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Em defesa da polarização (por Paulo Roberto Pires)

Se polarização é o confronto de posições inapelavelmente opostas, a decência nos obriga, sim, a polarizar. Por Paulo Roberto Pires.

1. “Polarização” é a saúva da política: ou o Brasil acaba com ela ou ela acaba com o Brasil. Na mesma linha, pode-se dizer: pouco diálogo e muita “polarização” os males do Brasil são.


2. Nada melhor do que um clichê para acomodar leniência intelectual. O clichê é quentinho, é canja de galinha no final de um dia exaustivo, passando o pano em arbitrariedades municipais, estaduais e federais. Mas sejamos empáticos, que está na moda: tem uma turma que não quer ou não consegue ir além do clichê, precisa dele, e dentre os clichês disponíveis, “polarização” é o ideal para que se finja analisar o país.


3. Se polarização é o confronto de posições inapelavelmente opostas, a decência nos obriga, sim, a polarizar. Nos obriga a estar sempre no extremo oposto de quem defende invasão de terra indígena, extermínio de populações pobres, tortura, ditadura, censura. Diante do que se tem visto, lido e ouvido, só polarizando – mas para valer.


4. O Instituto Acaciano de Pesquisas Interdisciplinares tem nos revelado dados interessantes sobre a polarização. Concluiu recentemente que pessoas de esquerda consomem livros de esquerda. E que, vejam só, as de direita preferem títulos de direita. Os livros de esquerda vendem mais do que os de direita. Talvez por que aqueles tenham sido escritos na USP (Universidade de São Paulo) ou em Harvard e estes sejam elaborados em redes sociais. Mas ainda não é possível afirmar nada. Aguardemos novas sondagens.


5. A Liga Hebe Camargo de Combate à Polarização pede inspiração à sua madrinha para deter a destruição das relações pessoais. Seu moto é: “Não vamos deixar a política estragar a amizade”. Por que uma pessoinha linda de viver rompe com outra que apoia o excludente de ilicitude ou o tiro na cabecinha? Por que magoar uma gracinha de isentoninha, que perdeu o lugar no muro e não sabe para onde pular? É muito triste, minha gente. Vamos nos unir e superar tudo isso juntos, lado a lado. Do jeito que está, todos perdemos.


6. A Associação de Colunistas Equilibrados também tem suas questões. Chegou a levar ao seu conselho, para julgar eventuais expulsões, membros que pareciam fora de si e passaram a atacar frontalmente, sem adversativas, a autocracia tuiteira. Descobriu-se, no entanto, sob inspiração do camarada Mao, que era só fazer um processo de reeducação – “com sinal trocado”, como diz o decálogo da organização. Todos, ao que se saiba, voltaram ao normal, culpando uma coisa chamada “a esquerda” pela falta de diálogo geral.


7. O Coletivo Hipster de Jornalismo Gonzo, organização descentrada, em rede, criou uma thread para lembrar a necessidade de tratar com empatia – olha ela aí, gente – todos os arroubos fundamentalistas e autoritários da vida política brasileira. Lembremos que, de sequestradores de indígenas a fanáticos religiosos, todos têm um lado humano, um pouco pitoresco e até vintage a ser valorizado. Tratá-los como é devido, nem pensar: seria reforçar, ui, a “polarização”.


8. Os Estados Gerais do Bacurau têm debatido em assembleia permanente os equívocos do que parece um filme, mas é um poderoso psicotrópico polarizante. Chiliques são registrados em todo o espectro ideológico, dos cinéfilos puritanos revoltados com tanto “clichê” ­– e, é claro, com a aceitação ampla do público – aos intelectuais de terninho advertindo sobre iminente guerra civil. A polarização da “polarização” vai longe.


9. Escrever e pensar, propõe Martin Amis, é declarar uma guerra permanente contra o clichê, “não apenas contra os clichês da escrita, mas também os da mente e do coração”. Em literatura pelo menos, lembra o escritor inglês, uma crítica negativa é sempre um posicionamento contra as soluções repetidas, esquemáticas. O elogio, por sua vez, invariavelmente está vinculado às ideias cheias de “frescor, energia e reverberação da voz”.


10. A ladainha contra a “polarização” é, na prática, o uso do clichê contra o clichê. Exime quem o invoca de responsabilidade e, na prática, é um princípio de imobilismo. Precisamos de mais polarização para valer, de posicionamentos mais firmes do que aqueles que hoje se condenam como “polarização”. A cada ataque às liberdades civis deve-se reagir com a mesma intensidade e empenho. Transigir com a intransigência não é virtude democrática, é fraqueza moral.


Polarizar é, hoje, legítima defesa.

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