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Entrevista: Coreia do Norte não destruirá unilateralmente sua capacidade nuclear

'Não vamos realizar um desmantelamento unilateral de toda a nossa capacidade defensiva nuclear', diz Alejandro Cao de Benós, único ocidental a trabalhar para o governo da Coreia do Norte.

Entrevista cedida a Eduardo Vasco, Carta Maior

O compromisso acordado em 12 de junho entre os presidentes da República Popular Democrática da Coreia (RPDC), Kim Jong Un, e dos Estados Unidos, Donald Trump, já está sendo implementado.

EUA e Coreial do Sul adiaram o exercício militar de simulação de invasão à Coreia do Norte (“Ulchi Freedom Guardian”). Além disso, logo após a reunião com Kim em Cingapura, Trump anunciou também que havia suspendido a aplicação de novas sanções a Pyongyang.

Por sua vez, os norte-coreanos estão a ponto de entregar aos Estados Unidos os corpos de centenas de soldados estadunidenses que morreram na Guerra da Coreia (1950-1953) e há oito meses não realizam testes nucleares ou balísticos.

Outros encontros oficiais de alto nível estão sendo realizados entre RPDC, República da Coreia e EUA. Kim Jong Un também se aproxima cada vez mais de Rússia e China. A Coreia do Norte ainda tem aumentado sua presença em fóruns multilaterais e um plano de integração econômica intercoreana com a Eurásia já está começando a ser debatido.

Não há dúvidas de que, após um ano de extremas tensões, o mundo vê com otimismo e esperança a situação na Península Coreana. Entretanto, por um lado, a região ainda é a mais militarizada do mundo, com o fantasma nuclear ameaçando gerar mais temor a qualquer instante. Por outro lado, a Coreia do Norte continua sofrendo com as mais rigorosas sanções que um país jamais enfrentou.

O espanhol Alejandro Cao de Benós é delegado especial do Comitê de Relações Culturais com Países Estrangeiros do Governo da República Popular Democrática da Coreia. Nesta entrevista, o único ocidental a serviço do governo norte-coreano traça uma avaliação do processo de negociações, opina sobre a possibilidade de maior integração da Coreia do Norte com o mundo (inclusive com o Brasil), fala sobre o surpreendente desenvolvimento do país e assegura: “não vamos realizar um desmantelamento unilateral de toda a nossa capacidade defensiva nuclear.”

Qual é a avaliação do governo da Coreia do Norte sobre o ritmo do avanço das negociações com a Coreia do Sul?

Nossa avaliação é que é positivo, embora obviamente esperamos que se acelerem mais todos os intercâmbios entre Norte e Sul.

Já estão se produzindo encontros, sobretudo no nível esportivo. Recentemente houve todo o tipo de partidas de tênis de mesa entre os dois países sob o amparo da Federação Internacional de Tênis de Mesa.

E também recentemente começou-se a trabalhar tanto para implementar o Escritório para a Reunificação, na cidade de Kaesong [Coreia do Norte], que facilitará todos os trâmites e todos os projetos dia a dia entre ambas as nações, assim como a reconexão da via férrea e também das rodovias na Costa Leste e na Costa Oeste da Coreia. Também sobre a possibilidade de estabelecer novamente um voo regular, como o que existia ainda em 2007, entre Seul e Pyongyang.

Então a avaliação é positiva, mas acreditamos também que poderíamos acelerar ainda mais este tipo de relações entre Norte e Sul.

Você acredita que há uma tendência à melhoria das relações com os EUA? Quando começaremos a perceber avanços concretos para a pacificação da península coreana e uma maior integração da RPDC com o Ocidente, especificamente?

Sem dúvida há uma tendência à melhora das relações com os EUA. O encontro com Trump foi muito positivo, de maneira que desde o início da Guerra da Coreia nos anos 1950 estávamos em conflito permanente com o império norte-americano e o fato de que este é o primeiro presidente que decidiu se sentar na mesa de negociação sem dúvida é um grande avanço em relação a toda a história da nação [coreana] e das relações bilaterais com os Estados Unidos.

Agora, os avanços concretos vão depender muito precisamente dos Estados Unidos e da Coreia do Sul. Ela ainda é uma colônia militar dos EUA desde o final da Segunda Guerra Mundial e qualquer política, qualquer movimento que faça deve estar primeiramente autorizado por Washington. Então somente se Donald Trump, só se os EUA permitirem a Coreia do Sul avançar para uma reunificação, ela poderá realizar avanços muito mais claros e mais rápidos a este tipo de união.

Sobre a integração da República com o Ocidente, não depende de nós. A Coreia sempre esteve aberta a ter todo o tipo de laços de amizade e de negociação com todos os países ocidentais mas têm sido precisamente os EUA e esses países europeus que têm sancionado continuamente e ameaçado com a invasão da Coreia do Norte. Inclusive, alguns deles participaram da Guerra da Coreia, assassinando milhares de patriotas norte-coreanos – como Grécia, Colômbia e outros que não tinham nada a ver com o conflito coreano e foram arrastados pelo controle dos Estados Unidos para participar e morrer nessa guerra cruel que se desenvolveu de 1950 a 1953.

A RPDC declarou em diferentes ocasiões que iria destruir suas armas nucleares somente quando os Estados Unidos destruíssem as suas. Pyongyang mudou de opinião? Sem o poderio nuclear, o que asseguraria que os EUA não atacariam a Coreia, levando em consideração que Washington descumpriu diversas vezes suas promessas de não ingerência em outros países ao longo da história?

Sabemos bem que não podemos confiar nas promessas dos EUA e que, regularmente, eles se utilizam disso para aparentar uma normalidade e então se preparar para uma invasão ou uma guerra. Estamos vendo isso claramente com o Irã e, assim com o que está ocorrendo com o Irã, pode ocorrer com qualquer país onde, uma vez desarmado, [os EUA] pretenderão invadir e explorar todas as riquezas e todos os recursos desse país, tal como ocorreu também com a Líbia de Gadafi.

Então somos muito conscientes disso e nossa posição sobre as armas nucleares não mudou. Já somos uma potência nuclear. Graças ao poderio nuclear obrigamos os Estados Unidos a negociarem ao invés de nos invadir já que, como todos sabemos, a guerra nuclear se estenderia a todo o mundo e não haveria vencedores mas somente vencidos.

O que esperamos é que, visto que eliminamos nossa zona de testes nucleares e declaramos uma moratória temporária de provas balísticas (não estamos realizando nenhum tipo de testes de mísseis nem de testes nucleares há oito meses), os Estados Unidos tomem nota de que nossa vontade é a não proliferação e o não desenvolvimento de mais armas nucleares. Nos comprometemos também a não ceder armas nucleares nem o conhecimento tecnológico a terceiras nações, mas os EUA têm que começar a levantar as sanções ou, do contrário, veremos que o único que eles querem é seguir a política e as relações ao estilo líbio, com a ideia de nos desarmar para nos invadir.

Isso não vai acontecer, porque nossa nação é muito consciente de que o desenvolvimento de armas nucleares é justamente o que nos permite sobreviver e ter um futuro digno. Portanto, não vamos realizar um desmantelamento unilateral de toda a nossa capacidade defensiva nuclear. Isso não vai acontecer e o que, de momento, estamos nos comprometendo, é a não continuar nosso desenvolvimento e a transferência tecnológica a outros países.

Acredita que os EUA permitirão uma Coreia do Norte plenamente integrada à comunidade internacional e ainda com capacidade nuclear?

Não acredito que os EUA permitam uma plena integração ou levantamento total das sanções a um país que é socialista ou comunista, pelo simples fato de que isso vai contra seus princípios de mercado, de exploração e de império que é o que representam os EUA. Eles ainda têm um controle muito importante, sobretudo dos mercados internacionais e das transferências bancárias, e querem manter essa hegemonia.

Veremos se, no futuro, Rússia ou China são capazes de criar um bloco diferente ao dos EUA, mas no momento eles seguem sendo ainda os que controlam o mercado financeiro internacional, a Organização Mundial do Comércio e todos os organismos que correspondem a essas instituições.

Contudo, poderiam de alguma maneira nos facilitar o comércio exterior, se ao menos reduzissem ou eliminassem parte dessas sanções econômicas que nos impedem de realizar comércio internacional regular. Mas, como digo, em nenhum caso os EUA permitirão uma integração total, porque o desenvolvimento social, político e econômico na Coreia do Norte é socialista-comunista e vai contra os princípios do liberalismo econômico e da exploração que os Estados Unidos promovem.

Você mencionou a possibilidade de criação de um bloco por parte de Rússia ou China. A Coreia poderia participar, por exemplo, da Organização de Cooperação de Xangai ou da Nova Rota da Seda?

A Coreia poderia participar em qualquer aspecto de colaboração com outras nações como China e Rússia, sempre que isso não afete nossa economia socialista, soberana, nacional. Sempre que nossa moeda, o won norte-coreano, e nossa economia interna, baseada no cooperativismo socialista, não se veja afetada por elementos externos. Ou seja, não podemos ter uma divisa ou uma moeda baseada no socialismo que dependa do consumo de mercados estrangeiros.

Mas, em qualquer outro aspecto, sempre que se conserve essa independência e essa soberania sobre a moeda nacional, a Coreia poderia e, de fato, está colaborando com outras nações, como no caso da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático), onde participa nas reuniões colaborativas e econômicas como observadora.

Em uma entrevista recente, você declarou que a Coreia do Norte vai provar a superioridade do socialismo em relação ao capitalismo também no nível econômico, para além do político e militar. Como isso é possível, estando submetida a fortes sanções e a um isolamento prolongado e, ao menos segundo a mídia ocidental, sendo um país pobre e economicamente atrasado? A hipotética integração com o resto do mundo geraria tal êxito econômico ou, ao contrário, a RPDC contribuiria ao desenvolvimento de outros países, especialmente os do chamado Terceiro Mundo?

Esse tema é bastante complexo. Primeiro, é preciso entender que nosso sistema econômico na Coreia do Norte é de tipo socialista. Basicamente somos uma grande cooperativa de 28 milhões de pessoas e nosso sistema está apoiado na igualdade e, sobretudo, em que a propriedade é administrada pelo Estado e pertence a todo o povo. Não existem acionistas que lucram graças à exploração e ao suor do operário.

Então, inclusive em circunstâncias tão terríveis como as que passa a Coreia, de estar sob essa pressão internacional tão potente e tantas sanções, conseguimos desenvolver programas científicos e tecnológicos que são impensáveis nas nações supostamente chamadas de Primeiro Mundo como as da Europa. Tal como o lançamento dos diferentes satélites artificiais que nosso país têm em órbita agora mesmo, assim como muitos desenvolvimentos industriais que foram todos implementados dentro do próprio país e com o próprio conhecimento tecnológico de nossos cientistas.

Isso significa que, no momento em que a Coreia possa fazer comércio ao menos com um pouco mais de normalidade, ainda que não esteja totalmente regulado, ela sem dúvida poderá obter uma quantidade de divisas, de moeda estrangeira, que permitam importar aquilo que o país não tem em seu próprio território. Dessa maneira, complementaremos tudo o que já produzimos localmente – desde os refrigerantes até os calçados, passando pela construção, tudo é feito no próprio país, e só nos falta essa peça de quebra-cabeça para criar uma economia ideal. Uma economia onde todo o mundo tem de tudo: além de moradia gratuita, não existe o desemprego, socialmente não existe a prostituição, não há dependência de drogas, e tudo isso graças a que desenvolvemos um sistema criado e baseado no homem, não no lucro ou na empresa do liberalismo econômico.

Portanto, por si só a Coreia já é exemplar no fato de promover e proporcionar educação universitária gratuita a todos os cidadãos, ou moradia gratuita (não existe aluguel ou hipoteca), não existem tampouco os impostos. Ou seja, por si só já é um país muito elevado a nível social e igualitário. Se conseguirmos que seja eliminada ao menos parte dessas sanções e pudermos exportar e importar com certa liberdade, isso fará com que o influxo de moeda estrangeira para importações necessárias de materiais que não se encontram em nossa nação converta a nossa economia – uma economia muito produtiva – em um modelo a seguir, um modelo em que o nível de vida de todos os cidadãos supere o de qualquer país capitalista.

O Brasil enviou uma importante delegação para acompanhar o encontro de 27 de abril entre Kim e Moon, liderada pelo ex-presidente da República e atual senador, Fernando Collor de Mello. Ele voltou ao Brasil com uma excelente impressão da RPDC. Os brasileiros também estão entre o povo com maior interesse e curiosidade pela Coreia do Norte. Com o atual processo de distensão com os EUA, a Coreia teria interesse em se aproximar da América Latina? Como o Brasil é percebido pelo governo norte-coreano? Vocês desejam aumentar a cooperação bilateral? Em quais áreas?

Como eu disse antes, nossa política externa é nos abrir a qualquer país do mundo que deseje nos conhecer e que deseje colaborar conosco, baseados na independência, na paz, na amizade e no respeito mútuo, sobretudo em relação aos assuntos internos. Assim como a Coreia do Norte não diz ao Brasil, aos EUA ou a qualquer outra nação o que seus cidadãos devam fazer, que tipo de política devem seguir, assim também a Coreia do Norte não deve ser continuamente insultada, acusada ou forçada a seguir um modelo econômico e social que seus cidadãos não escolheram.

Baseando-se nesse respeito básico, nós temos relações diplomáticas com a grande maioria dos países no mundo e aqueles países com que não temos relações não é por que nós não queiramos mas sim porque eles decidiram não ter, por exemplo a França. A França não abriu relações diplomáticas plenas precisamente para evitar problemas com os Estados Unidos. Ou também Israel, com quem não temos relação porque seu governo é controlado pelos EUA.

Portanto, de nossa parte nunca detemos nem impedimos esse tipo de relação com qualquer nação. E, obviamente, a América Latina poderíamos dizer que é a parte menos desenvolvida a nível dessas relações. Também não por falta de interesse, porque chegamos a ter embaixada na Argentina também, no passado, e tivemos embaixada também no Peru durante muitos anos, mas esses governos, por servilismo aos EUA, decidiram anular ou eliminar pelo menos parte do pessoal das nossas delegações diplomáticas.

Assim que, no caso do Brasil, é um dos países mais importantes em toda a América Latina e um dos poucos países onde podemos encontrar uma embaixada da República, como no México, em Havana ou em Caracas mais recentemente. Essas últimas aberturas de embaixadas nos últimos anos, tanto em Brasília como em Caracas, mostram a determinação de nosso governo em fomentar as relações também com toda a região da América Latina que, provavelmente, é o continente que estava mais separado geograficamente e culturalmente da Coreia. E, sem nenhuma dúvida, queremos desenvolver todo o tipo de relações (em nível cultural, esportivo, comercial etc.) com o Brasil.

A percepção do governo brasileiro por parte de nosso governo é de respeito total. Como eu digo, consideramos o governo a representação do poder popular e nós não interferimos nos assuntos internos de outras nações. Assim, esperamos que, tanto com o Brasil como com outros países latino-americanos, avancem todo o tipo de intercâmbios e de relações comerciais, culturais, esportivas e que, pouco a pouco, ambas nações vão se conhecendo e, desta forma, chegar a fazer mais amigos em todo o mundo. Essa sempre é nossa posição sobre relações exteriores.


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