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Fidel Castro só se tornou comunista repentinamente após 1959?

(Bruno Torres, 12 de dezembro de 2017).


Fidel Castro só se tornou comunista repentinamente após 1959? Breves comentários sobre a adesão de Fidel ao marxismo.

Há uma espécie de “consenso” entre a maioria das personalidades de esquerda, historiadores, militantes políticos, etc., sobre a questão da adesão de Fidel Castro ao socialismo. Por razões distintas, à direita e à esquerda, há quem diga que Fidel só passou a se declarar comunista por “conveniência geopolítica”, O que é quase um consenso em certos setores.


Há também, entre setores minoritários da esquerda – brasileira e internacional –, quem diga que ele nunca aderiu autenticamente ao marxismo, e só teria se declarado de tal forma, por interesses de aproximação com a URSS sob a gestão de Nikita Krushev. Estas são análises comuns entre os mais dogmáticos da linha albanesa (hoxhaístas) e também entre muitos militantes da linha maoísta (em particular, aquela simpática a linha peruana e ao Pensamento Gonzalo). Embora esta posição não seja tão majoritária quanta a primeira, ainda sim, faz parte do arcabouço do debate sobre este assunto.


As análises sobre a adesão ou não de Fidel Castro ao marxismo são diversificadas. Particularmente, percebo que esta discussão tem sido ofuscada, realizada em meio a neblina, de modo que muitas dessas análises desconsideram elementos importantes da história da Revolução Cubana ou da própria biografia política de Fidel Castro. Desconsiderações estas que pode ser ou não ser intencionais. Podemos dizer, também, que são análises pouco científicas pautadas por questões puramente ideológicas, sem contar com uma questão crucial para o debate científico como a ‘precisão de informações’.


Este não um debate qualquer. Não se trata, aqui, de realizar “tietagem” sobre quando alguém aderiu ou não aderiu ao comunismo. Cuba é um país de extrema importância para a América Latina, e não menos para a esquerda brasileira. A História de sua Revolução e de seu principal líder, óbvio, terá uma importância por si só, devido a todos esses fatores já elencados.


Para tanto, a fim de enriquecer esse debate, mais do que simplesmente realizar tergiversações ideológicas e discursivas, resolvi enumerar alguns fatos e informações que podem trazer mais luz a discussão. Fatos que podem ser comprovados na leitura das mais variadas biografias de Fidel Castro (como a biografia escrita pela Claudia Furiati), na leitura de entrevistas (como a realizada pelo jornalista italiano Gianni Miná) e na consulta dos simples fatos históricos que podem ter sua interpretação parcializada, mas sua objetividade e existência não pode ser colocada como “mentira”.


Pois bem. Listemos.


1 – “O livro de León Trotsky”


Quando Fidel Castro se encontrava na prisão, muito antes da Revolução Cubana, o mesmo estava lendo a biografia sobre Josef Stálin escrita pelo renegado León Trotsky. De forma um pouco enraivecida, os guardas lhes tomaram o livro e o apreenderam. Fidel Castro, prontamente retruca aos guardas “por que vocês estão censurando um livro anticomunista?”.


2 – “As referências políticas de Fidel”


Enquanto prisioneiro, Castro trocava correspondências com correligionários do seu partido (o herdeiro do PRC de José Martí, conhecido na época como Partido Ortodoxo), assim como também trocavam correspondências com sua amante, Natalia Revuelta. [1]


Nas correspondências, Fidel Castro sempre costumava falar de política, de suas leituras, estudos e de suas próprias concepções.


Entre os correligionários do partido ele costumava citar referências de José Martí e de ideais políticos iluministas, apenas. À sua amante, do qual na época ele confiava politicamente nela mais que em correligionários do Partido Ortodoxo (ela inclusive quem lhe ajudou no assalto ao Quartel Moncada), ele citava Marx e Lênin.


Ou seja, Fidel omitia suas concepções políticas (ao menos parcialmente) para o Partido Ortodoxo, mas não omitia tais posições para sua confidente, Naty Revuelta.


3 - “A relação de Fidel com o PSP e o presidente nacional da juventude”


O Partido Socialista Popular (PSP, nome do partido comunista cubano a partir de 1944), contribuiu significativamente na formação política e filosófica de Fidel.


Além do partido contribuir para o mesmo com obras de Martí, Marx, Engels e Lênin, Fidel nutria grande apreço pelo presidente nacional da Juventude Socialista, do qual se reunia e debatia com o mesmo com larga frequência, seja no período em que Fidel estava na faculdade, seja no período em que esteve fora dela.


4 – “A incapacidade do PSP realizar a revolução”


Apesar do apreço de Fidel ao PSP e ao presidente nacional da juventude do partido (do qual, evidentemente, ele era bastante próximo), Fidel não acreditava que seria possível uma revolução por meio do PSP.


Dado o contexto da Guerra Fria, o anticomunismo exacerbado em Cuba, um país até então fantoche dos EUA e com um nível de condições subjetivas bastante atrasadas (isto é, de consciência da população, o baixo nível de consciência e de organização da classe operária cubana).


Fidel avaliava que se a oposição dos EUA a uma Revolução de Libertação Nacional já seria bastante agressiva, uma Revolução de caráter socialista dirigida por um partido comunista sofreria ainda mais ataques (e mais agressivos) do imperialismo, assim como teriam mais dificuldade de conseguir ter capilaridade nas massas populares de Cuba.


Assim, apesar de Fidel Castro ter aderido as concepções marxistas, lhe parece mais sensato omitir tal fato (devido a fins políticos e estratégicos). A isso também se soma a postura conciliadora que o partido comunista tomara, como abordaremos abaixo.


5 – “A passividade dos ‘comunistas’ sob a ditadura de Fulgêncio Batista”


Outro fator que causa uma certa frustração de Fidel para com o grosso marxistas em Cuba, amentando suas ressalvas já existentes, foi a questão da prática apática dos marxistas cubanos que se aprofundarão com a “coexistência pacífica” imposta por Krushev ao movimento comunista internacional, causando uma situação de apatia até mesmo entre os comunistas cubanos que se encontravam sob a cruel ditadura de Fulgêncio Batista.


Partidos comunistas de todo o mundo se reverberaram em meio à confusão. Os comunistas cubanos não foram exceções.


Bem antes da Revolução, o próprio Fidel e Raul (na época, já declarado abertamente marxista) discutiram sobre a questão, sobre a passividade dos comunistas em Cuba, com Fidel, inclusive, tendo uma posição mais combativa em relação ao seu irmão mais novo.


As discussões entre Fidel e Raul sobre essa apatia vão resultar de algum modo na adesão do irmão mais novo à luta armada – tal como o mais novo sempre buscou trazer o irmão mais velho ao marxismo.


6 – “Por qual razão Fidel priorizava os comunistas ao delegar funções de importância na retaguarda da guerrilha?”


Algo muito curioso ocorre no processo da luta armada em Cuba, muito antes da própria tomada de poder em Havana. Fidel Castro, como máximo dirigente do Exército Rebelde, sempre que avançava posições na guerrilha, precisava delegar responsáveis e dirigentes para coordenarem e “manterem o controle” das zonas libertadas (não só uma direção de tropas, mas uma direção territorial).


Essas funções de crucial importância para a manutenção do poder nas áreas já libertadas para se poder avançar da guerrilha rural rumo às cidades, eram delegadas sobretudo a companheiros comunistas e não a de outras linhas ideológicas. O que, acredito, não seja mera força da “coincidência” ou do “acaso”, o que em política pouco existe.


A leitura de Fidel Castro ao fazer isso, era manter a hegemonia de sua linha na Revolução Cubana, para que ela não capitulasse a outras linhas que ele considerasse equivocada.


A hegemonia de uma linha comunista em Cuba, na prática, já se constituía desde aí, mesmo que de forma “sútil”, tolerando a presença de outras linhas políticas, porém, não hegemônicas, subordinadas neste entrelaçamento político construído por Fidel, ao projeto de libertação nacional que caminharia, necessariamente, a um projeto de libertação social!


Revolução de libertação nacional ou popular, seja lá o que for, o que mais importava era saber que grupo político teria a hegemonia do processo – isso é, a direção – e, era isto que, no final das contas, determinaria qual grupo e linha política teria poder no processo.


Como Lênin nos fiz “fora o poder, tudo é ilusão”. Fidel, como vemos, tinha aprendido muito sabiamente estas palavras. A hegemonia tratava-se sobre direção de um processo, e a direção de um processo trava-se sobre o qual classe social realmente se colocará no poder no decorrer desse movimento histórico.


Assim, a revolução cubana era hegemonizada por uma concepção socialista (embora não publicamente, no programa político “aberto”), desde a guerrilha, muito antes de “oficializar” o caráter socialista do regime anos posteriores em 1961.


7 – “Tática e estratégia & Condições subjetivas e objetivas”


Em 1987, numa entrevista com o italiano Gianni Miná, indagado sobre a questão de ele ter sido "sempre um marxista" ou se essa avaliação é equivocada, Fidel responde positivamente.


Não só responde positivamente como justifica sua postura em termos marxistas, de tática e estratégia, sobre o caráter da revolução, e as necessidades táticas dela.


Segundo Fidel, apesar de já, há muito, ter aderido ao marxismo-leninismo, se confessar enquanto comunista, e expor a hegemonia dessa linha na direção do processo nacional-libertador cubano despertaria os mais vis sentimentos anticomunistas presentes na Guerra Fria, ainda mais se tratando de Cuba que se localiza debaixo do nariz do Império, confirmando (nas próprias palavras dele) o que pode ser visto em outras documentações, biografias e na própria pesquisa histórica e historiográfica.


Além disso, na mesma entrevista, Fidel fundamenta que além das condições objetivas, um programa revolucionário também deve obedecer às condições subjetivas: as condições subjetivas da sociedade cubana, para a agitação política por meio de um programa abertamente socialista, eram péssimas, segundo suas palavras.


Um programa nacional libertador cumpria o papel de mobilizar o povo cubano para a revolução, ao mesmo tempo que dava aos revolucionários a oportunidade de "melhorar as condições subjetivas" – de organização do proletariado e consciência do povo –, para que o aprofundamento do programa nacionalista desemboque necessariamente na transição ao programa socialista.


8 – “Sobre o cenário internacional e a questão geopolítica”


O cenário internacional imposto à Cuba após 1959 vai de alguma forma influenciar sobre o fato da República de Cuba oficializar sua adesão ao marxismo-leninismo em 1961? É correto dizer que sim, e seria ingenuidade não admitir. Esse episódio vai, de alguma forma, acelerar a oficialização do socialismo, mas que, no íntimo dos debates internos e nos bastidores da direção revolucionária, é um debate que se gestava há bastante tempo.


Este episódio só vai ser “um elemento a mais”, será uma parte do todo que é esse processo tão complexo da Revolução Cubana. Não será, de forma alguma, o “único fator”.


Toda a influência do PSP em sua formação, a influência maior ainda de seu irmão Raul Castro, bem como de seu companheiro e amigo de longa data Ernesto Guevara, vão consolidar a posição de Fidel Castro nesta linha política desde antes da tomada de poder.


Sua adesão ao marxismo, como podemos ver, é um processo de formação com bases teóricas precedentes ao ano de 1959. Sua adesão ao marxismo foi fruto de um processo contínuo com forte influência e bases teóricas de companheiros e aliados seus, mas também fundamentado na sua própria prática política.


Quem afirma que Fidel Castro fez uma adesão repentina, do dia para a noite, por pura e simples “conveniência” internacional, desconhece elementos importantíssimos da História de pátria de José Martí, da História da Revolução Cubana, e da própria biografia política do Comandante-em-Chefe e líder inconteste desta Revolução.

NOTAS


[1] – Na época, o líder do Partido Ortodoxo tenta um “suicídio político” quando estava ao vivo na rádio (uma catarse que vagamente lembra o caso de Vargas). Após ele dá um tiro em si mesmo, Fidel Castro leva-o ao renomado médico cubano Orlando Fernández, para tentar salvá-lo, todavia ele não resiste e morre. A esposa deste médico, Natalia Revuelta simpatiza pela por Fidel Castro e por sua causa, se aproximando do mesmo politicamente, mas tendo também um breve romance que gerou uma filha “ilegítima”, Alina Fernández. O romance foi breve e quando Fidel logra sucesso em sua campanha revolucionária chegando em Havana em 1959, a relação pessoal e amorosa dos dois, que já estava “morna”, esfria-se de vez. Natalia Revuelta, todavia, mesmo após o fim do romance, manteve uma sólida relação política e de amizade com aquele com quem ela contribuiu significativamente para o avanço da causa rebelde.


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