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Entre a crise da hegemonia americana e a intervenção russa na Crimeia.


Imagem, fonte: BBC.

Por: Guilherme Melo


1.Introdução

A história recente do pós-Guerra fria nos traz uma reflexão acerca do paradigma de hegemonia e unipolaridade estadunidense, os fatos contemporâneos do nosso século força uma mudança de leitura a respeito da política internacional e das condições de relações das velhas e novas potências.


Já há tempo que o mundo pós-Guerra Fria não é percebido a partir da ideia de unipolaridade; isto é, que apenas uma superpotência, no caso os Estados Unidos, tutele unilateralmente a condução da polícia global. Inúmeras são as evidências deste fato: as derrotas nas guerras do Iraque e Afeganistão, a crise financeira global de 2008-09, a ascensão econômica e geopolítica da China e Rússia, as guerras da Síria e Ucrânia, etc. (AMAL, 2017)


Antes da própria crise imobiliária estadunidense, os anos de 2001-7 já mostravam diminuição de exportações dos países ocidentais para os periféricos, o que demonstrava uma inserção produtiva dos países emergentes do hemisfério sul e de cooperações regionais.


Tomando o Período 2000-2011, dois fatos complementares se destacam. O primeiro é a perda de peso relativo na produção e nas exportações do capitalismo central, vale dizer, dos Estados Unidos, da União Europeia e do Japão, para outros países e regiões do globo. O segundo é a ampliação do peso do sistema periférico, não só dos denominados BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), por sua maior escala, mas também vários outros países, especialmente dos novos membros do G20. Essas mudanças indicam alterações na geografia econômica e, também, na geografia política, como consequência na ordem global. (CAMPOLINA e DINIZ, 2014, P.640)


No ano 2000, Estados Unidos, União Europeia e Japão respondiam por 70% do PIB e 55% das exportações, em 2011, essa mesma participação na economia mundial caíram respectivamente para 65% e 45% (BANCO MUNDIAL, 2013), a respeito destes dados, Arrighi (2010) discorre que o eixo dinâmico e produtivo da economia mundial estava se deslocando para o Oriente.


Independente da perspectiva que se mostra mais verídica, existe acordo entre as mais diversas correntes teóricas que de fato os Estados Unidos vêm tendo seu poder abalado, progressivamente, desde a virada do milênio. Trago este contexto à tona porque é a partir dele que emerge o objeto deste artigo: o retorno da Rússia para o tabuleiro das grandes potências e seu atual conflito com os Estados Unidos. (AMAL, 2017)


2.Geoestratégia do conflito

Em 2014, com o evento da Revolução colorida, que resultou na guerra civil ucraniana, quando rebeldes depuseram o presidente ucraniano Viktor Yanukovich, por sua decisão final de não entrar na União Europeia, Putin dá ordem que o exército ocupe a Península de Crimeia.


Minha hipótese é que a expansão da OTAN e da União Europeia no pós-Guerra Fria para os antigos países do Pacto de Varsóvia geraram uma percepção por parte da Rússia de grave ameaça aos seus interesses estratégicos de segurança nacional. Quando esta expansão estava para chegar na Ucrânia, ela também chegou em seu limite: o território ucraniano é um dos mais, senão o mais, estratégico para a segurança russa na Europa. (Ibid, 2017).


Existe uma agenda de dissuasão e de proteção do território na política externa russa, a possibilidade da Ucrânia começar um processo de integração regional, que ousadamente ganhasse força política para entrar em órgãos de cooperação como União Europeia e Otan colocaria em risco a segurança nacional russa.


A guerra civil ucraniana que resultou dos protestos que levaram a deposição do presidente em exercício tornou-se pretexto legal de anexação da Crimeia via referendo, uma vez que russos étnicos eram alvos de linchamentos por ressentimentos históricos entre as duas nações.


Na geoestratégia, os portos que a Rússia tem acesso são os de São Petesburgo, Akhangelsk e Vladvostok, porém ficam congelados quatro meses por ano e também está no mar do Japão, por isso Sevastpol na Penísula da Crimeia torna-se tão importante, pois resolve uma pendência geográfica da Rússia, que é o acesso ao mar, um desafio desde Pedro, o Grande.


Figura 1.

Fonte: Defesanet, 2016.


O fim da Guerra Fria, com o enfraquecimento geoestratégico da Rússia na sua região de influência que são os países que fizeram parte do Pacto de Varsóvia até 1989, sem condições de negociar com exigências consideráveis, o ex-secretário do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gobarchev, dissolveu o pacto de Varsóvia.


União Soviética, inicia-se um processo de negociação entre o então Secretario Geral soviético Mikhail Gobarchev com o presidente norte-americano George Bush pai. O acordo resultante foi a reunificação da Alemanha e a dissolução do Pacto de Varsóvia, que ocorreria sem oposição russa com 2 condições: a Alemanha Oriental não seria militarizada; e a OTAN não incorporaria os antigos países do Pacto de Varsóvia. (AMAL, 2017).


Esse acordo com feito com George W. Bush pai, porém não tornou-se política de Estado, na administração de Bill Clinton começou a negociação de entrada para a OTAN dos países que fizeram parte do Pacto de Varsóvia, isso tornou os acordos firmados entre a Rússia e os Estados Unidos como obsoletos.


Entretanto, não foi assim que os fatos se deram na década de 90, a Alemanha Oriental foi militarizada quase de imediato após a reunificação. Depois, durante a administração Clinton começaram as negociações com os antigos países do Pacto de Varsóvia para que estes entrassem na OTAN. Em 1999, entram na aliança a Hungria, Polônia e República Checa. (Ibid, 2017)




3. Desdobramentos e conclusão.


Após a independência da Ucrânia, em 1991 e um problema mal resolvido sobre diversos assuntos da antiga União Soviética, dentre eles acordos comerciais, jurisdição, imigração ficaram para as Repúblicas independentes depois do fim da URSS, neste contexto, Boris Yeltsin negociou o acesso a Crimeia, em troca de benefícios comerciais no fornecimento de energia.


Boris Yeltsin, na época, se utilizou da grande dependência energética que a Ucrânia tem da Rússia (mais de 50% de seu consumo) para pressionar por uma negociação favorável a seus interesses relativos à Crimeia. Finalmente, foi acordado que a Rússia iria ter livre acesso militar e comercial à Crimeia e o porto de Sevastopol, embora este ainda fosse território ucraniano. (AMAL, 2017).


Desde de 2004 com as eleições presidenciais, no qual o candidato pró-russo Viktor Yanukovich venceu as eleições, mas foi acusado de fraude, com uma ação política articulada entre ONG’s e políticos da oposição, isto trouxe como consequência protestos civis, pacíficos, frente a esta situação, o presidente decide abdicar, convoca novas eleições e vence o candidato mais próximo ao ocidente, Viktor Yuschenko.


Desde então, as relações ucranianas e russas voltam a ter embates políticos, em 2007, a Ucrânia mantem formalmente negociações com a União Europeia para a entrada do bloco, o que preocupou Vladmir Putin, que chegou a diminuir a oferta de gás, cortando a commoditie necessária à produção ucraniana de energia.


Em 2010, novas eleições acontecem, o vencedor é Viktor Yanukovich, o que havia vencido em 2004, no plano externo por precaução, o presidente decide manter-se neutro e não fazer nenhum alinhamento seja com o bloco europeu ou com a Rússia, em 21 de novembro de 2013, o presidente suspende o acordo de entrada no bloco.

A imprensa depois descobre o motivo desta suspensão, foi aprovado tanto pelo presidente, como pelo parlamento, um acordo com a Rússia de investimentos na indústria ucraniana, redução de um terço das tarifas do gás vendido e a compra de 15 bilhões de dólares da dívida pública ucraniana (PLEKHANOV, 2016).


Ainda em dezembro de 2013, quase um milhão de pessoas passaram a se reunir na praça Maidan, em Kiev, capital ucraniana. Em janeiro de 201 os protestos continuaram e passaram a tornar-se violentos. Em fevereiro houve um conflito de 3 dias entre manifestantes que tentavam ocupar o parlamento e a polícia, resultando em mais de 100 mortes. A partir deste momento, Alemanha, Rússia, Polônia e França passaram a tentar mediar o conflito. Chegou-se à um acordo, no dia 21 de fevereiro, que estipulava a formação de um governo de unidade nacional até novas eleições que ocorreriam no mês de maio. Conforme a negociação, a polícia se retirou da praça Maidan, mas os manifestantes não. Desrespeitando o acordo de paz, os manifestantes passaram a ocupar os prédios do governo e, tremendo por sua vida, Yanukovich foi à exílio em Moscou. (AMAL, 2017).


Contanto, o sul e o leste do país protestavam também contra as reivindicações na praça de Maidan, pois, o país tem uma divisão muito peculiar de sua formação social, a oeste, influenciado pelo Império Austro-Húngaro, uma população politicamente mais pró-ocidente e de maioria protestante, a leste uma população influenciada pelo Império russo, de maioria católica ortodoxa e simpática ao país vizinho.


A dimensão que os conflitos civis provocados pelas desavenças acerca da política interna levaram a uma guerra civil, províncias rebeldes como Donestk e Lungask foram palco de formação de milícias de civis que acusaram a Ucrânia ocidental de golpe de Estado e levantaram armas contra o novo governo.


A Rússia também não demorou para reagir frente a queda de Yanukovich. Antes mesmo do parlamento aprovar o uso de força militar na Ucrânia, requistada por Putin, as tropas russas começaram a ocupar territórios chave na península da Crimeia em fins de fevereiro. Existia uma necessidade urgente em defender o porto russo de Novorossisk e de Sebastopol, pois havia a possibilidade de o novo governo ucraniano revogar o decreto que permitia a circulação da frota naval russa na península da Crimeia. (Ibid, 2017).


Dia 27 de fevereiro, as tropas da Rússia começaram o cerco a península, no dia 1 de março, o parlamento russo aprovou o pedido de Putin para intervir na Crmieia, dia 16 de fevereiro foi feito um plebiscito para decidir se a população decide permanecer na Ucrânia ou tornar-se parte da Rússia, os votos pró-Rússia ganharam com 97%.


Referências

AMAL, Victor Wolfgang Kegel. A intervenção russa na guerra da Ucrânia (2014): raízes históricas do novo dilema geopolítico europeu. In: XXIX SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 29., 2017, Brasília. Anais... . Brasília: Unb, 2017.


ARRIGHI, Giovanni. Adam Smith em Pequim. São Paulo: Boitempo, 2008.


CAMPOLINA, Bernardo; DINIZ, Clélio Campolina. Crise global, mudanças geopolíticas e inserção do Brasil. Rev. Econ. Polit., São Paulo , v. 34, n. 4, p. 638-655, Dec. 2014 . p.640.


PLEKHANOV, Sergei. Assisted suicide: Internal and external causes of the Ukrainian Crisis. In: BLACK, J.L.; JONES, Michael. The return of the Cold War: Ukraine, the West and Russia..


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