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Há caos sob o céu, a situação é excelente (por Andrey Vítor)

Sobre a necessidade de organização da esquerda diante do caos.

Talvez as palavras do líder chinês nunca tenham sido tão atuais: a desordem, o caos, a anomia atual é o momento mais que oportuno, basta que exista a organização necessária para o seu aproveitamento político em prol da emancipação humana. Nada ganha a esquerda que diante do cenário de caos se amedronta ou quer usar do medo para mobilizar pois a grande verdade é que já houveram momentos piores, já houveram algozes mais levianos que tiveram suas cabeças decepadas e seus bustos de pedra demolidos e a historia nos mostra que isso só foi possível graças a (re)organização e não ao medo.


Existe uma grande certeza na concepção dialética do mundo: tudo muda, tudo é capaz de mudar, pois, tudo é processo autodinâmico e ser é (em si) movimento. Só tendo certeza da possibilidade de mudança que podemos nos direcionar rumo a (re)organização, sem abrir mão (é claro) da analise política do movimento real uma vez que “sem teoria revolucionaria, não há prática revolucionaria”. Apenas se organizando é possível desorganizar e apenas desorganizando é possível reorganizar: essa é a unidade contraditória dos processos de mudança que só serão possíveis sendo radical (no sentido marxiano) ou seja tomando o ser pela sua raiz.


Organizar a quem/se organizara onde?


A crise das grandes narrativas de mudança depois da queda da união soviética fez a esquerda abandonar (acreditando na tese do fim da historia) a construção de um sujeito coletivo concreto capaz de superar o velho mundo. Penso eu, que mais do que nunca é necessário um retorno ao velho Marx em sua analise concreta de qual sujeito é capaz de nessa sociedade emancipar (através de sua emancipação) toda a humanidade. O proletariado é o sujeito coletivo (diverso e unitário) capaz de juntar em torno de si todas as reivindicações de um mundo melhor e de reunir todos os agentes que compõem sua diversidade (homens e mulheres, negros e brancos, heterossexuais, LGBTs e etc) no projeto de revolução social que não esteja preso a emancipação parcial dentro da sociedade capitalista, mas que seja sua radical negação em prol da emancipação de todo o gênero humano.


Se a fragmentação dos agentes de mudança se mantem é impossível romper, no meu modo de ver, com a miséria do mundo capitalista, pois as ações vão partir de visões das partes mistificadas por não perceberem a totalidade (entenda totalidade como as interconexões, a relação entre as partes, o seu desenvolvimento). É urgente tomar os trabalhadores como esse sujeito coletivo levando em conta aquilo que lhes unifica (a exploração do mundo capitalista e a luta por melhores condições de vida) e as suas particularidades que devem ser articuladas em um projeto único de emancipação que leve em conta a tomada do poder para a construção de um novo mundo e de uma nova sociabilidade.


É hora de reformular o que disse Marx:


Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos, pois apesar de suas particularidades, não existe alternativa de mudança radical sem a sua organização enquanto sujeito coletivo. Organizar a classe trabalhadora e se organizar junto a ela é o único caminho!


O que fazer?


Tendo em vista tudo que já foi dito acredito que seja necessário enumerar alguns pontos fundamentais, em minha concepção, para guiar a (re)organização de toda esquerda sob o caos.


1- Recuperar o debate publico sobre a revolução e reavivar a certeza de que é possível romper radicalmente com o modo de produção capitalista e sua sociabilidade doentia. É mais que necessário retirar o véu de ilusão em torno da possibilidade de humanizar o sistema que mercantiliza a vida e que joga a humanidade debaixo da força da alienação.


2- Recuperar o debate sobre tática e estrategia munido de esforçado estudo sobre a realidade social que se quer superar. É tomar a arma da critica para pensar a critica das armas sem esquecer que “a força material tem de ser deposta por força material, mas a teoria também se converte em força material uma vez que se apossa dos homens.”


3- Tomar o ser social como um ser integral e modifica-lo na sua integralidade. Não é possível mobilizar os sujeitos apenas pela argumentação racional, a racionalidade é apenas parte do ser, é necessário tomar também a instancia do afeto e das emoções e levar todos esses aspectos em consideração no processo de luta.


4- Tomar a luta não apenas como meio de mudança dessa sociedade, mas também como meio de mudança do ser. A luta é a forma pedagógica capaz de produzir a solidariedade necessária para a radical mudança. Como dizia Lenin sobre as greves: A greve ensina os operários a compreenderem onde repousa a força dos patrões e onde a dos operários, ensina a pensarem não só em seu patrão e em seus companheiros mais próximos, mas em todos os patrões, em toda a classe capitalista e em toda a classe operária.


5- Encarar a politica não como quer fazer parecer o estado e seus aparelhos ideológicos quando falam em algo como uma “vontade geral”. É lembrar que a política na sociedade capitalista é a política do conflito, pois é feita na sociedade onde o conflito é a ordem e a ordem é conflitual. “A política é uma guerra sem derramamento de sangue, e a guerra uma política com derramamento de sangue.”


6- Saber que o projeto de mudança radical dessa sociedade é também um projeto de tomada do poder. Sem o poder nas mãos da classe explorada na reconstrução da nova sociedade é impossível reconstruir a mesma. A revolução é sim um ato de violência e não deve se envergonhar de falar isso aquele que vive debaixo da violência todos os dias na sociedade capitalista. É necessário que se tenha em mente que “fora o poder, tudo é ilusão”, pois nada é verdadeiramente garantido dentro do mundo capitalista e que “ O poder nasce da ponta do cano de um fuzil”, pois só a tomada violenta é capaz de expropriar os expropriadores e de levar a cabo a negação da negação (a propriedade social).


A conclusão não conclusiva


Ainda existe muito a ser discutido sobre essa questão, mas eu espero que o texto desse pequeno militante sirva a outros militantes que também se perguntam sobre o caos e também guardam esperanças na (re)organização das esquerdas rumo a um mundo novo.


Longe de qualquer crença de que a revolução está ao nosso lado e também distante de qualquer crença de que a revolução é impossível, esse pequeno texto tem apenas uma coisa a dizer: é preciso trilhar um caminho de preparo das condições possíveis para a revolução. E “o dever de todo revolucionário é fazer a revolução” porque faze-la não é apenas o ato da tomada de poder, mas é a construção diária da possibilidade da mesma.


Andrey Vítor


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