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Entrevista de Leonel Brizola, Fevereiro de 1964

Dois meses antes do Golpe de abril de 64, Leonel Brizola foi entrevistado pela Monthly Review, revista que desde 1949 reunia a fina flor do pensamento marxista como Leo Huberman, Paul Baran, Paul Sweezy, Harry Magdoff e Fred Magdoff.


Esta entrevista de Brizola constitui mais uma prova de seu anti-imperialismo e revela como o pessoal da universidade aqui no Brasil o interpretou maldosa e equivocadamente como “populista”. A verdade era outra: Brizola foi um político socialista.

MR – No momento Leonel Brizola é sem dúvida o líder popular mais influente da Frente de Mobilização Popular, um organismo que engloba a esquerda. Ele frequentemente fala ao povo na rádio mais ouvida do Brasil, ele fala uma linguagem clara usando muitas imagens e comparações.


BRIZOLA – “Você terá observado” (ele começou sem esperar a pergunta), “que o fato mais relevante no Brasil de hoje é a sua inflação. Nas atuais circunstâncias, a inflação é um problema insolúvel, porque sua origem é externa e controlada de fora, ela é um produto da pilhagem imperialista.”


MR – O processo inflacionário está acelerando?


BRIZOLA – “De janeiro de 1945 até dezembro de 1952 o custo de vida duplicou. Foram oito anos. Duplicou novamente de 1952 a 1958 em apenas seis anos, e de 1958 a 1961, três anos; outra vez de janeiro de 1962 a junho de 1963, um ano e meio. Agora o custo de vida duplicará em oito ou nove meses.”


MR – Como o senhor explica isso?


BRIZOLA – “É como se o imperialismo tivesse colocado uma grande bomba de sucção em nosso corpo para poder sugar nosso sangue. Já que não podemos resistir, o imperialismo retira o sangue e injeta água no seu lugar. O dinheiro que é posto aí, que não representa valor real, é a água. E é assim que nós vivemos. Mas o colapso virá, está se aproximando a passos de gigante.”


MR – Como ocorrerá o colapso?


BRIZOLA – “Pouco a pouco a situação está se tornando mais difícil de segurar: em vista disso, as classes dominantes, apoiadas pelo imperialismo, estão se unificando para dar um golpe de direita, a fim de estabelecer um governo de força, uma ditadura, seja ela escancarada ou disfarçada. Evidentemente seria difícil impor uma ditadura, pois já não é fácil enganar o povo. Nós estamos dispostos a lutar, estamos preparados, e isso será o começo da luta revolucionária pela libertação nacional. O exemplo de 1961 mostra que o povo lutará junto com os seus irmãos do Exército – os sargentos, os cabos, os soldados e os oficiais nacionalistas”.


MR – Quais são as condições necessárias para essa luta?


BRIZOLA – “Organização e unidade. Nós tivemos problemas com os erros cometidos pelo partido Comunista e por Francisco Julião. Devemos no entanto reconhecer que Julião possui o grande mérito de ter despertado o setor mais oprimido da nossa população: os trabalhadores rurais. E nós acreditamos que todos esses erros serão superados. Nós não somos anti-comunistas, recebemos bem a todos os brasileiros patriotas que venham a lutar pela libertação de seu país. O problema latino-americano tem de ser concebido como um problema de libertação nacional. Sem libertação nacional não podem existir as reformas de base porque não se resolve problema da pobreza.”


MR – Como o senhor pensa a revolução?


BRIZOLA – “Em primeiro lugar precisa ter unidade de todo os patriotas. É imperativo que a revolução encontre soluções socialistas. E não é uma questão de escolher uma doutrina de um livro. Somente as soluções socialistas é que permitem a defesa dos povos contra o imperialismo.”


(Ele me interrompe, sorrindo, antes que eu possa fazer a próxima pergunta.)


BRIZOLA – “Você vai me perguntar como cheguei a estas conclusões. Na época em que me tornei governador, eu era político convencional com todos os preconceitos habituais. Eu estava convencido de que bastava uma boa administração, trabalhar duro para melhorar a situação do povo em todos os setores. Mas eu vi que o povo trabalhava mais e melhor e, apesar disso, estava ficando pobre. Então, eu tive a compreensão do problema da América Latina em conjunto. Depois, quando tomei medidas contra determinadas companhias que nos exploravam, eu vi diante de meus olhos o problema da opressão imperialista. Olhe: é como se você e eu quiséssemos arrumar a mobília desta sala, mas alguém está carregando-a para fora. Aí chega uma hora em que não há mais mobília para arrumar. Por conseguinte, a primeira tarefa nossa é fechar a porta para impedir a espoliação.”

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