma importância para a geografia moderna, pois são justamente nas buscas da origem de uma nacionalidade britânica que procura-se provar nos debates acadêmicos a unidade ou diversidade entre os povos da ilha, no limiar do conflito, a Grã-Bretanha era dividida entre celtas na atual Escócia e por Earls descendentes de Vikings na Irlanda e por Anglo-Saxões no centro e sul da atual Inglaterra.

A batalha ocorreu em Liverpool, a precisão geográfica foi produto de pesquisas arqueológicas, o que comprova o interesse científico pelo período e suas repercussões nos debates públicos contemporâneos, pois o evento termina com a vitória inglesa, o território é moldado pelo imaginário anglo-saxão.


O Tratado de York, em 1237, estabeleceu as fronteiras entre a Escócia e a Inglaterra, tal como existem hoje, para o período, a atividade diplomática parecia uma forma de racionalizar e pacificar as relações entre os dois reinos, porém, essa estabilidade foi rompida em 1286.


O Rei Alexandre III, morreu ao cair de seu cavalo, sua filha, Margarete Da Noruega também faleceu aos 4 anos, durante a sua viagem marítima para a Escócia; após a sede do reino encontrar-se vacante, 13 nobres escoceses chegaram à conclusão que para evitar a guerra civil orquestrada por Praças Fortes, era necessário solicitar intervenção do rei inglês.


As praças-fortes mais antigas, aquelas que foram construídas nas épocas de perturbação e de invasões, mostram a marca visível dessa necessidade: a aldeia, as casas dos servos e dos camponeses, estão ligadas às encostas da fortaleza, onde toda a população irá refugiar-se em altura de perigo e onde encontrará ajuda e abastecimento em caso de cerco. (PERNOUD, 1997, p.32)


O Rei Eduardo I, aceitou a tarefa, mas impôs que sua mediação só podia acontecer, se ele se tornasse Lorde da Escócia, esta palavra tem sua origem semântica associada ao Domine do Latim, que significava aquele que tinha um domínio, para o direito romano, senhor era mais que pronome de tratamento.


A Inglaterra nomeou um rei biônico, John Balliol; isso gerou a Primeira Guerra de Independência da Escócia, entre 1314-1328, em 6 de abril de 1320 foi expedida a Declaração de Arboath, carta endereçada ao papa João XXII, escrita por Bernad de Kilwinning, abade da cidade que leva o nome da carta e chanceler da Escócia.


A carta contou com o apoio de 51 senhores feudais e nobres, que proclamavam Roberto I, como o rei legítimo da Escócia, e ela a reconhecia como Estado soberano e independente, a data vem sendo politizada pelo Partido Nacional Escocês, que busca um apelo pela independência escocesa.


Por 200 anos, os conflitos entre ambos os países continuaram, por dois principais motivos, pela relação entre a Escócia e a França e pelas crises de sucessão do trono na Escócia, ao final do século XVI, o país adentra ao contexto das guerras de religiões, por conta da Reforma anglicana no país vizinho, Elizabeth Tudor e a rainha Maria assinaram um tratado de banimento do catolicismo no país.


Após a prisão da Rainha Maria por parte de Elizabeth, faz com que o seu filho Jaime VI, assume o trono de ambos os países, o parlamento escocês é abolido, isto transforma demasiadamente a identidade escocesa, pois, o nacionalismo escocês passou a ver com ceticismo as relações com a Inglaterra e o banimento do catolicismo como um ataque a identidade francesa, uma vez que a Coroa anglicana suprimiu as autoridades escocesas.


O nacionalismo escocês propriamente dito, que era uma reação a aculturação inglesa na Escócia, vem do movimento jacobita, refere-se a um movimento político dos séculos XVII e XVIII, que visava a restauração monárquica da Escócia, um nacionalismo defensivo, advindo de uma nação oprimida.


Ocorreram 4 revoltas católicas escocesas contra os ingleses, sempre apoiada por uma potência católica europeia, a última foi a Batalha de Culloden, quando rebeldes escoceses foram dizimados por 9 mil solados ingleses, os trajes típicos do guerreiro escocês, a roupa xadrez, boinas azuis, o kilt que é uma saia escocesa feito de lã.



Imagem 02: Vestimenta do guerreiro escocês.

Fonte: Um pouquinho de cada lugar, 2018.


Em 1801, é criada o Reino Unido e somente em 1999, o parlamento escocês é recriado, o que acelerou tendências políticas independentistas na Escócia.


Tendências políticas hoje

Depois do movimento jacobita, o nacionalismo escocês volta somente no século XX, mais precisamente no ano de 1947 com a queda do Império Britânico, os nacionalistas escoceses consideram o seu país, uma colônia explorada e a isso devem a causa de sua decadência industrial.

O Partido Nacional Escocês foi o protagonista do nacionalismo na Escócia durante o século XX, fundado em 1934, ganhou força na década de 60 por mobilizar a opinião que os campos de petróleo descobertos no país, eram exclusivamente nacionais, chegou ao poder executivo em 2007.

O movimento adquiriu determinadas vitórias como o projeto de descentralização, que era a semi-soberania da Escócia em 1998 e a restauração do parlamento em 2001; a primeira ministra Nicola Sturgeon, afirmou no dia 2 de janeiro de 2021 que o “Brexit se deu contra a vontade dos escoceses (G1, 2021).

62% dos escoceses se opuseram a deixar a União Europeia, em um contexto de acirrada disputa, ao todo foram 51,9% a favor do Brexit.

Como membro independente da União Europeia, a Escócia seria um sócio e poderia construir pontes, não apenas uma ponte para construir uma economia mais forte e uma sociedade mais justa, mas também uma ponte para facilitar as relações entre UE e Reino Unido. (STURGEON, 2021)


Conclusão


Seguindo o raciocínio de Fernand Braudel, a história regional e a universal encontram-se, numa relação de contraste e complementação entre o peculiar e o universal, assim, a história da Escócia, Inglaterra e do Reino Unido somam-se aos assuntos das monarquias, guerras de religião e Estados nacionais, mas com uma expressão própria desses fenômenos.


Finalmente, os processos e estruturas do tempo longo ou da longa duração histórica percorrem curvas superiores a um século. Eles correspondem às realidades persistentes dentro da história e fazem sentir efetivamente sua presença no decurso dos processos humanos. (ROJAS, 2013, p.29)


Ao fazer uso do jargão histórico, o passado é a chave para o presente, pode-se entender que as disputas, estereótipos nacionais, almejos que as nações ainda desejam escrever na história é uma racionalização do ser escocês, britânico ou inglês propriamente dito, a introjeção de hábitos, costumes, que não são só propriamente britânicos, mas escoceses ou ingleses, que trazem na história uma profunda explicação de diferentes visões de mundo, ainda que compartilhadas sobre uma união política.


Para sintetizar os argumentos do texto, uma citação de ambos anglófilos, Peter Burke e Maria Pallares (2016, p.39); “Para os ingleses, a Escócia é uma região, mas para os escoceses é uma nação”.



Referências


PERNOUD, Régine. Luz Sobre a Idade Média. Trad. António Manuel de Almeida Gonçalves. Mem Martins: Publicações Europa – América, 1997, p. 16, p. 32, p. 47.

Fernand Braudel e as ciências humanas [livro eletrônico] / Carlos Antonio Aguirre Rojas ; tradução: Jurandir Malerba. – Londrina : Eduel, 2013, p. 29.


Os ingleses / Peter Burke, Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke. – São Paulo : Contexto, 2016, p. 39.


Escócia espera ‘voltar’ para União Europeia como nação independente após Brexit. G1, 2021. Disponível em < https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/01/02/escocia-espera-voltar-para-uniao-europeia-como-nacao-independente-apos-brexit.ghtml>. Acesso em 21de fev. 2022.


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