Publicações e Posts


 

Esta é a seção de Postagens e Publicações, partilhadas pelos distintos sites vinculados ao Jornal A Pátria. Para retornar a seção ou blog que estava anteriormente, basta clicar nela abaixo (ou voltar no navegador):

Dossiê do caso Kyle em Kenosha & Lições a se tirar para o campo revolucionário

Atualizado: Set 3

Sequência de ocorridos com base em extenso material audiovisual e lições políticas que devemos tirar do recente incidente em Kenosha (Bruno Torres, com colaboração de Maria Eduarda Kashmir).

Hesitei por um momento a comentar sobre o caso de Kyle Rittenhouse por conta das “fortes emoções” envolvidas no seio da discussão.


Qualquer olhar aparentemente “diferente” na observação do caso Kyle pode parecer aos olhos incautos como uma “relativização” das posições políticas do Kyle ou até – mais gravemente – dos casos de racismo que preenchem boa parte da história dos EUA e praticamente se confundem com a formação do próprio país.

Entretanto, cada vez que apuramos informações mais completas, e tomamos conhecimento de como a sequência de fatos tem sido narrada na esquerda (brasileira e estadunidense), o nosso grau de preocupação deveria crescer.


A quantidade de imprecisões que estão sendo colocadas a fim de justificar nossos pontos de vista (como se nossa posição política precisasse recorrer a desonestidades ou ignorância para se fazer valer) podem prejudicar a própria defesa honesta de nossas posições políticas (e aqui falo tanto de um campo revolucionário mais estrito, quanto da esquerda em geral).

Frente as afirmações sobre fichas criminais (até envolvendo crimes sexuais) de um dos atingidos por Kyle, a reação de muitos desse campo foi análoga a reação de muitos “progressistas” brasileiros para com o caso Suzy (do qual Drauzio Varella se viu no meio de uma ampla campanha política da direita em que associava a esquerda à “defesa de pedófilos e bandidos”).


Não que as gravidades dos crimes dos alvejados por Rittenhouse tenham sido as mesmas da do caso Suzy, nem que isso de alguma forma interfira com o ocorrido em si (afinal, Rittenhouse quando atirou neles não estava buscando suas fichas criminais), mas a postura de uma parte da esquerda frente a exposição desses casos passados foi precisamente a mesma que a que tivemos aqui no Brasil com o caso Suzy – inclusive pautando uma longa postura de negação, de não-aceitação do fato, como quem insistisse para que o mundo não fosse o que é, ou torcendo para que “a ficha não caísse”.


Tanto essas questões que se desdobram para além do caso Rittenhouse quanto o caso em si (a morte de dois manifestantes e um terceiro ferido) deveriam nos trazer importantes lições, nos fazer refletir sobre o que realmente queremos erigir de postura no campo revolucionário, em específico, e na esquerda (mesmo não-revolucionária), em geral.


Ignorar todas essas questões, todavia, podem nos custar caro, e dá de mãos beijadas tudo o que neoconservadores “civilizados” almejam para nos desprestigiar.


A REPERCUSSÃO MIDIÁTICA


Na imprensa em geral, houve quem apenas noticiou o caso das mortes atribuindo a alcunha de “atirador”, em referência ao jovem de 17 anos. Mas tivemos exceções na própria grande imprensa. O próprio portal EXAME noticiou a alcunha de “supremacista”, como pode ser visto na imagem abaixo.

Nas mídias nacionais de esquerda essa alcunha também predominou. Salvo engano, apenas o site Carta Maior trouxe outra abordagem – distinguindo-se do DCM, Pragmatismo Político, entre outros.


Se houve outros portais que assim o fizeram, não nos constam até o momento.


Conhecendo bem o hábito do brasileiro – mesmo entre militantes da esquerda – de reproduzirem manchetes sem ler as matérias, é natural que chamadas como “supremacista branco atira em 3 manifestantes Black Lives Matter” possa trazer uma impressão (semiótica) de que o sujeito foi ao ato matar negros e foi “bem-sucedido” em seus objetivos.

Essa, a propósito, foi a impressão que tive antes de me adentrar nas notícias. A primeira manchete que vi foi a do próprio Exame, e a maioria restante a de portais políticos. O que reforçou em mim essas impressões, até que eu realmente viesse a me aprofundar no caso.

É verdade, o fato de Kyle ter atirado em três brancos não faria um assassinato "deixar de ser" assassinato. Mas nós que trabalhamos com comunicação e política, que temos um compromisso societário e que militamos pela verdade (não só em sua busca, mas em sua "construção") temos que pensar também nisso.


A própria alcunha de supremacista me fez crer – antes da própria apuração das matérias – que Kyle não era um mero eleitor de Trump e um neoconservador que sonha em ser policial. Mas que era um seguidor propriamente dito de um David Duke, um defensor de regras como as Leis Jim Crown ou um neonazista que abomina até mesmo estar perto de negros. Quando inclusive comentei brevemente sobre as impressões que essa alcunha põe na mesa, e questionei se seria o caso do Kyle ser chamado necessariamente de supremacista por conta de suas inclinações reacionárias, fui acusado de “relativizar racismo” (?).

Note que questionar isso não diz respeito a dizer que Kyle não é racista (ou a “defende-lo de acusações de racismo”), mas apenas a pontuação clara de que a definição de racista supremacista deveria ter certos critérios que não necessariamente se enquadrariam, por exemplo, num “liberal racista”, num “neoconservador racista”, etc.


A pessoa que assim discursa não nota que ela própria reforça uma mentira muito vã e tola: o mito de que o racismo só é racismo se for equiparável ao KKK, aos Confederados, ao III Reich, ao Estado etnocêntrico de Israel (estados ou movimentos que pensam na desclassificação de negros e outras etnias, ou de imputação de cidadanias de segunda classe), como se liberais, conservadores “modernos” e até “progressistas” não pudessem ser (ou, ocasionalmente, ter posturas) racistas.


Para além da limitação clara dessas pessoas nesse tema, há que se delegar a responsabilidade também a parcela da “mídia oficial”, “grande imprensa”, e de como portais de esquerda pautaram sua narrativa a partir disso.

Mas afinal, quem realmente é Kyle? Como podemos defini-lo de fato?


O ATIRADOR KYLE RITTENHOUSE


Compreender que a alcunha de “supremacista” pode soar exagero – ainda que isso não exima posições racistas que Kyle possa ter – não significa achar que Kyle representa (e defende) posições políticas acertadas.

Kyle é um forte simpatizante da polícia, das forças de segurança em geral, frequentou programas que visavam “aproximar a polícia da comunidade” como em um projeto chamado “policial mirim”.


Quando o movimento Black Lives Matter se proliferou pelos EUA, dado os sucessivos casos de violência policial contra a população negra, bem como abusos de abordagem contra negros (que nos EUA sempre houveram aos montes), surgiram campanhas “paródias” como “Blue Lives Matter” (Vidas Azuis Importam), com o azul sendo uma referência a cor das fardas da polícia.


Quando no Brasil há incidentes nefastos por parte da polícia e outras autoridades (como são mais famosos os casos do RJ), tais como o caso do músico que foi morto baleado pelo Exército dentro de seu próprio carro, e quando levantamos críticas radicais a essas instituições e a forma como tratam a população pobre brasileira (sobretudo e enfaticamente a população parda e negra, embora não apenas) é natural que surjam campanhas falaciosas da direita como se tentando “limpar a barra” desses graves crimes que realizam contra nossa população. “Um músico inocente morreu baleado... É... Mas.... E os policiais que também morrem?!!”..

Essa retórica que temos aqui é muito análoga ao que entusiastas do Blue Lives Matter fazem.


Até onde nos consta, o rapaz de 17 anos se enquadra nesse campo, e publicou em suas redes “tags” dessa campanha (Blue Lives Matter). Como pode ser visto na imagem ao lado.


Kyle também não é um residente de Kenosha. Até onde apuramos e pode ser confirmado em centenas de portais, ele foi na cidade de ônibus com outras pessoas (talvez também outros milicianos civis).


Afirmam que estava indo a outra cidade como voluntário para "defender pessoas", "defender propriedades, pequenos negócios", há quem afirme que ele além de ter sido membro de programas como "polícia mirim" também se filiou em programas de voluntários que "limpavam pixações" de muros (embora não pareça ser exatamente isso que ele tenha ido fazer em Kenosha).

A propósito, quanto ao fato dele não residir em Kenosha, e sim em outra localidade, advém também o fato de que talvez ele possa manejar armas onde foi criado, mas que não poderia fazer em Kenosha (a legislação americana varia drasticamente de um local para o outro até em estados vizinhos e cidades em fronteiras de estados que também são vizinhas).

Disso decorre que: 1) ou Kyle não sabia que não poderia portar armas com sua idade em Kenosha (permissão só a partir dos 21 anos, e ele tinha 17), ou 2) ele sabia dessa lei, mas não se importou em obedecê-la.

Bem, esse é um resumo de quem é Kyle, e é aí que se enquadra esse garoto na “arena política” norte-americana: Um eleitor de Trump (como a maior parte da população pobre branca ou de suburbanos brancos de classe média), entusiasta e pretenso policial (como seu “sonho de carreira”), sendo, aparentemente mais próximo de uma linha política neoconservadora, e que estava, naquela ocasião, junto com um grupo de civis armados que foram chamados de "milicianos".


Isso já constitui elementos suficientes para que ele esteja “do outro lado” da arena política em que nós, revolucionários, devemos estar, sem que necessariamente precisemos “esticar a definição das coisas”. Ou para você um inimigo ou potencial inimigo precisa necessariamente ser um supremacista? Liberais “comuns”, defensores da manutenção da ordem imperialista, da hegemonia estatunidense, etc., já não são mais adversários? São “menos” inimigos?

Se você precisa “esticar” definições ou turvar informações para poder enquadrar alguém com essas características como seu “adversário” (como se "só com isso" você não conseguisse se pôr contra alguém em uma guerra), talvez você deva reavaliar a firmeza de suas posições.


BREVE QUESTÃO ANTES DO “DOSSIÊ” EM SI


Caso você já esteja apressado para apresentar a sua “brilhante” e auto evidente conclusão de que Kyle, num contexto de manifestações, após ter atirado em manifestantes, ainda conseguiu “andar tranquilamente entre a polícia” e “sequer foi preso imediatamente, sendo detido apenas no outro dia” apontando isso como uma prova cabal de que “só aconteceu isso porque ele é branco, qualquer negro no lugar dele, já teria sido alvejado ali mesmo pela polícia, ou teria sido preso”, então eu tenho a lhe dizer uma coisa: Sim.


Você está certo sobre suas impressões.


É muito provável (senão mesmo certo!) que um negro empunhando um fuzil, após várias pessoas estarem dizendo que esse mesmo negro matou alguém, seria tratado de forma diferente pela polícia. Senão fosse rendido e detido imediatamente, poderia até ser alvejado.


Vocês, entretanto, não precisam nos relatar o óbvio. Pois estamos sim tomando isso em conta e não temos e nunca tivemos a pretensão de “refutar” isso.


Esse texto não é uma tentativa de “limpar a barra” da polícia dos EUA, nem dos neoconservadores americanos.


Se você pretende encontrar nesse texto “argumentos de defesa” para suas ideias (direitistas) ou se você pretende ler esse texto unicamente como um “ataque contra nós” (“esquerdistas”), eu lhes intimo à imediatamente pararem de ler. Vocês não vão encontrar o que procuram.


As lições que devemos tirar a partir da sequência de fatos do caso Kyle não deveriam interferir um milímetro sequer na compreensão dos problemas dos EUA (socioeconômicos e raciais).


Se para “manter sua posição de antirracista” você precise se cegar ou se ensurdecer diante de mínimos questionamentos que apontem inconsistências nas narrativas (reproduzidas pela “esquerda” e até em algum grau pela direita), então isso diz mais sobre você e sobre sua falta de solidez do que sobre nós.


De toda forma, essas questões também serão postas no tópico que está imediatamente após o Dossiê, o tópico intitulado "Como Kyle foi tratado pela Polícia após o ocorrido?". Leiam pacientemente e vocês chegarão lá.


"DOSSIÊ": SEQUÊNCIA DE FATOS


O máximo de incidentes que pudemos conferir por meio de materiais audiovisuais foram colocados aqui. Buscaremos destrinchar "fato à fato", no que se refere aos milicianos que estavam com Kyle e como estava a relação deles com os manifestantes.


Alguns de vocês podem ter entendido, mas é bom deixar claro que "milicianos" aqui não necessariamente possuem o mesmo sentido negativo que há no Brasil (sobretudo no RJ), mas é um genérico para "civis armados", e não de PMs que extorquem a população.


Quanto aos ocorridos, eles serão colocados de forma mais ou menos ordenada. Notas indicando links [assim] serão colocadas para facilitar a sua própria apuração dos vídeos. O conjunto todo dos links estão aqui abaixo, mas nossa sugestão é que visualizem conforme progridam na leitura da própria sequência de fatos.


Link 1, Link 2, Link 3 (foto), Link 4, Link 5, Link 6, Link 7, Link 8, Link 9, Link 10, Link 11, Link 12, Link 13, Link 14, Link 15, Link 16, Link 17, Link 18.


Sigamos:


1º - BREVE INCIDENTE COM SPRAY DE PIMENTA


Kyle foi abordado com alguém com uma câmera. Na filmagem ele está com os olhos irritados, aparentemente foi atingido com spray de pimenta por algum manifestante. O rapaz da câmera pergunta se ele revidou o ataque e ele fala algo como “não respondi o ataque, pois não tenho uma arma não-letal”. [Link 1 e Link 2]


Ele fala também sobre "proteger as propriedades", "ajudar as pessoas" (aponta para um kit médico que leva consigo numa bolsa).


Até onde nos consta isso ocorreu antes dos fatos enumerados logo a frente, do 2º incidente em diante. Se tomarmos essa informação por referência, isso significa que Kyle e os milicianos conseguiram "dialogar" com os manifestantes, e alguns milicianos até conseguiram transitar entre os manifestantes (e manifestantes entre milicianos) mesmo depois de Kyle ter sido acertado com spray de pimenta por eles (ou seja, em tese Kyle não teria se deixado "cair em provocação" mesmo tendo sido acertado pelo spray).


Os fatos demonstrados no próximo ponto, o 2º, mostram que milicianos e manifestantes poderiam se encaminhar para uma "reconciliação", uma "relação de paz" circunstancial durante o ato, mesmo após essa tensão.


2º - MANIFESTANTES ESTAVAM DIALOGANDO COM MILICIANOS, APARENTEMENTE NÃO PREDOMINAVAM RELAÇÕES HOSTIS APESAR DO CLIMA TENSO


Há comentários de que Kyle e as pessoas com quem ele estava (também armados), estavam apontando armas para os manifestantes e os provocando. A maior parte desses comentários são reproduzidos na internet, mas não há gravações sobre (e até o momento também vão vi relatos em primeira pessoa disso).


Nos vídeos de até então, Kyle só levanta a arma no próprio momento da "confusão final" na cena que ficou mais "famosa" do incidente e, antes disso, quando atirou em Joseph. Mas não se observa os milicianos levantarem as armas para os manifestantes em nenhuma filmagem.

Há inclusive quem demonstre que os Milicianos e Manifestantes estavam se “conciliando” ou se "aproximando" uns dos outros no protesto - ou que houve uma espécie de tentativa de diálogo nesse sentido. Uma certa pessoa (que no twitter se apresenta como Elijah Riot) publicou vários vídeos dos milicianos frente aos manifestantes.

Num dos vídeos de Elijah Riot, embora o Kyle não apareça nele, é demonstrado que esse grupo de “milicianos” é um grupo aparentemente difuso, sem um alinhamento político único.


Kyle em particular, como já falado, tem posições evidentemente de direita, inclusive esteve em comício de Donald Trump [Link 3], mas o “amplo” ou difuso “grupo” de milicianos parece não ter uma posição clara, ou ao menos isso não se evidencia nas filmagens (é possível que a maioria tenha as mesmas inclinações que Kyle, mas isso não fica claro nos diálogos entre milicianos e manifestantes).


Podemos ver algumas dessas pessoas falando inclusive que estão lá não apenas para evitar depredação em pequenos negócios do bairro, propriedades, etc., mas sobretudo para “proteger eles” (os manifestantes, o BLM) – ao menos é o que dizem em discurso, embora possamos relativizar a plenitude dessa proteção. Nesse vídeo do Elijah Riot [Link 4] vocês podem ver que há milicianos negros e que eles – ao menos em palavras – tentam se portar de forma fraterna com os manifestantes.

Houve quem contestou isso, já que nesse primeiro vídeo (onde um miliciano está dialogando tranquilamente com os manifestantes, e podemos ver que nem todos da milícia são brancos) Kyle não aparecia, dando a entender que são “duas categorias diferentes de milicianos”: os que 1º) não tem atritos com o BLM e os 2º) que pensam apenas em “defender propriedades” e são intransigentes, querendo “caçar manifestantes BLM”.


Mas, ainda que Kyle não apareça tão prontamente num dos vídeos [Link 4], outros vídeos vão demonstrar que essa distinção entre "dois grupos de milicianos" é falsa.


Os milicianos aparentam nos vídeos serem um grupo totalmente difuso, supostamente sem “ideologia definida” (embora saibamos que não exista nenhum grupo "puramente não-ideológico"), rotulado por alguns de "milícias libertárias", "milícias civis", entre outros. Aparenta ser uma miscelânea política, embora tenhamos razões para crer que a maioria de seus membros sejam de simpatizantes do presidente em exercício, Trump.

O que mais reforça que esses "dois grupos" de milicianos não são “grupos distintos”, mas que são sim parte soltas de um grupo difuso único, é a presença de pessoas em comum tanto nos vídeos que Kyle começa a aparecer, quanto nos vídeos que havia o miliciano negro discursando com os BLM. Reparem no rapaz barbudo com camisa laranja e bandeira dos EUA de lenço no pescoço [Link 5 (50 segundos), e Link 4 (14 segundos) quando ele começa a falar].

Se há nesse grupo de milicianos quem tenha mais uma inclinação política do que outra a “divisão” não fica clara no protesto.


Mesmo nessa miscelânea, pode-se notar que Kyle e outros milicianos estavam com armas abaixadas e conversando com a maioria dos manifestantes sem apontar as armas para eles (ao contrário do que uma grande parte da narrativa tem reproduzido, dizendo que os milicianos estavam apontando as armas desde sempre).


Se houve algum momento antes desse em que os milicianos (ou o próprio Kyle) cometeu tal ato (de levantar e apontar as armas), ninguém até agora relatou nem demonstrou fotos ou vídeos (e estamos tentando trabalhar com o máximo possível de fontes).


Tentamos pôr aqui os vídeos mais completos possíveis, mas é correto afirmar que se houvesse recortes deliberados em alguns desses vídeos, esses recortes poderiam até fazer alguém confundir quem é miliciano ou quem é manifestante – embora a distinção fique clara quando notamos os trajes (milicianos geralmente tinham coletes, além das armas de fogo de cano longo, e muitos tinham capacetes).


3º - O ATRITO PARECE TER COMEÇADO (OU SE EVIDENCIADO) APÓS UM INCIDENTE NO POSTO DE GASOLINA, QUE ENVOLVIA JOSEPH ROSENBAUM


Vamos agora voltar para um pouco antes dos vídeos que comentamos acima [os já vistos Link 4 e Link 5] para contextualizar a cena do posto.

É perceptível que não havia ainda um clima de "conflito irremediável" entre manifestantes e milicianos, e muitos estão transitando uns entre os outros. Mas igualmente se nota um clima de tensão, e se vocês verem tais vídeos completos [ou o vídeo do Link 5 até 1:12] vão notar que o temperamento de Joseph Rosenbaum está destoando dos demais.


Muitos não sabiam a razão de Joseph está assim. Mas depois encontrarmos vídeos mais completos e sob outros ângulos que podem dar alguma pista.


O destempero de Joseph veio após os manifestantes tentarem incendiar uma grande caçamba de lixo. Um sujeito não identificado apagou o fogo com um extintor (pode ser tanto alguém próximo dos milicianos, um funcionário do posto de gasolina ali do lado, ou outra possibilidade...). É mais crível que seja um trabalhador do posto, dado que é mais esperado que um posto de gasolina tenha um extintor do que manifestantes, transeuntes ou milicianos.


Conjectura-se que ele (Joseph) ficou explosivo após esse incidente e foi partir para cima do funcionário do posto (ou discutir com outra pessoa em particular, não se tem certeza).

Joseph foi parado por várias pessoas, inclusive um miliciano que não lhe levantou a arma, mas lhe parou com as mãos nuas.


Não há como saber o teor da conversa entre os dois, mas havia manifestantes próximos também, e eles igualmente estavam tentando conter Rosenbaum. Há um rapaz negro que visivelmente não é um miliciano (não está com fuzil), e tem cabelo black, e que ele próprio empurra bruscamente o Rosenbaum (que parece querer forçar uma tensão ou forçar uma discussão hostil, mas esse outro manifestante, o negro com o cabelo black, quer impedí-lo).


Chegou um momento em que Rosenbaum começa a falar para um miliciano em específico (aparentemente, o que impediu ele de ir avançar e discutir com o trabalhador do posto) coisas como Atire em mim, Neguinho!” (ou “Atire em mim, Criolo!”, a depender da tradução de "nigger ou nigga"). Não consegui, todavia, confirmar se o miliciano em questão era negro. Mas foi assim que Joseph Rosenbaum (que é branco) lhe alcunhou.


O vídeo da tentativa de queimar a caçamba está na internet [Link 8], e os incidentes logo após também [Link 9]. Mas parte desses fatos também são mostrados em vídeos que já mencionamos [Link 4 completo e Link 5 até 1:12, por outros ângulos menos privilegiados, mas que valem apena ser (re)conferidos].


4º - CONCOMITANTE A ESSES INCIDENTES OS MILICIANOS AINDA NÃO LEVANTARAM AS ARMAS


Como podem ser conferidos em materiais anteriores [Link 4, Link 5, Link 8, Link 9], os milicianos não levantam as armas para Rosenbaum nem para os manifestantes, mesmo depois de tudo isso ocorrer.


Esses parecem ser os fatos que temos até então, até que possam nos enviar mais material para que complementemos esse texto (aceitamos de muito bom grado, de qualquer fonte que seja, preferencialmente materiais em vídeo).


Há mais vídeos que reforçam essa noção de que mesmo em um clima de tensão, ou da exaltação do Joseph Rosenbaum contra milicianos, não houve até então o levantar de armas, o que enfraquece algumas narrativas.


5º - HÁ UM “TUMULTO” NUMA CONCESSIONÁRIA


Pessoas que parecem ser manifestantes quebram alguns vidros de carros, como podem ser vistos em vídeo [Link 10 e Link 11].


Kyle e os milicianos não aparecem nesses vídeos.


Também para nós há um “hiato” de materiais (audiovisuais) da presença de Kyle e como (e, precisamente, por qual razão) começou a escalada da “confusão” maior de quando Joseph vai lhe perseguir.


Nesse sentido, vamos acabar tendo de “pular” para a parte do suposto ataque com uma bomba caseira contra Kyle.


6º - OBJETO É ARREMESSADO CONTRA KYLE, MAS NÃO É UM COQUETEL MOLOTOV, E TIROS SÃO DADOS SIMULTANEAMENTE AO OCORRIDO


Foi amplamente reproduzido na internet – dessa vez mais pela direita, em verdade – que teriam tentado acertar Kyle com um Coquetel Molotov. Mas apurando o vídeo não parece ser o caso. De fato é um objeto, provavelmente uma sacola com algum conteúdo (desconhecido), mas não parece ser algo como uma “bomba caseira”.


Essa “impressão do molotov” pode ter advindo do fato da iluminação sobre objeto de um dos vídeos ter feito parecer que era “fogo”, quando era apenas o reflexo da luz, conforme pode ser visto em alguns frames em específico [Link 12]. Obviamente a direita aproveitou tal "impressão" para reproduzir essa versão falsa, e reforçou sua narrativa alegando que Kyle foi alvo de uma bomba incendiária.


Mas, ainda assim, o cenário é mais ou menos esse: 1) Rosenbaum está perseguindo Kyle, que está correndo do Rosenbaum (mas não atira nele ainda). 2) Rosenbaum atira um objeto qualquer contra ele e segue perseguindo-o. 3) Concomitante a tudo isso Kyle está em um cenário em que um dos manifestantes dá um tiro para o alto, além de outros tiros que não conseguimos identificar se foi do mesmo manifestante ou de outras pessoas.


Diz-se que Kyle deu 4 tiros para conseguir acertar Joseph Rosenbaum.


Não sei da procedência dessa informação (se foram menos que 4 ou mais que 4). Mas admitindo essa possibilidade como a mais provável, no vídeo em que isso é exposto podemos ouvir pelo menos 7 tiros no total (não há como saber se houve mais tiros antes ou depois do vídeo, mas acreditamos que não houve).

Disso decorre que pelo menos três tiros dados à esmo não vieram de Kyle (assumindo que ele tenha dado 4 tiros).


Joseph Rosenbaum estava correndo atrás dele (não sabemos a razão exata devido o “hiato”, isso é, a falta de falta de materiais entre o ocorrido da concessionária e a perseguição do Joseph ao Kyle), e até onde sabemos Kyle ouviu um total de três tiros vindo da manifestação conjuntamente com a própria perseguição de Rosenbaum que também tentava lhe arremessar algum objeto.


É nesse cenário que Kyle alveja a primeiro manifestante morto, como pode ser visto em vídeo [Link 13].


Dando a nós o benefício da dúvida sobre ter sido uma morte causada realmente por um ato de legítima defesa ou não, é importante ter todos esses fatos em evidência.


É correto dizer que, se em algum momento Kyle realmente ameaçou, se realmente apontou sua arma provocando ou apresentando perigo para os manifestantes, mudando a postura que os milicianos estavam tendo de não levantar as armas (como mencionado no incidente 2º, 3º e 4º) a postura de Joseph Rosenbaum, de querer deter ou agredir Kyle, pode de fato ser justificada (ou no mínimo “compreensível”), o que abalaria a tese de legítima defesa por parte de Kyle.


Todavia, nós não temos provas disso, e com esse “hiato informacional” (entre o incidente da concessionária e à perseguição à Kyle por Joseph), dentro do que podemos afirmar concretamente, Kyle Rittenhouse estava justamente fugindo e aparentemente evitando qualquer confronto físico (mesmo ele estando armado, enquanto Joseph Rosenbaum estava desarmado).


Nessas circunstâncias, em fuga, se você 1) vê alguém lhe perseguindo, 2) lhe arremessando algo, e 3) escuta barulhos de tiro atrás de si, uma das possíveis (senão prováveis) ações é "atirar de volta", ou se defender com o que tiver em mãos.


Em circunstâncias semelhantes o que talvez fizéssemos? Alguém acredita que se Rosenbaum tivesse alcançado o jovem armado, caso Kyle não tivesse atirado, o próprio Rosenbaum se portaria pacificamente ou não infligiria nenhum perigo a vida de Kyle? Conjecturar e apostar na passividade de Joseph Rosenbaum (o mesmo Rosenbaum dos vídeos que demonstramos anteriormente, demonstrando o seu destempero) não me parece ser uma aposta confiável. E no lugar dele é provável que nenhum de nós faria tal "aposta".


Como já dito, devido ao “buraco” de informações entre o 5º e 6º incidentes, não podemos colocar de forma definitiva que Kyle tenha “dado motivos” para Joseph persegui-lo. Para isso precisamos de algo mais conciso.


Caso surjam tais materiais, tanto por investigações oficiais, como por levantamento de fatos de civis interessados em esclarecer o caso (tanto contra ou a favor de Rittenhouse) nós damos total espaço para atualizarmos o presente “Dossiê”.


Se o caso for levado a júri, apenas com esses fatos que enumeramos aqui, nos parece “razoável” e esperado que o júri se incline para “legítima defesa”.


Outras infrações legais ainda podem ser computadas, mesmo no caso que declarem como inocente da acusação de homicídio, tais quais o próprio fato dele ter 17 anos numa localidade em que armas de fogo só são permitidas para maiores de 21. Embora isso não seja central.


Acabamos nos delongando nessas “especulações” devido ao fato consumado da própria morte, e as “especulações” que fizemos sobre os momentos anteriores a morte de Joseph.


Mais prossigamos com a ordem de incidentes.


7º - KYLE RITTENHOUSE MATA JOSEPH ROSENBAUM E PARA DE CORRER APÓS SEU “PERSEGUIDOR” CAIR


Foi ventilado também em muitas versões que Kyle mata Joseph e corre imediatamente. Mas os vídeos demonstram outra coisa.


Após ele perceber que matou Rosenbaum, ele para próximo ao corpo, inclusive, pessoas que aparentam ser outros manifestantes se aproximam (mas não tanto). Quem chega de fato perto (quase ao lado de Kyle) é um homem, que tira sua camisa para tentar acudir Joseph Rosenbaum (talvez para conter o sangramento), e depois uma segunda pessoa.

Kyle não ataca nenhum deles. Aparentemente o problema dele era apenas com quem o perseguia.


Quando a segunda pessoa se aproxima, Kyle (que já tinha puxado um celular para fazer uma ligação) sai do local e pronuncia algo (no celular) que, segundo relatos, é ele contando o incidente para alguém (não se sabe se à mãe, algum amigo, etc.). Kyle teria dito qualquer coisa semelhante à Acabou de acontecer algo aqui... eu matei uma pessoa...”.


Isso pode ser visto em vídeo [Link 14].


Ele sai do local e mais pessoas se aproximam e se aglomeram ao redor de Joseph.


As tentativas de acudir Joseph não surtem efeito, ele parece não aguentar e morre ali mesmo. Há um vídeo mais completo que demonstra a cena mais de perto e a câmera chega até o lado de Joseph Rosenbaum caído [Link 15].


8º - TEM INÍCIO A “FAMOSA” CENA DA PERSEGUIÇÃO


O próximo material que temos, é do próprio Kyle correndo. Além de seguirem ele, alguns manifestantes tentam acertá-lo. Um consegue fazê-lo, na cabeça (conforme pode ser visto em vídeo ele foi agredido na cabeça quando o chapéu cai da sua cabeça).


No meio do vídeo Kyle cai.

Ele não parece ter sido derrubado por ninguém diretamente, mas depois de sofrer um golpe na cabeça e correr para fugir de várias pessoas, ele tropeça.


Ao cair, um outro manifestante “aproveita a oportunidade” para encaixar um chute também na cabeça de Kyle. É quando Rittenhouse puxa o rifle contra quem está correndo em sua direção para lhe chutar. Dos materiais coletados esse seria o segundo momento que ele levanta a arma (o primeiro teria sido apenas quando ele fugia de Joseph).


Ele erra o tiro contra o sujeito que tenta lhe chutar. O chute também parece não ter sido bem-sucedido [Link 17, do início até os 14 segundos].


9º - ANTHONY HUBER SE COLOCA CONTRA KYLE COM SEU SKATE


Huber, o skatista, entra em cena pondo seu skate na cabeça de Kyle [Link 17, até os 16 segundos]. Huber tenta golpear Kyle na cabeça. Huber também tenta puxar a arma de Kyle.

É quando ocorre a segunda morte.


Houve quem comentasse que "Kyle esperou ele fugir e lhe atirou nas costas a queima-roupa, quando Anthony não apresentava mais perigo". Mas como pode ser visto em vídeo [Link 17, até os 18 segundos], Anthony ainda não havia dado às costas a Kyle e ele estava puxando sua arma [Link 17, nos exatos 17 segundos].


O disparo não foi feito nas costas, mas na barriga (ou peito) de Huber. Afinal, ele estava “curvado” se prostrando mais ou menos ao lado/cima de Kyle.


Assim como a narrativa direitista e neoconservadora reforçou e difundiu fatos certamente inverídicos na intenção de sequestrar a narrativa em prol de sua própria agenda política (como o acréscimo de “Coquetel Molotov” arremessado contra Kyle), há uma narrativa (e que aparentemente a esquerda brasileira tem se embriagado dela acriticamente) que também acrescenta ou “estica” elementos da história.


As afirmações sobre Huber “ter sido alvejado covardemente pelas costas” parecem se enquadrar nisso.


10º - GAIGE, O TERCEIRO MANIFESTANTE (ARMADO)


Circulou também afirmações de que o terceiro manifestante que foi atingido por Rittenhouse era um paramédico que quis lhe ajudar ao vê-lo caído no chão, mas que não havia o reconhecido ainda como o atirador responsável pela morte de Joseph.


Numa dessas versões chegaram a dizer que ele só saca sua arma ao reconhecer Kyle.


Talvez nem o próprio Gaige tenha corroborado com tais informações imprecisas, e isso pode ter sido um “telefone sem fio” das redes sociais insuflada por terceiros (e até por gente que o paramédico Gaige sequer conhece).

O fato é que essa versão também não resiste muito bem na comparação com as imagens.


Como visto em vídeo [Link 18, 21 segundos] o terceiro manifestante já aparece com a arma empunhada próximo de Kyle antes mesmo dele (Gaige) vir a se dar conta que ele acertou Huber (o skatista), o que indica que ele já sabia que Kyle era o atirador responsável pela morte de Joseph.


A conclusão lógica é que ele já veio com a arma empunhada e em "prontidão" (para usá-la) e não que “sacou a arma só depois que se chegou ao lado de Kyle”.

11º - TIRO NO BRAÇO DE GAIGE


Como já citado, nessa narrativa, houveram versões de que Gaige sacou a arma ao perceber bem a posteriori que Kyle era o atirador (o que é falso). Mas houve também quem afirmasse que ele "sacou a arma apenas quando Kyle alvejou Huber".


O vídeo [Link 18] já visto por vocês demonstra o contrário e desmente ambas as versões.


Gaige chega a “levantar as mãos” no susto do tiro a Huber, mas ao invés dele se manter parado e “rendido” com as mãos para cima, ou ao invés de recuar (como também foi amplamente difundido que ele fez), ele, ao se recuperar do susto do tiro ao Huber, já anda e se aproxima de Kyle voltando as mãos a posição que estava antes (com a arma em mãos, na altura do tronco).


Ele não parece ir diretamente à Kyle, mas visa se aproximar mais ainda dele lhe "circulando", como quem quisesse ir par a "lateral" de Rittenhouse (e não se afastar dele).


No segundo passo de Gaige quando ele tenta arrodear Kyle empunhando uma arma, Kyle atira no braço dele (no mesmo braço em que ele está empunhando a arma), não matando, mas ainda incapacitando o paramédico de atirar.


LEGÍTIMA DEFESA OU ASSASSINATO?


Com as informações até então colocadas na mesa, ainda demandamos de mais fatos para construção de uma condenação por assassinato. Os fatos, como estão até então reunidos, não contradizem a versão de legítima defesa.

Além dos primeiros tiros não terem sido de Rittenhouse, os materiais demonstram que ele repetidamente tentou recuar antes de dar qualquer disparo, estando em aparente desvantagem (um contra vários), mesmo que ele estivesse armado (afinal, entre os manifestantes havia também quem estivesse armado, somado ao próprio “reforço” de várias outras pessoas, mesmo desarmadas).


Ignorando o “hiato informacional” entre os incidentes 5º e 6º, Kyle não teria apontado a arma de forma “preventiva” ou como “ameaça” para nenhum dos manifestantes, e só empunhou o rifle após se vê perseguido (primeiro por Rosenbaum, depois por uma multidão) e atacado pelos mesmos.


Novas provas, novos vídeos, novas fotos, gravações de áudio, bem como testemunhos (embora esses últimos tenham menor peso que provas factuais, mas que podem ser importantes para completar lacunas) podem pôr toda essa história por água abaixo, e demonstrar que os ataques, perseguições ou hostilidades foram começadas pelo próprio Kyle Rittenhouse, e que a perseguição à ele por parte dos manifestantes era justificada (assim como isso poderia enfraquecer a tese de legítima defesa dele, e fortalecer uma possível condenação de homicídio).


Para isso não bastaria muito, seria suficiente apenas demonstrar que Kyle teria “apontado preventivamente” sua arma aos manifestantes (ou apenas ao Joseph Rosenbaum).


Isso, por si só, já poderia dá grande peso no processo de acusação de homicídio contra Kyle Rittenhouse - se, obviamente, estejamos falando de um tribunal que conduza o caso com certa "razoabilidade" (o que, a depender do lugar, nem sempre, ou quase nunca, ocorre). Mas ainda sim não precisa ser nenhum "tribunal de exceção" ou um "tribunal de Apartheid" para que um parecer de legítima defesa pudesse ser dado, bastaria apenas a aplicação do "conceito de legítima defesa" frente ao material até então apurado.

A reunião de materiais, fotos, vídeos, testemunhos, etc., que esclareçam o que ocorreu entre os incidentes 5º e 6º é o que podem ser determinantes em qualquer júri para condenar Kyle por homicídio. Mesmo essas provas (caso existam) também podem, na verdade, inocentá-lo e, se não houver nenhum novo material, colocá-lo como homicida continuará a estar no campo das especulações.


COMO KYLE FOI TRADADO PELA POLÍCIA APÓS O OCORRIDO?


É pertinente questionarmos várias questões, como as já citadas antes do levantamento de toda essa sequência de fatos. Tais quais:


1) Em caso de um garoto negro de 17 anos, armado, após ter matado duas pessoas (mesmo que esse garoto negro tenha matado essas duas pessoas em atos de legítima defesa), a polícia teria agido da mesma forma com esse garoto negro como agiu com Kyle? Isso é, não abordaria esse garoto negro enquanto ele andava ao lado de viaturas?


2) Em caso de um garoto negro de 17 anos, sendo apontado por várias pessoas como uma pessoa que acabou de matar alguém, a polícia não teria lhe abordado? Não teria lhe detido imediatamente? Não teria lhe rendido e já levado para cadeia? Quiçá, não teria aberto fogo mesmo contra um garoto negro rendido?


Nós sabemos a provável resposta para essas perguntas.


Casos semelhantes ao de George Floyd não nos deixam mentir.


Nossa observação “crítica” por assim dizer da sequência de fatos não altera em nada a natureza da questão racial no seio do território estadunidense. Não torna a posição política da direita estadunidense “mais correta”, nem a nossa posição “mais errada”.


A compreensão e a oposição radical a um amplo fenômeno (o racismo nos EUA), todavia, não implicam (ou não deveriam implicar), necessariamente, na abosolutização de condutas com base nas posições que defendemos, como será esclarecido a seguir.


O MANIQUEÍSMO É UMA ISCA QUE FISGA OS DESATENTOS


Admitindo que as posições de Kyle Rittenhouse se aproximam mais de um campo inimigo bem definido (à direita), e que Joseph Rosenbaum se aproxima mais do nosso campo político (à esquerda, frequentando manifestações antirracismo, etc.), as inclinações maniqueístas podem nos fazer “esticarmos” a narrativa um pouco para um lado ou para o outro a fim de favorecer nossa posição.


Abordarei aqui alguns temas que podem causar a impressão que estejamos fugindo do assunto. Mas garanto que não estou. Será importante para compreender o caso Kyle, mas não apenas o caso Kyle, como também para tomarmos lições políticas que deveriam ser obrigatórias a todos nós.


Peguemos qualquer exemplo de um processo revolucionário mais radicalizado: usarei a Revolução Cubana. Sou defensor confesso desse processo, mas ainda que eu não o fosse, e ainda que eu fosse um crítico ou opositor de Cuba, a apuração criteriosa do processo revolucionário cubano, corrobora com a legitimidade do grupo de Fidel até nas condutas mais cotidianas do confronto (e não só numa abstrata “causa da revolução”).

Durante a guerrilha, em confrontos armados, o que Fidel ordenava fazer (e o que acontecia normalmente) é que os guerrilheiros não matassem soldados rendidos, mas sim que os fizessem de prisioneiros (e os tratassem bem, na medida do possível, até a termos de tratar dos ferimentos). Do outro lado, o Exército de Batista chacinava rebeldes rendidos que não apresentavam nenhum perigo (isso quando não os sequestrava sem registrar uma prisão legal para aplicar torturas em porões às escondidas da sociedade – já que a tortura mesmo na ditadura era uma prática ilegal).


Independente de acharmos a posição política revolucionária de Fidel “a correta”, ou de acharmos a posição política de Batista “a errada”, não foi somente pela “superioridade moral” da posição política defendida por Fidel que fez ele avançar, mas também devido à maneira de como suas posições se objetivaram na prática até nas condutas diárias da luta. Isso até mesmo em atitudes das mais “simples”, sobre como você trata prisioneiros ou adversários no campo de batalha (ainda que não abandone a necessidade do uso da força para superar o inimigo).


É possível que membros de grupos rebeldes ou de agrupamentos revolucionários, com posições políticas das mais avançadas e até mesmo “superiores”, venham a cometer erros crassos, praticar excessos ou até abusos (tendo ciência ou não que o estão cometendo).


No caso de organizações revolucionárias, grupos rebeldes mais disciplinados e bem estruturados, eles podem trabalhar para corrigir esses erros de seus membros internamente.


No caso de excessos mais graves – por exemplo: como um guerrilheiro que abusa de sua posição de confiança e do fato de estar armado para extorquir um camponês analfabeto – as soluções internas do grupo para com esse elemento desviante podem até ser mais “drásticas” (se é que me entendem).


Fato é que, mesmo contra inimigos políticos em caso de conflitos armados, mesmo nestes casos, podem existir cenários em que há um certo “respeito de guerra ao outro” e é geralmente essa a imagem que os revolucionários mais consequentes buscam passar de si. A ideia é justamente demonstrar ao povo que quem desrespeita esses preceitos não somos “nós”, mas, via de regra, “eles”.


Foi assim na China com o EPL de Mao frente Chiang Kai-Shek, foi assim em Cuba com Exército Rebelde de Fidel frente a Batista, e isso vai se repetir em uma lista de inúmeros processos e movimentos revolucionários (bem ou malsucedidos).


Quando não estamos tratando necessariamente de uma rebelião justa em combate a uma tirania, como nas guerras mais antigas da história da humanidade (uma etnia indígena contra outra etnia antes da colonização europeia, ou uma cidade helênica contra outra), é correto dizer que tanto essas “virtudes” quanto suas “perversões” eram encontradas de forma mais ou menos proporcional “nos dois lados da guerra” de modo que o maniqueísmo aí seria ainda menos aplicável.


Na contemporaneidade, porém, essas questões acabaram ficando mais “turvas” e por isso somos mais potenciais vítimas dessas falsas noções.

Afinal, quando atrelamos aí lutas por pautas legítimas (como ser contra a violência policial contra negros nos EUA), é natural que queiram expor ao máximo as “condutas erradas do Kyle Rittenhouse” e os “acertos de Joseph Rosenbaum”, porque creem que assim darão maior legitimidade a uma pauta justa, e desprestigiarão alguém que se põe do outro lado da arena política (e que indiretamente prejudica essa pauta).

O problema, todavia, é que nem todo mundo que se presta a se dizer um revolucionário, vai realmente pôr esses preceitos (de conduta em confrontos) em prática. Assim como, nem todo mundo que tem a cabeça ainda “dentro do sistema” e defende uma ordem social injusta vai agir, necessariamente, violando essas “virtudes” e preceitos de justiça mais básicos e imediatos.


O maniqueísmo nos faz crer que, ao aderir uma posição política tal, nós, adquirimos uma conduta política correspondente.


Assim como o maniqueísmo pode nos fazer crer, também, que a única coisa que importa é saber “o lado que tomar” sem nenhuma preocupação tática com os meios, nem preocupação estratégica com os fins.


Note o seguinte: Se você quer esboçar também uma real preocupação com esses assuntos, você será prontamente apontado como alguém que “quer desviar o foco”, alguém que “quer relativizar posições de direita do Rittenhouse”, dirão a você que “isso não importa, o importante apenas é expor o racismo e saber que a polícia foi branda com Kyle, mas não seria com um negro nas mesmas circunstâncias”, assim como podem dizer que “independe do Kyle ter realizado legítima defesa ou não, isso é totalmente secundário”.


Os chineses e cubanos devem estar extremamente gratos pelo fato de nem Fidel nem Mao terem pensado assim nos processos de luta revolucionária de seus respectivos países. Porque deixar de pensar nessas questões – sobretudo quando estamos falando de embates políticos que provavelmente serão marcados pelo uso da força – é uma receita certa para obtenção de fracassos.


Inclusive, a vantagem da política revolucionária organizada, frente ao “espontaneísmo” solto de jovens sem orientação definida, é que mesmo que surjam esses “revolucionários” cometendo atos imprudentes ou erros de conduta em suas ações, a organização política pode constantemente estar no encalço deles para lhes orientar (ou lhes punir).

No caso de “indivíduos independentes” não há quem “tenha o direito” de apontar que ele não cometa certos atos, para não pôr expor desnecessariamente os demais... A facilidade com que possamos cometer erros dessa estirpe aumenta, assim como aumenta as justificativas para tentar dizer que “não cometi erro algum, culpe só a polícia!” ou que venha a culpar o adversário político da vez. Essas justificativas são convincentes no máximo entre alguns de seus pares, mas quase nunca perante o povo.

Parcela da esquerda ficou tão teleguiada por esse maniqueísmo que ao se defrontar com a direita expondo a ficha criminal de Joseph Rosenbaum (com casos de crime sexual) afim de promover a ideia de que “esquerda = pedófilos”, se viu respondendo essa propaganda direitista das piores maneiras possíveis, como será demonstrado logo mais.


AS ASSOCIAÇÕES DE CRIMES SEXUAIS ÀS PESSOAS MORTAS POR RITTENHOUSE E ALGUNS PARALELOS COM O CASO SUZY


Devido a todo esse problema de maniqueísmo que fiz questão de debruçar extensivamente no ponto anterior, parcela da esquerda se encontrou “perdida” numa encruzilhada da narrativa a que ela própria se convenceu como certa.


Acreditaram piamente que se tratava de um caso claro e auto evidente de assassinato, como se não houvesse qualquer dúvida razoável quanto à possibilidade de legítima defesa (a sequência de fatos enumerados acima na seção do Dossiê já dá conta de demonstrar o problema de tratar o caso assim, de forma unilateral e arrogando “certezas”).


A direita dos EUA, por razões óbvias quer “sequestrar” a narrativa em defesa de Kyle, usando-a tanto para referendar sua imagem (afinal, é um ano eleitoral nos Estados Unidos) quanto para desprestigiar “a esquerda”. As primeiras tentativas de “sensacionalizar” a história contra os manifestantes, foi a alegação de que Joseph Rosenbaum teria jogado um Molotov. Embora ele persiga “implacavelmente” Kyle, o que ele arremessa é uma sacola.


Mas não parou por aí.


Abundaram publicações da direita – quase que sistemáticas – sobre a ficha criminal de Joseph Rosenbaum e dos outros dois manifestantes alvejados. Houve quem apenas expôs a ficha dos três sem maiores adjetivações, assim como houve quem propagou por aí que se tratavam de pedófilos.


Seria muito conveniente para os direitistas norte-americanos que estão defendendo Kyle e atrelando a isso sua campanha difamatória contra “esquerdistas”, que as três figuras alvejadas por Kyle (mesmo que não tenham sido casos premeditados de homicídio), tenham sido de três pedófilos. Quase uma “receita para o sucesso”, usando o caso de Kyle para fazer a opinião publicar “notar” que “pedofilos estão sobre-representados nessas manifestações”.

Essas tentativas de associação de “antifas” a pedófilos são antigas. Fazem parte do arcabouço de campanhas sensacionalistas que tentam desprestigiar qualquer pessoa que critique a ordem social injusta dos EUA (e do mundo em geral).


No Brasil tivemos algum resvalo disso, e embora a direita associe a esquerda mais a “defesa de bandidos” de uma forma genérica, tivemos um vislumbre de como os norte-americanos de direita associam essas posições políticas à pedofilia tal como no caso de PC Siqueira.


Embora muito provavelmente PC Siqueira tenha tido culpa no cartório (ou até certamente tenha), a maneira como tudo se operou na internet já apontava a associação de políticos de esquerda renomados ao PC Siqueira, a fim de "usar o assunto" focando no desprestígio de posições políticas e não tanto na denúncia do grave caso de pedofilia em si.


Essas campanhas difamatórias, que não deixam muito a desejar para quem associa “marxismo ao satanismo”, embora tenham todo um verniz conspiratório, quando por “sorte” apontam em casos reais (mesmo que não totalmente coerente com a narrativa direitista) gera uma inação profunda em muitos de nós.


O “militante” de esquerda que se julgava "imune a essas propagandas que são sempre mentirosas", não sabe muito bem o que fazer quando aqueles que ele estava justamente “defendendo” (PC Siqueira, Suzy do caso de Drauzio Varella, Joseph Rosenbaum...) possam de fato ter cometido os crimes que os direitistas lhes imputam...


E o resto da história nós já sabemos.


No caso Suzy foi muito emblemático.


Dentro da própria esquerda a quantidade de inimizades, hostilidades ou estranhamentos que surgiram (ou se fortaleceram) por conta do caso Suzy foi gigantesca.


Uma ONG de viés jurídico, e com um trabalho sério de ajuda a pessoas desamparadas, expôs as informações o processo de Suzy por conta de sua preocupação ao ver a “solidariedade” que a Globo induziu na população brasileira àquela pessoa. Houve até quem sugerisse crianças a fazerem bilhetes de demonstração de carinho para Suzy. Direitistas e neoconservadores espalharam aos quatro ventos essa informação sobre a ficha criminal (mesmo a ONG depois apagando sua publicação original, a pedido da advogada de Suzy).


Quando qualquer pessoa da esquerda apresentava certa razoabilidade e preocupação sobre o caso (“ei, talvez vocês estejam defendendo com unhas e dentes alguém que cometeu um crime muito bárbaro e desumano!”), você poderia esperar todo tipo de reação.


Houve quem:


1) Insistiu e se negou a acreditar, disse que “as associações de Suzy a um caso de pedofilia e assassinato da criança era apenas uma Fake News da direita”.


2) Alegou que se tratava puramente de “uma Fake News para associar pessoas trans à casos de pedofilia, e quem estava reproduzindo isso estava sendo transfóbico”.


3) Houve quem até considerou o caso como possível ou provável, mas que não queriam descer do topo de sua posição moral “superior” e alegava que “mesmo que seja real e Suzy tenha cometido tais crimes, devemos ser empáticos, pois o que mais importa nisso tudo é a exposição da transfobia”.


Tanto pelo caso de Suzy ter se comprovado real (isso é, realmente abusou mais de uma vez e matou cruelmente uma criança), quanto pela forma como grande parcela da esquerda se portou perante o caso, nós já sabemos o resultado disso.


Na disputa da “arena política” do caso Suzy, a direita venceu.


Tradicionalmente os revolucionários da esquerda tendem a defender penalidades mais duras, ou até paredões de fuzilamento, para quem comete tais crimes (como os de Suzy). Naturalmente, desejariam exortar essa pessoa “ao inferno”. Mas houve uma relutância absurda de gordas frações da esquerda brasileira em se pronunciar contundentemente sobre as barbaridades cometidas por Suzy. A mesma relutância que se pode encontrar em quem acha que vai ser um suposto “desvio de foco” analisar de forma mais criteriosa as condutas de Joseph Rosenbaum, Kyle Rittenhouse, etc.


Essas pessoas não aprenderam nada com o caso Suzy.


E provavelmente não aprenderão nada com o caso Kyle.


Seguem adotando uma postura que inexoravelmente vai coroar o nosso fracasso político.


MAS OS CRIMES ASSOCIADOS À JOSEPH, ANTHONY E GAIGE NÃO SÃO UMA MENTIRA E FAKE NEWS DA DIREITA?


Amplas imagens e prints, que associavam os três alvos dos tiros de Kyle Rittenhouse a diversos crimes, foram publicados nas redes. Essas imagens foram “desmentidas” por várias pessoas da esquerda, sobretudo pela esquerda estadunidense.


Tal como alguns brasileiros trataram o caso Suzy com incredulidade, num estágio de negação persistente (como quem luta contra os fatos, e não quer que “a ficha caia”), muitas pessoas agiram assim quando o passado de Joseph Rosenbaum e dos demais foram expostos.

Houve também quem foi procurar um caso análogo de um outro Joseph Rosenbaum (chará do manifestante) que foi preso por crimes sexuais em outro estado dos EUA, e tentou imputar que “a direita está propagando Fake News, associando os crimes de um outro Joseph ao manifestante!”, como pode ser visto na imagem abaixo.

Qual a posição esperada que a direita norte-americana toma diante disso? Diz que tais “esquerdistas” querem mesmo é “proteger criminosos de serem expostos”.


Levando em conta que seja falso e leviano dizer que essa parcela da esquerda deseja mesmo, deliberadamente, e “quer” proteger condenados por crimes sexuais, embora não seja deliberado ou por “querer fazer isso”, ao se ver fisgada por esse maniqueísmo infantil, é o que essas pessoas as vezes podem realmente acabar fazendo, sem nem perceber.


Mas quanto as acusações em si, elas procedem?


Apesar do trabalho monstruoso de garimpar a rede, links e materiais, julguei que só assim poderíamos comentar de fato o caso.


Ao tentar “construir” a verdade com base no máximo de materiais possíveis (não só sobre as mortes causadas por Kyle, mas também sobre o passado dos alvejados), encontrei também certas distorções narrativas.


Para isso nós falaremos de um a um. Por último daremos ênfase em Joseph Rosenbaum.


GAIGE GROSSKREUTZ, O SOBREVIVENTE


Gaige, o paramédico, é quem, aparentemente, tem delitos menos graves. É o sujeito que tive mais dificuldade em achar materiais.


No material achado há apenas um crime “Burglary-Building or Dwelling Degree: F Level: Felony”, e os outros três casos são apenas contravenções.

O crime está classificado como “Felony level F”, as contravenções são de nível A e B. Devido a natureza não tão grave desses casos, não me empenhei em destrinchar as definições desses níveis (A, B e F) de delitos. Não é algo realmente crucial.


Mas ainda que sejam casos leves, diz-se que Gaige Grosskreutz não deveria – ao menos de um ponto de vista legal – estar portando uma arma (como ele estava no ato). Isso, claro, para nós também é secundário (em tese o próprio Kyle também não deveria estar portando armas numa localidade em que o porte é para maiores de 21 enquanto ele tem 17).


Os antecedentes podem ser conferidos aqui: [Informações de Gaige].


ANTHONY HUBER, O SKATISTA


No caso de Huber, as acusações são visivelmente mais graves que Gaige Grosskreutz.

Consta uso perigoso de armas, abuso doméstico, estrangulamento e sufocamento, entre outros casos que não nos fica claro do que se trata (atitude imprudente que traz risco à segurança de 2º grau, prisão falsa, bateria, etc.).


Quanto a “conduta desordeira”, que também consta na lista, sabemos da nebulosidade dessa atribuição, e não é crucial.


Mas pode ser visto muito claramente que “Abuso Doméstico”, “Estrangulamento”, “Sufocamento” e “Manejo perigoso de armas” constam como se o próprio Anthony Huber tivesse confessado.


Essas informações podem ser conferidas no seguinte site: [Informações de Anthony Huber]

Caso o link do site oficial do tribunal de Wisconsin dê problemas (eu mesmo só consegui acessá-lo após tentar muitas vezes), vocês podem confirmar nas imagens abaixo, embora no link as informações sobre os processos estejam mais completas.

JOSEPH ROSENBAUM, O PRIMEIRO MORTO


O caso de Joseph Rosenbaum, que nos vídeos é o que estava aparentemente “mais esquentado” após o incidente da caçamba de lixo, e também que é o mesmo que corre atrás de Kyle Rittenhouse e lhe arremessa um objeto (provavelmente uma sacola), é, coincidentemente o que tem uma ficha criminal potencialmente mais grave e que a narrativa estava mais confusa.


Então me delonguei mais nele que nos demais.


Nesse primeiro arquivo [link aqui], como podemos ver, há três condenações. Elas são por “Conduta Sexual com Menor(es)” (duas condenações, uma de 10 outra de 2 anos), e uma por “Interf. Monitor Device” (que deve ser algo como tirar ou mexer em uma tornozeleira eletrônica).


Essas informações também constavam em outro endereço que foi removido (por qual razão não sabemos) de um site de alterações e correções de informações oficiais do governo do Arizona [link aqui], mas que foi recuperado nesse site [link aqui]. Nesse outro site há também informações [link aqui].


Não sabemos, todavia, por nenhum desses links, a gravidade da tal “conduta sexual com menores” que fez Joseph Rosenbaum ser condenado a um total de 12 anos. Mas consegui achar a Classe do Crime nesse outro site [link aqui], daí podemos “especular” com um pouco mais de propriedade.


As classificações dos crimes de Joseph Rosenbaum se enquadram no dito “Estupro Estatutário” da lei do Arizona. Não é, necessariamente, um caso como “forçar mulheres (adultas)”, pois é uma lei que comenta apenas sobre conduta sexual com menores e tão somente isso.


A definição pode ser encontrada em “Statutory Rape” no seguinte documento [link aqui].


As informações que temos são as seguintes:

  • A Conduta Sexual criminosa seria Classe 6, com pena de seis meses a 2 anos, se a vítima for maior que 15 e menor que 18.

  • A Conduta Sexual criminosa seria Classe 2, com pena de 13 a 21 anos, se a vítima for menor que 15 (14 anos para baixo).

  • A Conduta Sexual criminosa, mesmo se a vítima tiver entre 15 e 18 anos, caso tenha sido realizado por alguém em uma posição de confiança (e que talvez tenha se usado de sua posição para induzir a adolescente a tal ato), volta a ser um crime de Classe 2 (e não 6), com pena de 13 a 21 anos (e não seis meses a 2 anos).

  • Por posição de confiança pode-se entender um padre, um professor, um pai adotivo, um tio, etc.

Como você pode ter visto num dos links, a Classe do Crime atribuída a Joseph Rosenbaum foi de Classe 3, com pena de 12 anos totais. Apenas um grau menor do que a Classe 2.


Mas isso nos leva a crer que a pessoa em questão não tinha menos que 15 anos (logo, a definição de pedofilia aí seria imprecisa, mas isso não eximiria o crime de conduta sexual).


É difícil acessar detalhes do processo, porque nesse tipo de crime o judiciário tende a esconder muitas informações sob a justificativa de preservar a imagem da vítima.


Levando em conta as definições que nós temos de Classe do Crime, donde quanto menor mais grave (Classe 2 seria um abuso de posição de confiança, ou uma relação com uma criança que tem menos de 15 anos) e quanto maior menos grave (Classe 6 seria uma adolescente já maior que 15 anos), o fato dele ser classificado como um crime de Classe 3 pode nos fazer pensar o seguinte: Muito provavelmente o caso deve ter sido com alguém maior que 15, mas que houve algo a mais ao fazer a Classe do crime ser bem mais grave que a Classe 6 (pena máxima de 2 anos) para se aproximar da Classe 2 (pena mínima de 13 anos), tendo uma pena total de 12 anos no que definiram como Classe 3.


Dar bebida ou drogas à adolescente? Induzir por outros meios menos graves que “uma posição de confiança”? Não há como afirmar com precisão. Mas é mais ou menos esse o cenário provável da condenação caso estejamos falando de um tribunal que tenha tratado seu caso com certa razoabilidade.


COMPARANDO OS FATOS COM A NARRATIVA DA DIREITA


Houve quem afirmasse que Kyle havia atirado logo em três pedófilos (os dois mortos e o sobrevivente). Houve quem afirmasse que Kyle “abateu dois pedófilos” (Huber e Rosenbaum). Houve quem dissesse que apenas o “herói” Huber era o pedófilo. Houve quem disse que apenas Rosenbaum era.


Enfim, como toda narrativa distorcida e como todo “telefone sem fio”, a história real foi adulterada em várias versões que se espalharam nas redes cada uma a sua maneira.


Na apuração dos três casos pude atestar: aparentemente não há aí casos de pedofilia (tomo aqui a definição em que o adulto se aproveitaria sexualmente de uma criança com 14 anos ou menos). Gaige está longe disso, e suas contravenções não dizem nada a respeito sequer de um crime sexual. Huber tem condenações e admissão de culpa de abuso doméstico, estrangulamento, sufocamento, etc., mas não consta um caso de pedofilia. E Joseph Rosenbaum, que seria o “caso mais próximo” disso, tem conduta sexual criminosa, mas as informações que nós temos não apontam para que ele seja, necessariamente, um pedófilo (embora isso não faça o seu passado menos criminoso).


A narrativa se encaminhou para esse lado devido ao já conhecido mito da direita norte-americana de tentar associar a esquerda à pedofilia, sobretudo os “antifas”. Endossar essa narrativa dos “três pedófilos” ou alguma variante dela é endossar os apelos e as propagandas dessa direita, sobretudo do eleitorado de Trump.


Temos aí fatos suficientes sobre os manifestantes mortos, que podem despertar desconfiança sobre suas condutas ou seus passados, sem que necessariamente associemos a alcunha de “pedófilos” aos mesmos.


DOS "PEQUENOS" DESLIZES QUE SE COMETEU NA ESQUERDA APÓS O CASO


Busquei trazer uma versão mais concisa e embasada dos fatos, o que desmentiu algumas narrativas avulsas, tanto à direita quanto à esquerda.


A acusação de que eram três pedófilos, por exemplo, ou que um Coquetel Molotov teria sido arremessado. Igualmente as versões que afirmavam que Kyle estava apontando as armas desde o início e provocando os manifestantes desde o posto de gasolina, assim como a falsa versão de que Kyle atirou nas costas de Huber ou a de que Gaige estaria desarmado ou “recuando” quando ele foi alvejado no braço.

Não vale mais a pena se delongar em detalhes dessas versões que já foram apuradas no trecho destinado ao “Dossiê”. Importa-nos, todavia, comentar a maneira como a esquerda vem tratando a questão ou como vem respondendo ao caso.


Primeiramente, da “heroicização” de Anthony Huber.


O skatista (que comentamos há pouco, condenado por abuso doméstico, estrangulamento, sufocamento, etc.), foi posto como herói por ter tentado tirar a arma de Kyle (e não estamos entrando no mérito disso), todavia, concomitante a essa campanha, frente as exposições dos crimes dos três (que a direita “aumentou” obviamente), houve quem endossou discursos tais quais: “Um verdadeiro herói! Ainda que seja um agressor sexual (...)”.


Então vos pergunto: Isso não te lembra - nem que vagamente - as pessoas que falavam “devemos ser empáticos com Suzy, ainda que [insira aqui seus crimes brutais]...”?


Imagine o quão inteligente deve ter se sentido essa pessoa ao pronunciar uma frase dessas sem levar em conta as mínimas consequências de suas palavras.


É quase como se quisesse demonstrar para o público que "tem um agressor sexual entre nós, mas pelo menos ele é um herói". É como se não precisássemos de direitistas produzindo campanhas difamatórias contra nós para nos associarem com pedófilos ou com "mamadeiras de piroca", afinal, você mesmo com sua sacra inteligência produz bom material e palavras torpes que servirão para recrutar ou convencer pessoas leigas ao demonstrarem como a "esquerda" ou o "antifascismo" tem ideias e condutas que "precisam ser combatidas".


Outro ser muito "inteligente", Jacob Marshall, amigo de Gaige Grosskreutz, produziu semelhante material agindo quase como um "benfeitor" para a direita estadunidense. Seria melhor se tivesse ficado calado. Mas ele pelo visto abdica de seu cérebro antes de usar a internet.


Quando foi publicado uma fotografia dele (Jacob Marshal) com Gaige no hospital, alguém contestou com imagens (sem nenhuma palavra) o fato de Gaige está armado. A foto era ele com a arma na mão depois de levar um tiro no braço. Jacob justificou alegando que:

"Sim, depois que você leva um tiro, você não consegue largar a arma porque seus músculos ficam tensos. Isso comprova claramente que ele sacou sua arma apenas após o ocorrido que eu demonstrei anteriormente, e ele levou um tiro após ter se rendido com as mãos pra cima! Obrigado, isso só prova mais, amigo".

Até aí não há nada demais nas palavras de Jacob, embora seja inconsistente com os vídeos que enumeramos lá em cima (já que o tiro no braço foi dado quando ele abaixou a mão e andou, e não porque "ficou parado e rendido com as mãos para cima"). O rapaz que estava atrás do Gaige levantou as maõs e recuou, mas o próprio Gaige não fez isso. Não adianta "levantar as mãos" e tornar a correr ou andar novamente em direção ao atirador.

Mas Jacob continua a endossar essa versão imprecisa em outro comentário.

"Então, o garoto atirou em Gaige quando ele sacou sua arma e Gaige recuou com sua arma na mão (...)".

Como visto em vídeo e como acabei de dizer, isso não procede, não resiste a comparação com os vídeos. Gaige já tinha a arma sacada, e estava fazendo o contrário de recuar até o momento em que levou o tiro.


Mas o mais grave do que Jacob fala vem depois:

"E eu também acabei de falar com o Gaige. Ele me disse que seu único arrependimento foi não ter matado o garoto, se arrepende de ter hesitado em puxar o gatilho até esvaziar o 'MG' (machine gun) nele".

O diálogo pode ser conferido na foto abaixo.

O que Jacob não percebe é que ao pronunciar essas palavras em público ele pode prejudicar drasticamente seu próprio amigo Gaige num processo criminal contra Rittenhouse.

Ignorando que ele narrou a sequência de fatos de forma enviesada (a falsa ideia de que "Kyle atirou nele assim que ele sacou a arma"), as declarações de Gaige que Jacob leva a público, podem servir como uma prova da intenção de matar (por parte de Gaige Grosskreutz), ainda que ele, segundo o próprio Jacob, "tenha hesitado em puxar o gatilho".

Ora, se ele já se aproximou armado, com condições e intenções de atirar, e os seus amigos descuidados e pouco inteligentes ficam soltando nas redes sociais que sim, havia intenção de matar Kyle, é quase como se Jacob "torcesse" para a opinião pública usar isso a fim de desprestigiar a imagem dos manifestantes, "provando" que Kyle agiu em legítima defesa.


Ainda que Gaige tenha falado isso a Jacob talvez apenas para "parecer radical" ou esboçar um sentimento de raiva diante da situação, tornar essas declarações de Gaige públicas não só não o ajuda, como o prejudica em um nível incomensurável.

Se a intenção é encaixar uma condenação de homicídio contra Kyle Rittenhouse e derrubar a tese de legítima defesa, parece até que Jacob quer ajudar Kyle, e não Gaige.


CONCLUSÕES


Se você leu esse documento extenso até aqui, talvez tenha já entendido o tipo de lição política que quero trazer.

Há muito tempo nos EUA não temos movimentos organizados que conseguem se preocupar concretamente nestas questões que trouxemos aqui. O Partido dos Panteras Negras (extinto há muito tempo) talvez tenha sido a última organização que realmente tinha clareza sobre esses assuntos.

Um membro dos antigos Panthers, caso estivesse desarmado, dificilmente provocaria um civil armado falando coisas como “Atire em mim, Nigga!” (sobretudo se esse civil armado sequer lhe levantou a arma, e apenas quis impedir que ele partisse para cima de um trabalhador, como o do posto de gasolina).


Um membro dos antigos Panthers, caso estivesse desarmado, dificilmente perseguiria (e persistiria nessa perseguição) a um civil armado – a não ser, claro, que o sujeito perseguido realmente tenha dado motivos para tal.


Ainda que tenha na história do BPP alguns membros que destoassem da linha partidária, o que se tinha, via de regra, eram membros que sabiam manejar muito bem suas armas, com conhecimento de leis, e até de princípios informais de “respeito de guerra ao próximo” que certamente usavam em suas operações, possíveis conflitos e em suas patrulhas nos bairros da comunidade negra.


Perseguir alguém que visivelmente está fugindo e evitando qualquer confronto físico não parece ser o que alguns desses saudosos revolucionários fariam.


Admitir que a polícia dos EUA é, por si só, um problema, admitir que as posições políticas de Kyle Rittenhouse são as posições políticas de um inimigo, etc., não justifica que aceitemos as mais altas imprudências e tolices entre nós. Dois erros não fazem um acerto (embora aqui tratemos de “erros” em aspectos distintos).


E o que é ainda menos justificável, é tentarmos perfumar a merda com declarações tais quais as de Jacob e Gaige ou bizarrices como “agressor sexual, mas um verdadeiro herói”.


O que temos a ganhar com isso?


Sinceramente, não tenho muitas esperanças quanto ao destino da esquerda dos EUA.


O país parece estar se encaminhando para uma guerra civil e o cenário que se desenha é medonho:

1) Milícias de civis mais próximas da direita são quem sabem manejar armas e ter mais cuidado quanto a conduta de confrontos, ao mesmo tempo que defendem Trump como um presidente “razoável” e se preocupam em defender a ordem social vigente, a “propriedade” e afins.

2) Do outro lado, quem deveria estar pautando condutas e posturas superiores num conflito que tende a se endurecer, são em sua maioria jovens sem nenhuma orientação, a maioria sem nenhum manejo de como usar armas (embora alguns poucos usem, mesmo que sem saber muito bem o que estão fazendo), inclinando-se ora para um reformismo pueril do “lado bom moço” dos Democratas, ora para um pseudorradicalismo estéril ou um anarquismo sem propósito definido.


Não há como a esquerda ser vitoriosa em qualquer processo revolucionário ou numa guerra civil nos EUA, dado que, na esquerda, a única coisa que se sobressai é esse despreparo.


O momento em que isso se gestou e foi possível, não adveio nem do próprio Partido Comunista dos EUA mas sobretudo quando os Panthers, mesmo que fosse uma organização só de negros (apenas uns 1/5 da população dos EUA), estava dirigindo e hegemonizando a construção de uma coalizão com organismos populares “de várias raças”, com organizações de chineses, latinos e até de brancos (como os “Jovens Patriotas”).

O desmantelamento dessa organização (BPP), bem como dessa coalização e a perseguição implacável contra as organizações de esquerda nos EUA, fizeram com que os estadunidenses ficassem completamente perdidos e perdessem qualquer chance de uma revolução autêntica (ao menos a curto e médio prazo).


Até que algo análogo seja construído (ou reconstruído) a tendência é que o império norte-americano apenas “queime por dentro” e pereça no caos sem, necessariamente, edificar algo bom.


Minha preocupação, entretanto, é que por conta do nosso horrível hábito de “importarmos” pautas e condutas, as agendas políticas no Brasil (à direita ou à esquerda), têm sido tocadas hegemonicamente pelos EUA. E se a esquerda brasileira se consumar como uma paródia malfeita de tudo isso que foi narrado acima, então também teremos problemas.


A mim importa que ao menos o meu campo, os meus pares, os meus camaradas e os revolucionários mais comprometidos, não se tornem parte desse pântano. E esse texto foi sobretudo destinado à eles. Não tenho ilusões quanto a "convencer" incautos ou quem conscientemente trilha o caminho da estupidez.


Bruno Torres, com colaboração de Maria Eduarda Kashmir

Breve nota:


Eu disse algumas vezes no decorrer do texto, mas não custa nada ressaltar. Essa matéria está aberta a mudanças caso apareçam novos materiais, novas provas, etc. Mas, com as informações e os materiais que qualquer pessoa pode acessar e que estão disponíveis até o momento, não há como se ter conclusões que fujam muito disso. A não ser, claro, que você sequer tenha apurado o fato e esteja reproduzindo “o que acha”, com base no que “lhe disseram”.

692 visualizações

CONHEÇA A NOSSA LIVRARIA! COMPRE OS NOSSOS TÍTULOS!