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Geopolítica regional: A Rússia e a Comunidade dos Estados Independentes.


Imagem 01: Ex- Presidentes russo e ucaniano Demitri Medvedev e Viktor Yuschenko, em visita oficial à Ucrânia, em 2009.

Fonte: Getty Imagens, 2010


Texto por: Guilherme Melo


Comunidade dos Estados Independentes


Um dos objetivos geopolíticos da Federação Russa, da ordem geopolítica pós guerra-fria, que ao mesmo tempo que desenvolve um mundo unipolar à beira de uma desintegração deste estilo, por imperar uma tendência de crescimento da regionalização de fenômenos econômicos e políticos.


Para a Rússia, assim como qualquer outro país é mister ter relações estratégicas com os países que lhe são vizinhos, seja para acordos multilaterais, defesas, comércio exterior, segurança, diplomacia e cooperação em problemas regionais que são comuns aos mesmos países.


A Europa Oriental para os russos é conhecido como o “Estrangeiro Próximo”.


Na mente de Boris Yeltsin (primeiro Presidente da Rússia após o fim do Comunismo), a queda da URSS deveria ter dado lugar a uma união destes países em que a Rússia assumiria um papel de protetor/diretor nos assuntos externos. Mas como seria de esperar, enfrentou logo de início uma forte oposição desses países que não reconheceram na Rússia a mesma força com que a URSS lhes tinha imposto a permanência na União. (CHURRO, 2013 p.158)


O estímulo à cooperação regional estava contextualizado numa dinâmica fluída de fatores causais para a criação da CEI, havia na década de 90 uma forte regionalização comercial do mundo com o Mercosul, União Europeia, NAFTA; a Rússia estava integrada com as novas noções de escala regional de parceria comercial.


No sentido de defesa de interesses da política interna, estava ter certa previsibilidade e relevância na região, além de proteger as fronteiras, evitando a instalação de tropas da OTAN nas regiões de fronteira, o que aconteceu mesmo assim desde 1995.


Rússia, Ucrânia, Bielorrússia, Azerbaijão, Armênia, Geórgia, Cazaquistão, Uzbequistão, Turquemenistão, Tadjiquistão, Quirguistão e Moldávia, ex-repúblicas soviéticas que integram o bloco, com exceção dos países bálticos, dentro da economia capitalista, a formalização de acordos é fundamental para que as multinacionais russas possam atuar nesses países.


A nível de integração econômica, a CEI permanece ativa, como um aporte de circulação de empreendimentos a nível regional, com um forte protagonismo dos serviços de infraestrutura desenvolvidos na Rússia, que tem mercados de exportação de gás e energia termoelétrica para os países vizinhos.


Porém, além das questões de ordem burocrática da ceara econômica, como as definições de regulação de serviços, tributos, a integração regional sob um viés institucional perdeu fôlego nos primeiros anos do Governo Putin, ele não se demonstrou afeito de ser um colaborador passivo do Ocidente, haveria na sua leitura de mundo uma anarquia comum dos sistemas multipolares.


A regionalização seguia normalmente dentro de um viés estritamente burocrático, porém, não houve por parte de todos os membros, a competência de desenvolver uma integração regional política para resolver problemas de segurança, terrorismo e fronteiras na região, isto obstruiu sensivelmente a integração do leste europeu.


Havia uma pendência destas ex-repúblicas soviéticas que era de natureza secular, a definição das nacionalidades e dos seus respectivos territórios, isso não só na Rússia, país de tamanho continental, mas nas menores repúblicas também, como a Geórgia, Ossétia e Ucrânia.


Os problemas com a vizinha Ucrânia, começaram desde 2005, quando Viktor Yanukovych, que a época decidiu se aproximar do Ocidente, cogitando se integrar ao processo de entrada da União Europeia, isto provocou uma resposta russa no inverno, a redefinição das tarifas da energia termoelétrica, isso dissuadiu por hora os ucranianos enfrentarem a Rússia, por não terem claras outras alternativas de solução da crise energética que seu país viveria.


Conflitos: Rússia e a Geórgia


O outro conflito regionalizado deste mesmo ano, de 2005, foi com a Geórgia, por conta desta dificuldade metodológica e política que toda a Europa oriental viveu na sua história, a definição dos Estados e das nacionalidades, durante o período soviético, a Ossétia do Sul foi uma região autônoma.


A Ossétia do Sul, assim como a Sérvia, são os poucos Estados que tem uma relação histórica harmoniosa com os russos desde o período czarista, a década de 90 na Geórgia viu problemas de integridade territorial com o nacionalista Zviad Gamaskhurdia, que não reconhecia a autonomia das sub-regiões.


Eduard Shevardnadze, o presidente sucessor (1995-2003), foi mais político e diplomático, reconhecia a autonomia destas regiões e caminhava para um modelo próximo da Federação Russa, que tem 21 regiões e 7 Repúblicas dentro da Federação, porém esta paz não pode continuar.


Mikhail Saakashvill, o presidente que sucedeu ao período de paz, tinha uma plataforma política explícita de unificação da Geórgia, a recusa em manter um federalismo na Geórgia vai ser motivo de sua desintegração, pois não havia socialmente uma espírito de comunhão entre a Ossétia do Sul e a Geórgia.


Eu gostaria de enfatizar que nem a Geórgia nem seu presidente vão tolerar a desintegração do país. Portanto, nós oferecemos negociações imediatas para nossos amigos abkhazes e ossetas. Nós estamos prontos para discutir qualquer modelo de Estado, levando em consideração seus interesses, para a promoção de seu futuro desenvolvimento (apud ORTEGA, 2009, p.27)



Imagem 02: Geórgia e regiões autônomas

Fonte: Indistrict Unior, 2018.


A questão georgiana, estava em estágio de observação desse o fim da União Soviética, ONU e diplomatas russos eram os atores internacionais que estavam criando mesa de conciliação entre o governo georgiano e os representantes das Repúblicas autônomas.


Uma estratégia ousada da Geórgia, em 2004, de não levar em consideração este histórico, vai desarmonizar a baixíssima integração dos territórios que vinham acontecendo no período de 1995 a 2003; com isto em agosto de 2005, a capital da Ossétia do Sul foi invadida em agosto de 2008.


Em 5 dias com a ajuda russa, a Ossétia reforçou o seu estágio de independência ao vencer com o apoio do exército russo, a Abecásia, também aproveitou a oportunidade, declarou guerra à Geórgia, diplomaticamente a Rússia reconheceu os dois países como independente, à época, Dmitri Medvedev era o presidente russo.


Com esta acção militar, Moscovo pretende travar o alargamento da NATO fazer recuar a presença ocidental na área da CEI, e deixar um sinal de aviso às antigas repúblicas quanto ao seu poder, influência e capacidade de acção [...] a Rússia conseguiu com a intervenção na Geórgia ganhos em diferentes níveis: a nível local, com o enfraquecimento da república georgiana, uma dupla vitória face a um apoio ocidental que não se materializou como Tbilissi esperava; [...]regional, com Moscovo a reafirmar-se na área e a sublinhar o seu envolvimento em matérias de interesse estratégico; nível internacional, demonstrando que a política de contenção face ao Ocidente não é mera retórica (FREIRE, 2008, p.53).


A política realista da Rússia define um espaço vital a manutenção do Estado, a CEI, é uma região estratégica de observação e de securitização da política de Defesa, é uma sub-região a qual a Rússia interpreta ter que agir de forma dissuasiva para evitar qualquer penetração da OTAN nas suas fronteiras.


Referências

CHURRO, João Manuel Barroso de Matos. A Geopolítica enquanto instrumento de afirmação social da Rússia. 2013. 184 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Estratégia, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Universidade de Lisboa, p. 158.


FREIRE, Maria Raquel. Debate: uma nova Guerra Fria?. Relações Internacionais, Lisboa, n. 20, p. 49-66, dez. 2008, p.53.


ORTEGA, Felipe Afonso. Cores da mudança?: as revoluções coloridas e seus reflexos em política externa. 2009. 139 f. Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2009, p.27


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