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Identidade geopolítica da Rússia contemporânea


Imagem: manifestantes ucranianos pró-russos invadem admnistração provincial e declaram Donetsk uma cidade russa.

Fonte:ALEXANDER KHUDOTEPLY / AFP


Introdução

Identidade e geopolítica, podem ser estudadas conjuntamente? É possível buscar as impressões dos fenômenos geopolíticos? É uma indagação para pensar quais são os efeitos da política externa na imprensa, literatura acadêmica e principalmente no imaginário popular.


Isto é sobretudo importante quando se trata dos processos de regionalização, mais amadurecido na União Europeia, onde vem se fomentando a ideia de um cidadão europeu, que apesar do Brexit, existem países do leste europeu como a Ucrânia e a Turquia querendo se integrar.


Assim como uma visão europeia, ou de uma Europa ocidental vem sendo constituída pelo bloco, que hoje é uma união política, que atingiu os mais profundos níveis de regionalização, a Europa oriental, ou leste europeu pode sofrer uma construção de imagem da mesma forma, porém, feita pela Rússia.


Eurasianismo: identidade geográfica

A política externa de um determinado Estado pode ser entendida como a internacionalização da política interna, os interesses nacionais, dos blocos dirigentes do parlamento e do Chefe do Estado moldam um reflexo do imaginário sociológico de um determinado povo.


O espaço passa a sofrer um determinado simbolismo, vem a existir um marco simbólico da geografia física de um determinado país e do seu papel no mundo, na Rússia, isso pode ser ainda mais forte, na sua gênese histórica, a Rússia começa com dois principados, Moscou e Kiev.


Kiev é tomada de assalto pelos mongóis e Moscou derrota os invasores, dando início a Rússia moderna da qual conhecemos hoje, um forte impulso expansionista é implicado nessa história, o espaço é um elemento indissociável do ethos deste povo, que carrega este ímpeto militarista e conquistador na sua trajetória.


Ivan III, o Grande acabaria definitivamente com o julgo mongol em 1480. O primeiro Czar Ivan IV, o Terrível, inicia a construção do Império Russo ao conquistar novo territórios. Com a conquista dos canados (reinos mongóis) de Kazan (1552) e Astrakhan (1556), ele passa a dominar o rio Volga. A conquista de Kazan é geralmente considerada o início da construção do Império Russo, pois marca a primeira expansão de Moscou para além dos territórios tradicionalmente eslavos. (SEGRILO, 2012, p. 29)


Todas estas informações sobre a Rússia, que até um certo ponto aparentarão estar desconexas, em especial pelo grau de especialização dos estudos de cada área, aparecerá como uma síntese homogênea num contexto bastante peculiar do continente europeu, a onda nacionalista do século XIX, em especial a reação de todos os países europeus às guerras napoleônicas.


O Congresso de Viena, entre 1814 e 1815, cujo objetivo era desenhar o mapa político do continente europeu, após a derrota napoleônica, deu ao mundo europeu, uma discussão e um novo sentido para a história, a política não poderia ser mais provincial e localizada em pequenos condados, municípios, províncias ou pequenos Estados pontifícios, como os Estados papais da atual Itália.


Era o momento histórico dos Estados nacionais, cada povo, estava barganhando uma identidade ancestral, disto veio movimentos como o pangermânico, pan-eslavismo, cujo segundo vai dá origem a uma escola chamada “eurasiana”, assim como o romantismo alemão, a escola da eurásia queria dá um sentido geopolítico ao leste europeu.


A defesa teórica é que a Rússia representava uma terceira Roma, a primeira foi o Império Romano, sucumbido em 476 a.c., a segunda era Constantinopla, cuja dissolução foi em 1453, desde então restaria somente uma, a Rússia, que congregaria as populações eslavas e otomanas, herdeiras de uma tradição greco-romana, herdeira de uma tradição filosófica cristã oriental desenvolvidas pelas escolas teológicas orientais da patrística.


A Rússia havia se formado em reação ao domínio mongol, que oprimia os povos orientais e esta foi conquistando territórios a leste de Moscou e disseminando seus valores, cujo três principais eram: ortodoxia, autocracia e soberania; estes elementos se misturaram também com o pensamento iluminista e racionalista, na fase do despotismo esclarecido de Pedro, O Grande (1682 – 1721) e Catarina Segunda (1762-1796)


Inspirado no movimento pan-eslavista do final do século XIX, o eurasianismo clássico, nascido nos anos 1920, considerava a Rússia um continente intermédio, uma massa homogênea, distinta tanto da Ásia, como da Europa e que, apesar de combinar elementos de ambos, se constituía essencialmente como melting point cultural da população eslava e turcootomana. (FERREIRA; TERRENAS, 2016 p.47)


Mundo pós-soviético


O fim da União Soviética deixou um vazio de sentido para a Rússia, para Repúblicas próximas como Bielorrússia e a Sérvia, podem ter compartilhado da perda do fim da união destes povos eslavos, porém para os povos bálticos como a Lituânia e a Letônia, que tem relações conflitivas com a Rússia desde o século XIX, pode ter sido um selo de libertação.


Mas a grande massa continental que é a Eurásia, que reúne o leste europeu e a Ásia Menor ficou fragmentada de sentido geopolítico, e isto impactou em especial a Rússia, que em meados da segunda metade da década de 1990, ainda no governo de Boris Iéltsin começou a responder à ocidentalização que a Rússia e toda a sua região de influência vinha sofrendo.


A desintegração soviética dos anos 1990 criou um vazio de poder no coração da Eurásia e promoveu a recuperação do pensamento geopolítico eurasianista: o chamado novo eurasianismo. A renovada importância dada á geopolítica pelas novas elites russas representou uma forma de ruptura na percepção metapolítica e a superação do paradigma soviético. (FERREIRA; TERRENAS, 2106, p.47)


O novo eurasianismo, ou os eurasianistas dos anos 1990 foram parte de um fenômeno que é comum ao que Francis Fukuyama defendia como fim da história, de acordo com o historiador nipo-americano, o liberalismo americano tinha triunfado na guerra fria e não permitiria a emergência de uma nova grande teoria que investigasse a filosofia do homem, o humano seria limitadamente liberal no sentido teórico do termo.


Esta perspectiva de um fatalismo seja do nacionalismo, comunismo ou de qualquer outra corrente ao processo de internacionalização capitalista da economia que acontecia via instituições financeiras, como o FMI, permitiu a emergência de um fenômeno estranho na história da política moderna, a união da extrema esquerda e direita para o mesmo fim.


Na década de 1990, o eurasianismo funcionou sobretudo como paradigma agregador de uma certa coligação entre comunistas e a extrema direita que se opunha à posição liberal pró-ocidental, vista como nefasta para a autonomia e os interesses do Estado russo. (Ibid)


Vale notar que esta síntese é bem particular do contexto russo, que independente dos diferentes czares e dirigentes do partido comunista, tinha visto exceto com Nicolau I e Lênin, que podem ser considerados os líderes mais diplomáticos da geopolítica russa, uma história marcada por líderes que em menor grau se comprometia com a expansão das fronteiras russas.


Os debates, seminários e palestras sobre a geografia política, geopolítica e política externa feita pela coligação eurasianista não se limitou somente em uma agenda intelectual, este movimento cultural refletiu em uma coligação eurasianista para a Câmara Federal Russa (DUMA), de 1993 e 1995, o maior resultado político desta organização foi a nomeação de Primakov, em janeiro de 1996 para ministro das relações exteriores.


A Rússia tem sido e continua a ser uma grande potência, e a sua política face ao mundo exterior deve corresponder a esse estatuto. A Rússia é Europa e Asia, e essa posição geopolítica continua a jogar um papel significativo na formulação da sua politica exterior […] Sem esse escopo geopolítico, a Rússia não pode continuar a ser uma grande potência nem desempenhar o papel positivo a que está destinada. Os valores geopolíticos são constantes e não podem ser abolidos pelo devir histórico (Primakov, 1992, p. 104).


Para o seu principal expoente contemporâneo, Alexander Dugin, o eurasianismo seria uma filosofia política, que misturaria elementos desta tradição oriental do mundo bizantino com o da geopolítica que é uma ciência moderna que surge para interpretar e criar estratégias do Estado moderno com o seu espaço.


E no sentido prático, o movimento tenta hoje criar uma regionalização geopolítica da Eurásia por meio de uma integração econômica, que auxilie a descentralizar o poder unipolar que os Estados Unidos hoje tem por meio do seu próprio Estado e da utilização das instituições internacionais, criando novamente uma estratégia global de regiões de influência para cada subcontinente.


Referências



FERREIRA, Marcos Farias; TERRENAS, João. Good-bye, Lenin! Hello, Putin! O discurso geoidentitário na política externa da nova Rússia. Rev. Bras. Ciênc. Polít., Brasília, n. 20, p. 43-78, Aug. 2016, p.47, p.104.


Os russos / Angelo Segrillo. – São Paulo : Contexto, 2012, p.29.


PRIMAKOV, Yevgeni (1992). “Preobrazhennaya Rossiya” [comunicação no Instituto de Relações Internacionais de Moscou em 1992], Mezhdunarodnaya zhizn, n. 3-4. Apud TSYGANKOV, Andrei. Russia’s foreign policy: change and continuity in national identity. Lanham (MD): Rowman & Littlefield, p. 192.


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