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Ed Stafford, a Amazônia e a mentalidade do colonizador

Dias atrás, virando os canais de TV, acabei por assistir a reprise de um programa(lançado em 2016) do Discovery Channel chamado Ed Stafford rumo ao desconhecido. O programa se encaixa no modelo de produções que vem ganhando muito espaço, nos últimos anos, em canais de documentários que aborda a temática do sobrevivencialismo. São alguns deles o programa À prova de tudo com Bear Grylls, Largados e Pelados, Survivorman com Les Stroud e mais uma dezena de outros.


Dias atrás, virando os canais de TV, acabei por assistir a reprise de um programa(lançado em 2016) do Discovery Channel chamado Ed Stafford rumo ao desconhecido. O programa se encaixa no modelo de produções que vem ganhando muito espaço, nos últimos anos, em canais de documentários que aborda a temática do sobrevivencialismo. São alguns deles o programa À prova de tudo com Bear Grylls, Largados e Pelados, Survivorman com Les Stroud e mais uma dezena de outros.


Este episódio reprisado mostrava o explorador Edward Stafford numa intrépida aventura em busca de uma lagoa misteriosa no coração da Amazônia matogrossense.


Lá pelas tantas, depois de muitas agruras e dificuldades na floresta, Stafford acha a lagoa, navega sobre ela, dá uma nadada(precisa mostrar que é corajoso, uai) e solta um drone para mapeá-la. Depois disso ele profere algumas asneiras e achômetros.


O Ed diz, por exemplo, que "tem certeza que tem vida no lago"(uau!, será?), que o lago se "formou após a queda de um meteoro" e que o dito cujo se chocou naquele local "há cem anos". Nossa! É incrível, absolutamente incrível esta descoberta se não fosse o fato de que os três maiores eventos de impacto registrados nos últimos cem anos foram os eventos de Tunguska(Sibéria, Rússia, em 1908), da Guiana Inglesa(1935) e o evento de Curuçá(Atalaia do norte, Amazonas, em 1930), que ficou conhecido por Tunguska brasileiro pela enorme magnitude.


O evento de Curuçá aconteceu na região amazônica, mas muito longe da lagoa onde Stafford estava. Este evento ocorreu em 13 de agosto de 1930, abriu uma cratera de um quilômetro de diâmetro na região do município de Atalaia do norte no Amazonas, perto do rio Curuçá próxima a fronteira com o Peru, mas não deixou lago nenhum. O Ed abusa do sensacionalismo a ponto de proferir mentiras. Ele, ao menos, deveria ter consultado o físico Germano Afonso, especialista em astronomia indígena.


A mentalidade do colonizador


A academia de ciências da França enviou, em 1735, o explorador Charles Marie de La Condamine para o Peru com objetivo de explorar a região amazônica para fins científicos. La Condamine percorre do Peru à bacia amazônica registrando e, posteriormente, levando para a Europa importantes informações. É nos trabalhos do explorador que a borracha usada pelos índios, retirado da árvore da seringueira, fica conhecida na Europa. Os detalhados registros informaram ao velho mundo a extração, beneficiamento e propriedades físico-químicas do látex, e que teriam, mais tarde, grande utilidade na fase da revolução industrial. Além disso, foi registrado também a primeira descrição científica do quinino e a catalogação de óleos e venenos.


Um século e meio mais tarde, entre 1881 à 1885, um outro explorador francês, Henri Anatole Coudreau, fez várias explorações pela região do antigo Estado do Grão-pará à mando do governo francês. O resultado dos trabalhos de exploração produziu um livro publicado em duas partes, que rendeu conteúdo vastíssimo no campo da geografia, identificando locais de pedras e metais preciosos. Um destaque importante se faz em uma das duas partes do livro que é uma ode ao separatismo da região amazônica. Coudreau mostra que a Amazônia, “um reino geográfico distinto”, era a região que, devido ao seu potencial e à maneira como os portugueses, e depois os brasileiros, souberam conquistar a natureza e os índios, reunia todas as condições para ser uma grande nação.


Os dois ilustrativos exemplos acima servem para mostrar o colonialismo e o imperialismo em formas de expedições científicas inocentes e como isso tem um desenvolvimento histórico nesta região que remete a cobiças, fascínios e oportunidades de exploração.


As expedições de exploração do meio vieram como uma prática que servia adequadamente ao processo colonial e, mais tarde, a etapa imperialista. O processo de exploração científica dos produtos da natureza criou uma unidade entre produção de conhecimentos e produção comercial abrigado em um ambiente de crescimento do sistema capitalista da Europa.


Nesse contexto, expedições que parecem a primeira vista muito inocentes trazem, na verdade, um conteúdo político e, em essência, econômico. E quando se trata de países historicamente explorados, como são vários da nossa pátria grande, a situação é mais séria ainda.


Agora, onde entra o explorador Ed Stafford nisso tudo?


Pois bem, à guisa de comparação, há alguns pontos semelhantes entre Ed e seu programa de TV com as clássicas expedições científicas apesar dele ser um bocó, contar estorieta de meteoros imaginários e ficar pululando quando produz eco na mata. A carga política dessa coisa toda é grande na medida em que revela uma mentalidade colonialista e interesses estratégicos nessas regiões exploradas.


A primeira pista revela que Ed é inglês, se chama Edward James Stafford e é um ex-capitão do exército britânico que já serviu no Afeganistão. Depois virou uma espécie de celebridade do sobrevivencialismo fazendo programas para o Discovery Channel. Foi alçado ao posto de top das galáxias depois que fez uma tal viagem a pé em toda a extensão do rio Amazonas(mais à frente falo sobre isso).


Logo no início do episódio da lagoa Ed utiliza o Google Earth para mostrar um misterioso lago circular, talvez pouco mais que 500 metros de diâmetro, no meio de uma imensidão de mata fechada. As imagens de satélite que ele dispõe tem incrivelmente uma resolução melhor daquelas que nós, pobres mortais, vemos normalmente e, interessante, é como eles gostam de escarafunchar territórios alheios, achando lagos que são verdadeiros pontos microscópicos.


Não é de hoje que eles mapeiam a Amazônia. Em 1964, com a anuência do governo militar brasileiro, os EUA sobrevoaram a floresta amazônica mapeando o solo com presença de materiais radioativos, ferrosos e não-ferrosos.


Bom, a primeira etapa de mapeamento geográfico de territórios alheios está feita. Agora na próxima etapa é o procedimento de reconhecimento do território in loco. Aí o Ed, o explorador, parte para cá e conversa com caboclos, garimpeiros e lideranças indígenas, coletando as devidas informações. Fica dois dias em uma balsa de dragagem de exploração de ouro no rio São Manuel, perto do parque nacional do Juruena. É dentro do parque - uma reserva indígena protegida - que se localiza o lago cobiçado pelo explorador.


Aqui vale pausa para um adendo. Informações dos nomes dos rios, cidades, reservas indígenas e outras localidades por onde Ed passa não são informadas por ele. Foi necessário, a partir de partes do episódio, fazer uma pesquisa própria. Também é curioso por qual razão ele não informa nada disso.


Na balsa Ed, o explorador, acha fascinante o trabalho dos garimpeiros. Para ele "é um meio difícil", mas "fascinante". É uma verdadeira romantização da situação insalubre da qual os brasileiros são expostos. Típica mentalidade colonizadora.


Faz altas críticas ambientais ao uso do mercúrio na extração do ouro. Bom, talvez ele não saiba, ou se faz de rogado, mas boa parte do ouro ilegal extraído no Brasil vai parar nos bancos de sua querida Inglaterra. De repente ele poderia criticar quem compra e não somente quem vende.


Lá pelas tantas ele comemora que não há mais guias o acompanhando, mostrando grande satisfação ao atuar na mata sozinho, como que colocando à prova a teoria rothbardiana individualista ilustrada na estorinha do Robson Crusoé.


Quando, enfim, acha a lagoa, sob o êxtase de ter atingido seu objetivo, Ed, o explorador, solta as frases "é o meu tesouro" e o "meu ouro da floresta".


À pé pelo rio Amazonas


Antes deste documentário sobre a lagoa misteriosa Ed Stafford fez, em 2011, um outro documentário também pelo Discovery Channel chamado O Amazonas a pé, da qual ele alega ter percorrido os 7000 quilômetros do rio Amazonas à pé em 860 dias com recursos mínimos. Ou seja, Ed começa lá no nevado Mismi, há 5.300 metros de altitude, e finaliza na foz no Atlântico.


Cercado de uma equipe de marketing e relações públicas, a tal aventura a pé é incluída no livro dos recordes e o nome de Ed vai parar na Academia de exploradores do Reino Unido. Além de fazer um espetáculo midiático perante famosos exploradores ingleses como Ranulph Fiennes, que escalou o Everest. Tudo isso para dar um ar de credibilidade.


As aventuras de Ed neste documentário é repleto de incoerências. Mostra Ed caçando um jacaré com um punhado de sal e depois o frita em óleo. Não se sabe onde ele arrumou o óleo, já que afirma não ter levado muitos recursos.


Em outro momento Ed se encontra perdido na selva e na sequência encontra um rio com um - pasmem - bote de borracha com remos.


Entretanto, para caboclos e índios que realmente residem na floresta amazônica, o documentário é pura falácia. Desconsidera todo o desbravo e os conhecimentos históricos dos residentes da região, menosprezando e os tratando como coadjuvantes.


O documentário pinta Ed como um Indiana Jones e aquele anti-herói que sublima suas dificuldades perante barreiras quase intransponíveis. Nada muito diferente de um Tintim na selva congolesa.


Em meio a toda essa Disneylândia o que se observa é que, no que concerne a mentalidade colonialista, é um programa de TV que se coaduna basicamente com os grupos de exploração e desbravamento dos séculos anteriores. A despeito das enormes diferenças de fins científicos entre os dois fenômenos, já que La Condamine, apesar das expedições servirem ao processo colonizatório, contribuiu muito com o avanço da ciência, enquanto o Ed profere abobrinhas de uma região que mal conhece, fazendo espetáculo midiático de explorador estrangeiro que vem civilizar os bárbaros.


Por fim, também contribui muito para perpetuar uma pretensa incompetência dos donos da região em gerir os recursos naturais e a preservação do meio ambiente, necessitando, assim, dos civilizados estrangeiros. Além de propor em linhas implícitas a região amazônica como sendo patrimônio do mundo(leia-se patrimônio de um punhado de países imperialistas), sem nacionalidade.



Por Léo Camargo. Operário, 38 anos, pai e preocupado com a questão nacional

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