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Dossiê do caso Kyle em Kenosha & Lições a se tirar para o campo revolucionário

Atualizado: 3 de Set de 2020

Sequência de ocorridos com base em extenso material audiovisual e lições políticas que devemos tirar do recente incidente em Kenosha (Bruno Torres, com colaboração de Maria Eduarda Kashmir).

Hesitei por um momento a comentar sobre o caso de Kyle Rittenhouse por conta das “fortes emoções” envolvidas no seio da discussão.


Qualquer olhar aparentemente “diferente” na observação do caso Kyle pode parecer aos olhos incautos como uma “relativização” das posições políticas do Kyle ou até – mais gravemente – dos casos de racismo que preenchem boa parte da história dos EUA e praticamente se confundem com a formação do próprio país.

Entretanto, cada vez que apuramos informações mais completas, e tomamos conhecimento de como a sequência de fatos tem sido narrada na esquerda (brasileira e estadunidense), o nosso grau de preocupação deveria crescer.


A quantidade de imprecisões que estão sendo colocadas a fim de justificar nossos pontos de vista (como se nossa posição política precisasse recorrer a desonestidades ou ignorância para se fazer valer) podem prejudicar a própria defesa honesta de nossas posições políticas (e aqui falo tanto de um campo revolucionário mais estrito, quanto da esquerda em geral).

Frente as afirmações sobre fichas criminais (até envolvendo crimes sexuais) de um dos atingidos por Kyle, a reação de muitos desse campo foi análoga a reação de muitos “progressistas” brasileiros para com o caso Suzy (do qual Drauzio Varella se viu no meio de uma ampla campanha política da direita em que associava a esquerda à “defesa de pedófilos e bandidos”).


Não que as gravidades dos crimes dos alvejados por Rittenhouse tenham sido as mesmas da do caso Suzy, nem que isso de alguma forma interfira com o ocorrido em si (afinal, Rittenhouse quando atirou neles não estava buscando suas fichas criminais), mas a postura de uma parte da esquerda frente a exposição desses casos passados foi precisamente a mesma que a que tivemos aqui no Brasil com o caso Suzy – inclusive pautando uma longa postura de negação, de não-aceitação do fato, como quem insistisse para que o mundo não fosse o que é, ou torcendo para que “a ficha não caísse”.


Tanto essas questões que se desdobram para além do caso Rittenhouse quanto o caso em si (a morte de dois manifestantes e um terceiro ferido) deveriam nos trazer importantes lições, nos fazer refletir sobre o que realmente queremos erigir de postura no campo revolucionário, em específico, e na esquerda (mesmo não-revolucionária), em geral.


Ignorar todas essas questões, todavia, podem nos custar caro, e dá de mãos beijadas tudo o que neoconservadores “civilizados” almejam para nos desprestigiar.


A REPERCUSSÃO MIDIÁTICA


Na imprensa em geral, houve quem apenas noticiou o caso das mortes atribuindo a alcunha de “atirador”, em referência ao jovem de 17 anos. Mas tivemos exceções na própria grande imprensa. O próprio portal EXAME noticiou a alcunha de “supremacista”, como pode ser visto na imagem abaixo.

Nas mídias nacionais de esquerda essa alcunha também predominou. Salvo engano, apenas o site Carta Maior trouxe outra abordagem – distinguindo-se do DCM, Pragmatismo Político, entre outros.


Se houve outros portais que assim o fizeram, não nos constam até o momento.


Conhecendo bem o hábito do brasileiro – mesmo entre militantes da esquerda – de reproduzirem manchetes sem ler as matérias, é natural que chamadas como “supremacista branco atira em 3 manifestantes Black Lives Matter” possa trazer uma impressão (semiótica) de que o sujeito foi ao ato matar negros e foi “bem-sucedido” em seus objetivos.

Essa, a propósito, foi a impressão que tive antes de me adentrar nas notícias. A primeira manchete que vi foi a do próprio Exame, e a maioria restante a de portais políticos. O que reforçou em mim essas impressões, até que eu realmente viesse a me aprofundar no caso.

É verdade, o fato de Kyle ter atirado em três brancos não faria um assassinato "deixar de ser" assassinato. Mas nós que trabalhamos com comunicação e política, que temos um compromisso societário e que militamos pela verdade (não só em sua busca, mas em sua "construção") temos que pensar também nisso.


A própria alcunha de supremacista me fez crer – antes da própria apuração das matérias – que Kyle não era um mero eleitor de Trump e um neoconservador que sonha em ser policial. Mas que era um seguidor propriamente dito de um David Duke, um defensor de regras como as Leis Jim Crown ou um neonazista que abomina até mesmo estar perto de negros. Quando inclusive comentei brevemente sobre as impressões que essa alcunha põe na mesa, e questionei se seria o caso do Kyle ser chamado necessariamente de supremacista por conta de suas inclinações reacionárias, fui acusado de “relativizar racismo” (?).

Note que questionar isso não diz respeito a dizer que Kyle não é racista (ou a “defende-lo de acusações de racismo”), mas apenas a pontuação clara de que a definição de racista supremacista deveria ter certos critérios que não necessariamente se enquadrariam, por exemplo, num “liberal racista”, num “neoconservador racista”, etc.


A pessoa que assim discursa não nota que ela própria reforça uma mentira muito vã e tola: o mito de que o racismo só é racismo se for equiparável ao KKK, aos Confederados, ao III Reich, ao Estado etnocêntrico de Israel (estados ou movimentos que pensam na desclassificação de negros e outras etnias, ou de imputação de cidadanias de segunda classe), como se liberais, conservadores “modernos” e até “progressistas” não pudessem ser (ou, ocasionalmente, ter posturas) racistas.


Para além da limitação clara dessas pessoas nesse tema, há que se delegar a responsabilidade também a parcela da “mídia oficial”, “grande imprensa”, e de como portais de esquerda pautaram sua narrativa a partir disso.

Mas afinal, quem realmente é Kyle? Como podemos defini-lo de fato?


O ATIRADOR KYLE RITTENHOUSE


Compreender que a alcunha de “supremacista” pode soar exagero – ainda que isso não exima posições racistas que Kyle possa ter – não significa achar que Kyle representa (e defende) posições políticas acertadas.

Kyle é um forte simpatizante da polícia, das forças de segurança em geral, frequentou programas que visavam “aproximar a polícia da comunidade” como em um projeto chamado “policial mirim”.


Quando o movimento Black Lives Matter se proliferou pelos EUA, dado os sucessivos casos de violência policial contra a população negra, bem como abusos de abordagem contra negros (que nos EUA sempre houveram aos montes), surgiram campanhas “paródias” como “Blue Lives Matter” (Vidas Azuis Importam), com o azul sendo uma referência a cor das fardas da polícia.


Quando no Brasil há incidentes nefastos por parte da polícia e outras autoridades (como são mais famosos os casos do RJ), tais como o caso do músico que foi morto baleado pelo Exército dentro de seu próprio carro, e quando levantamos críticas radicais a essas instituições e a forma como tratam a população pobre brasileira (sobretudo e enfaticamente a população parda e negra, embora não apenas) é natural que surjam campanhas falaciosas da direita como se tentando “limpar a barra” desses graves crimes que realizam contra nossa população. “Um músico inocente morreu baleado... É... Mas.... E os policiais que também morrem?!!”..

Essa retórica que temos aqui é muito análoga ao que entusiastas do Blue Lives Matter fazem.


Até onde nos consta, o rapaz de 17 anos se enquadra nesse campo, e publicou em suas redes “tags” dessa campanha (Blue Lives Matter). Como pode ser visto na imagem ao lado.


Kyle também não é um residente de Kenosha. Até onde apuramos e pode ser confirmado em centenas de portais, ele foi na cidade de ônibus com outras pessoas (talvez também outros milicianos civis).


Afirmam que estava indo a outra cidade como voluntário para "defender pessoas", "defender propriedades, pequenos negócios", há quem afirme que ele além de ter sido membro de programas como "polícia mirim" também se filiou em programas de voluntários que "limpavam pixações" de muros (embora não pareça ser exatamente isso que ele tenha ido fazer em Kenosha).

A propósito, quanto ao fato dele não residir em Kenosha, e sim em outra localidade, advém também o fato de que talvez ele possa manejar armas onde foi criado, mas que não poderia fazer em Kenosha (a legislação americana varia drasticamente de um local para o outro até em estados vizinhos e cidades em fronteiras de estados que também são vizinhas).

Disso decorre que: 1) ou Kyle não sabia que não poderia portar armas com sua idade em Kenosha (permissão só a partir dos 21 anos, e ele tinha 17), ou 2) ele sabia dessa lei, mas não se importou em obedecê-la.

Bem, esse é um resumo de quem é Kyle, e é aí que se enquadra esse garoto na “arena política” norte-americana: Um eleitor de Trump (como a maior parte da população pobre branca ou de suburbanos brancos de classe média), entusiasta e pretenso policial (como seu “sonho de carreira”), sendo, aparentemente mais próximo de uma linha política neoconservadora, e que estava, naquela ocasião, junto com um grupo de civis armados que foram chamados de "milicianos".


Isso já constitui elementos suficientes para que ele esteja “do outro lado” da arena política em que nós, revolucionários, devemos estar, sem que necessariamente precisemos “esticar a definição das coisas”. Ou para você um inimigo ou potencial inimigo precisa necessariamente ser um supremacista? Liberais “comuns”, defensores da manutenção da ordem imperialista, da hegemonia estatunidense, etc., já não são mais adversários? São “menos” inimigos?

Se você precisa “esticar” definições ou turvar informações para poder enquadrar alguém com essas características como seu “adversário” (como se "só com isso" você não conseguisse se pôr contra alguém em uma guerra), talvez você deva reavaliar a firmeza de suas posições.


BREVE QUESTÃO ANTES DO “DOSSIÊ” EM SI


Caso você já esteja apressado para apresentar a sua “brilhante” e auto evidente conclusão de que Kyle, num contexto de manifestações, após ter atirado em manifestantes, ainda conseguiu “andar tranquilamente entre a polícia” e “sequer foi preso imediatamente, sendo detido apenas no outro dia” apontando isso como uma prova cabal de que “só aconteceu isso porque ele é branco, qualquer negro no lugar dele, já teria sido alvejado ali mesmo pela polícia, ou teria sido preso”, então eu tenho a lhe dizer uma coisa: Sim.


Você está certo sobre suas impressões.


É muito provável (senão mesmo certo!) que um negro empunhando um fuzil, após várias pessoas estarem dizendo que esse mesmo negro matou alguém, seria tratado de forma diferente pela polícia. Senão fosse rendido e detido imediatamente, poderia até ser alvejado.


Vocês, entretanto, não precisam nos relatar o óbvio. Pois estamos sim tomando isso em conta e não temos e nunca tivemos a pretensão de “refutar” isso.


Esse texto não é uma tentativa de “limpar a barra” da polícia dos EUA, nem dos neoconservadores americanos.


Se você pretende encontrar nesse texto “argumentos de defesa” para suas ideias (direitistas) ou se você pretende ler esse texto unicamente como um “ataque contra nós” (“esquerdistas”), eu lhes intimo à imediatamente pararem de ler. Vocês não vão encontrar o que procuram.


As lições que devemos tirar a partir da sequência de fatos do caso Kyle não deveriam interferir um milímetro sequer na compreensão dos problemas dos EUA (socioeconômicos e raciais).


Se para “manter sua posição de antirracista” você precise se cegar ou se ensurdecer diante de mínimos questionamentos que apontem inconsistências nas narrativas (reproduzidas pela “esquerda” e até em algum grau pela direita), então isso diz mais sobre você e sobre sua falta de solidez do que sobre nós.


De toda forma, essas questões também serão postas no tópico que está imediatamente após o Dossiê, o tópico intitulado "Como Kyle foi tratado pela Polícia após o ocorrido?". Leiam pacientemente e vocês chegarão lá.


"DOSSIÊ": SEQUÊNCIA DE FATOS


O máximo de incidentes que pudemos conferir por meio de materiais audiovisuais foram colocados aqui. Buscaremos destrinchar "fato à fato", no que se refere aos milicianos que estavam com Kyle e como estava a relação deles com os manifestantes.


Alguns de vocês podem ter entendido, mas é bom deixar claro que "milicianos" aqui não necessariamente possuem o mesmo sentido negativo que há no Brasil (sobretudo no RJ), mas é um genérico para "civis armados", e não de PMs que extorquem a população.


Quanto aos ocorridos, eles serão colocados de forma mais ou menos ordenada. Notas indicando links [assim] serão colocadas para facilitar a sua própria apuração dos vídeos. O conjunto todo dos links estão aqui abaixo, mas nossa sugestão é que visualizem conforme progridam na leitura da própria sequência de fatos.


Link 1, Link 2, Link 3 (foto), Link 4, Link 5, Link 6, Link 7, Link 8, Link 9, Link 10, Link 11, Link 12, Link 13, Link 14, Link 15, Link 16, Link 17, Link 18.


Sigamos:


1º - BREVE INCIDENTE COM SPRAY DE PIMENTA


Kyle foi abordado com alguém com uma câmera. Na filmagem ele está com os olhos irritados, aparentemente foi atingido com spray de pimenta por algum manifestante. O rapaz da câmera pergunta se ele revidou o ataque e ele fala algo como “não respondi o ataque, pois não tenho uma arma não-letal”. [Link 1 e Link 2]


Ele fala também sobre "proteger as propriedades", "ajudar as pessoas" (aponta para um kit médico que leva consigo numa bolsa).


Até onde nos consta isso ocorreu antes dos fatos enumerados logo a frente, do 2º incidente em diante. Se tomarmos essa informação por referência, isso significa que Kyle e os milicianos conseguiram "dialogar" com os manifestantes, e alguns milicianos até conseguiram transitar entre os manifestantes (e manifestantes entre milicianos) mesmo depois de Kyle ter sido acertado com spray de pimenta por eles (ou seja, em tese Kyle não teria se deixado "cair em provocação" mesmo tendo sido acertado pelo spray).


Os fatos demonstrados no próximo ponto, o 2º, mostram que milicianos e manifestantes poderiam se encaminhar para uma "reconciliação", uma "relação de paz" circunstancial durante o ato, mesmo após essa tensão.


2º - MANIFESTANTES ESTAVAM DIALOGANDO COM MILICIANOS, APARENTEMENTE NÃO PREDOMINAVAM RELAÇÕES HOSTIS APESAR DO CLIMA TENSO


Há comentários de que Kyle e as pessoas com quem ele estava (também armados), estavam apontando armas para os manifestantes e os provocando. A maior parte desses comentários são reproduzidos na internet, mas não há gravações sobre (e até o momento também vão vi relatos em primeira pessoa disso).


Nos vídeos de até então, Kyle só levanta a arma no próprio momento da "confusão final" na cena que ficou mais "famosa" do incidente e, antes disso, quando atirou em Joseph. Mas não se observa os milicianos levantarem as armas para os manifestantes em nenhuma filmagem.

Há inclusive quem demonstre que os Milicianos e Manifestantes estavam se “conciliando” ou se "aproximando" uns dos outros no protesto - ou que houve uma espécie de tentativa de diálogo nesse sentido. Uma certa pessoa (que no twitter se apresenta como Elijah Riot) publicou vários vídeos dos milicianos frente aos manifestantes.

Num dos vídeos de Elijah Riot, embora o Kyle não apareça nele, é demonstrado que esse grupo de “milicianos” é um grupo aparentemente difuso, sem um alinhamento político único.


Kyle em particular, como já falado, tem posições evidentemente de direita, inclusive esteve em comício de Donald Trump [Link 3], mas o “amplo” ou difuso “grupo” de milicianos parece não ter uma posição clara, ou ao menos isso não se evidencia nas filmagens (é possível que a maioria tenha as mesmas inclinações que Kyle, mas isso não fica claro nos diálogos entre milicianos e manifestantes).


Podemos ver algumas dessas pessoas falando inclusive que estão lá não apenas para evitar depredação em pequenos negócios do bairro, propriedades, etc., mas sobretudo para “proteger eles” (os manifestantes, o BLM) – ao menos é o que dizem em discurso, embora possamos relativizar a plenitude dessa proteção. Nesse vídeo do Elijah Riot [Link 4] vocês podem ver que há milicianos negros e que eles – ao menos em palavras – tentam se portar de forma fraterna com os manifestantes.

Houve quem contestou isso, já que nesse primeiro vídeo (onde um miliciano está dialogando tranquilamente com os manifestantes, e podemos ver que nem todos da milícia são brancos) Kyle não aparecia, dando a entender que são “duas categorias diferentes de milicianos”: os que 1º) não tem atritos com o BLM e os 2º) que pensam apenas em “defender propriedades” e são intransigentes, querendo “caçar manifestantes BLM”.


Mas, ainda que Kyle não apareça tão prontamente num dos vídeos [Link 4], outros vídeos vão demonstrar que essa distinção entre "dois grupos de milicianos" é falsa.


Os milicianos aparentam nos vídeos serem um grupo totalmente difuso, supostamente sem “ideologia definida” (embora saibamos que não exista nenhum grupo "puramente não-ideológico"), rotulado por alguns de "milícias libertárias", "milícias civis", entre outros. Aparenta ser uma miscelânea política, embora tenhamos razões para crer que a maioria de seus membros sejam de simpatizantes do presidente em exercício, Trump.

O que mais reforça que esses "dois grupos" de milicianos não são “grupos distintos”, mas que são sim parte soltas de um grupo difuso único, é a presença de pessoas em comum tanto nos vídeos que Kyle começa a aparecer, quanto nos vídeos que havia o miliciano negro discursando com os BLM. Reparem no rapaz barbudo com camisa laranja e bandeira dos EUA de lenço no pescoço [Link 5 (50 segundos), e Link 4 (14 segundos) quando ele começa a falar].

Se há nesse grupo de milicianos quem tenha mais uma inclinação política do que outra a “divisão” não fica clara no protesto.


Mesmo nessa miscelânea, pode-se notar que Kyle e outros milicianos estavam com armas abaixadas e conversando com a maioria dos manifestantes sem apontar as armas para eles (ao contrário do que uma grande parte da narrativa tem reproduzido, dizendo que os milicianos estavam apontando as armas desde sempre).


Se houve algum momento antes desse em que os milicianos (ou o próprio Kyle) cometeu tal ato (de levantar e apontar as armas), ninguém até agora relatou nem demonstrou fotos ou vídeos (e estamos tentando trabalhar com o máximo possível de fontes).


Tentamos pôr aqui os vídeos mais completos possíveis, mas é correto afirmar que se houvesse recortes deliberados em alguns desses vídeos, esses recortes poderiam até fazer alguém confundir quem é miliciano ou quem é manifestante – embora a distinção fique clara quando notamos os trajes (milicianos geralmente tinham coletes, além das armas de fogo de cano longo, e muitos tinham capacetes).


3º - O ATRITO PARECE TER COMEÇADO (OU SE EVIDENCIADO) APÓS UM INCIDENTE NO POSTO DE GASOLINA, QUE ENVOLVIA JOSEPH ROSENBAUM


Vamos agora voltar para um pouco antes dos vídeos que comentamos acima [os já vistos Link 4 e Link 5] para contextualizar a cena do posto.

É perceptível que não havia ainda um clima de "conflito irremediável" entre manifestantes e milicianos, e muitos estão transitando uns entre os outros. Mas igualmente se nota um clima de tensão, e se vocês verem tais vídeos completos [ou o vídeo do Link 5 até 1:12] vão notar que o temperamento de Joseph Rosenbaum está destoando dos demais.


Muitos não sabiam a razão de Joseph está assim. Mas depois encontrarmos vídeos mais completos e sob outros ângulos que podem dar alguma pista.


O destempero de Joseph veio após os manifestantes tentarem incendiar uma grande caçamba de lixo. Um sujeito não identificado apagou o fogo com um extintor (pode ser tanto alguém próximo dos milicianos, um funcionário do posto de gasolina ali do lado, ou outra possibilidade...). É mais crível que seja um trabalhador do posto, dado que é mais esperado que um posto de gasolina tenha um extintor do que manifestantes, transeuntes ou milicianos.


Conjectura-se que ele (Joseph) ficou explosivo após esse incidente e foi partir para cima do funcionário do posto (ou discutir com outra pessoa em particular, não se tem certeza).

Joseph foi parado por várias pessoas, inclusive um miliciano que não lhe levantou a arma, mas lhe parou com as mãos nuas.


Não há como saber o teor da conversa entre os dois, mas havia manifestantes próximos também, e eles igualmente estavam tentando conter Rosenbaum. Há um rapaz negro que visivelmente não é um miliciano (não está com fuzil), e tem cabelo black, e que ele próprio empurra bruscamente o Rosenbaum (que parece querer forçar uma tensão ou forçar uma discussão hostil, mas esse outro manifestante, o negro com o cabelo black, quer impedí-lo).


Chegou um momento em que Rosenbaum começa a falar para um miliciano em específico (aparentemente, o que impediu ele de ir avançar e discutir com o trabalhador do posto) coisas como Atire em mim, Neguinho!” (ou “Atire em mim, Criolo!”, a depender da tradução de "nigger ou nigga"). Não consegui, todavia, confirmar se o miliciano em questão era negro. Mas foi assim que Joseph Rosenbaum (que é branco) lhe alcunhou.


O vídeo da tentativa de queimar a caçamba está na internet [Link 8], e os incidentes logo após também [Link 9]. Mas parte desses fatos também são mostrados em vídeos que já mencionamos [Link 4 completo e Link 5 até 1:12, por outros ângulos menos privilegiados, mas que valem apena ser (re)conferidos].


4º - CONCOMITANTE A ESSES INCIDENTES OS MILICIANOS AINDA NÃO LEVANTARAM AS ARMAS


Como podem ser conferidos em materiais anteriores [Link 4, Link 5, Link 8, Link 9], os milicianos não levantam as armas para Rosenbaum nem para os manifestantes, mesmo depois de tudo isso ocorrer.


Esses parecem ser os fatos que temos até então, até que possam nos enviar mais material para que complementemos esse texto (aceitamos de muito bom grado, de qualquer fonte que seja, preferencialmente materiais em vídeo).


Há mais vídeos que reforçam essa noção de que mesmo em um clima de tensão, ou da exaltação do Joseph Rosenbaum contra milicianos, não houve até então o levantar de armas, o que enfraquece algumas narrativas.


5º - HÁ UM “TUMULTO” NUMA CONCESSIONÁRIA


Pessoas que parecem ser manifestantes quebram alguns vidros de carros, como podem ser vistos em vídeo [Link 10 e Link 11].


Kyle e os milicianos não aparecem nesses vídeos.


Também para nós há um “hiato” de materiais (audiovisuais) da presença de Kyle e como (e, precisamente, por qual razão) começou a escalada da “confusão” maior de quando Joseph vai lhe perseguir.


Nesse sentido, vamos acabar tendo de “pular” para a parte do suposto ataque com uma bomba caseira contra Kyle.


6º - OBJETO É ARREMESSADO CONTRA KYLE, MAS NÃO É UM COQUETEL MOLOTOV, E TIROS SÃO DADOS SIMULTANEAMENTE AO OCORRIDO


Foi amplamente reproduzido na internet – dessa vez mais pela direita, em verdade – que teriam tentado acertar Kyle com um Coquetel Molotov. Mas apurando o vídeo não parece ser o caso. De fato é um objeto, provavelmente uma sacola com algum conteúdo (desconhecido), mas não parece ser algo como uma “bomba caseira”.


Essa “impressão do molotov” pode ter advindo do fato da iluminação sobre objeto de um dos vídeos ter feito parecer que era “fogo”, quando era apenas o reflexo da luz, conforme pode ser visto em alguns frames em específico [Link 12]. Obviamente a direita aproveitou tal "impressão" para reproduzir essa versão falsa, e reforçou sua narrativa alegando que Kyle foi alvo de uma bomba incendiária.


Mas, ainda assim, o cenário é mais ou menos esse: 1) Rosenbaum está perseguindo Kyle, que está correndo do Rosenbaum (mas não atira nele ainda). 2) Rosenbaum atira um objeto qualquer contra ele e segue perseguindo-o. 3) Concomitante a tudo isso Kyle está em um cenário em que um dos manifestantes dá um tiro para o alto, além de outros tiros que não conseguimos identificar se foi do mesmo manifestante ou de outras pessoas.


Diz-se que Kyle deu 4 tiros para conseguir acertar Joseph Rosenbaum.


Não sei da procedência dessa informação (se foram menos que 4 ou mais que 4). Mas admitindo essa possibilidade como a mais provável, no vídeo em que isso é exposto podemos ouvir pelo menos 7 tiros no total (não há como saber se houve mais tiros antes ou depois do vídeo, mas acreditamos que não houve).

Disso decorre que pelo menos três tiros dados à esmo não vieram de Kyle (assumindo que ele tenha dado 4 tiros).


Joseph Rosenbaum estava correndo atrás dele (não sabemos a razão exata devido o “hiato”, isso é, a falta de falta de materiais entre o ocorrido da concessionária e a perseguição do Joseph ao Kyle), e até onde sabemos Kyle ouviu um total de três tiros vindo da manifestação conjuntamente com a própria perseguição de Rosenbaum que também tentava lhe arremessar algum objeto.


É nesse cenário que Kyle alveja a primeiro manifestante morto, como pode ser visto em vídeo [Link 13].


Dando a nós o benefício da dúvida sobre ter sido uma morte causada realmente por um ato de legítima defesa ou não, é importante ter todos esses fatos em evidência.


É correto dizer que, se em algum momento Kyle realmente ameaçou, se realmente apontou sua arma provocando ou apresentando perigo para os manifestantes, mudando a postura que os milicianos estavam tendo de não levantar as armas (como mencionado no incidente 2º, 3º e 4º) a postura de Joseph Rosenbaum, de querer deter ou agredir Kyle, pode de fato ser justificada (ou no mínimo “compreensível”), o que abalaria a tese de legítima defesa por parte de Kyle.


Todavia, nós não temos provas disso, e com esse “hiato informacional” (entre o incidente da concessionária e à perseguição à Kyle por Joseph), dentro do que podemos afirmar concretamente, Kyle Rittenhouse estava justamente fugindo e aparentemente evitando qualquer confronto físico (mesmo ele estando armado, enquanto Joseph Rosenbaum estava desarmado).


Nessas circunstâncias, em fuga, se você 1) vê alguém lhe perseguindo, 2) lhe arremessando algo, e 3) escuta barulhos de tiro atrás de si, uma das possíveis (senão prováveis) ações é "atirar de volta", ou se defender com o que tiver em mãos.


Em circunstâncias semelhantes o que talvez fizéssemos? Alguém acredita que se Rosenbaum tivesse alcançado o jovem armado, caso Kyle não tivesse atirado, o próprio Rosenbaum se portaria pacificamente ou não infligiria nenhum perigo a vida de Kyle? Conjecturar e apostar na passividade de Joseph Rosenbaum (o mesmo Rosenbaum dos vídeos que demonstramos anteriormente, demonstrando o seu destempero) não me parece ser uma aposta confiável. E no lugar dele é provável que nenhum de nós faria tal "aposta".


Como já dito, devido ao “buraco” de informações entre o 5º e 6º incidentes, não podemos colocar de forma definitiva que Kyle tenha “dado motivos” para Joseph persegui-lo. Para isso precisamos de algo mais conciso.


Caso surjam tais materiais, tanto por investigações oficiais, como por levantamento de fatos de civis interessados em esclarecer o caso (tanto contra ou a favor de Rittenhouse) nós damos total espaço para atualizarmos o presente “Dossiê”.


Se o caso for levado a júri, apenas com esses fatos que enumeramos aqui, nos parece “razoável” e esperado que o júri se incline para “legítima defesa”.