Publicações e Posts


 

Esta é a seção de Postagens e Publicações, partilhadas pelos distintos sites vinculados ao Jornal A Pátria. Para retornar a seção ou blog que estava anteriormente, basta clicar nela abaixo (ou voltar no navegador):

Le Monde: França apoiou genocídio em Ruanda

Atualizado: 22 de Ago de 2018

Na época, o governo do país do Leste da África, comandado pela etnia hutu, preparou e executou o assassinato de civis da etnia tutsi e de hutus contrários ao presidente. Embora as causas do genocídio contenham elementos étnicos, muitos analistas apontam que estes foram exacerbados, de forma pensada, em nome de questões políticas.


É a primeira vez que a forte suspeita desse suporte aos executores do massacre por parte da França é confirmada. Os documentos foram obtidos por advogados de seis tutsis sobreviventes, que estão processando o país europeu por "cumplicidade com o genocídio", no Tribunal Militar de Paris.


Telegramas e memorandos antes confidenciais, publicados pelo jornal francês Le Monde no dia 3, sugerem que o ex-presidente (morto em 1996, em decorrência de um câncer) estava obcecado com a ameaça da influência anglo-saxã sobre Ruanda, de língua francesa.


Um dos argumentos que os líderes do chamado Poder Hutu usaram para "convencer" os civis hutus a se voltarem contra os tutsis foi o perigo representado pela Frente Patriótica Ruandesa (FPR), guerrilha formada por refugiados desta última etnia que viviam há muitos anos em Uganda, de língua inglesa, e que tinha como objetivo destituir o governo de Ruanda.


Alertas desprezados


Um telegrama diplomático de outubro de 1990 – quase quatro anos antes do genocídio, quando a FPR entrou em território ruandês pela primeira vez –, enviado ao governo francês pelo adido de defesa do país em Kigali, capital de Ruanda, já alertava sobre o "número crescente de prisões arbitrárias de tutsis e pessoas próximas a elas. (...) É para se temer que a situação possa se degenerar em uma guerra étnica".


No dia seguinte, o então embaixador da França em Ruanda, Georges Martres, avisava: "Os hutus civis organizados pelo MRND (partido do presidente) intensificaram a procura de tutsis suspeitos nas colinas. Os massacres chamam a atenção no distrito de Kibilira".

Mesmo com tais avisos, o governo francês decidiu enviar militares à Ruanda para o treinamento das Forças Armadas do país. No começo do ano seguinte, as operações foram reforçadas. Em março de 1992, outro memorando, dessa vez do diretor de Assuntos Africanos do Ministério de Relações Exteriores da França, Paul Dijoud, pede um fortalecimento complementar da presença militar francesa em Ruanda, pois “a guerra está pior e mais dura”. Como conseqüência, o fornecimento de armas aumentou.


Em 19 de janeiro de 1993, outra mensagem diplomática, enviada pelo embaixador, não deixa dúvidas a respeito da ameaça de um genocídio planejado pelo governo ruandês ser posto em execução. O documento cita a afirmação de um informante local de que o presidente do país, Juvénal Habyarimana, havia sugerido "conduzir um genocídio sistemático usando, se necessário, a assistência do Exército, além de implicar a população local nos assassinatos".


Em um recado de 15 de fevereiro de 1993, Bruno Delaye, conselheiro do governo responsável pela África, alerta que a FPR é “capaz de tomar Kigali (a capital)”, e cita a dificuldades existentes na região, favoráveis ao mundo anglo-saxão, além da existência no país africano de um “sistema excelente de propaganda, apoiado por assassinatos horríveis cometidos por extremistas hutus”.


Em 3 de março do mesmo ano, o general Christian Quesnot, comandante especial do Exército francês, propõe a Miterrand a incriminação da guerrilha através de uma “forte e imediata reorientação da informação da mídia francesa a respeito de nossa política em Ruanda, lembrando os ataques severos aos direitos humanos cometidos pela FPR: massacre sistemático de civis, limpeza étnica, deslocamento da população, etc”.


Uma hora, mil mortes


Três meses antes do início do genocídio, em 12 de janeiro de 1994, um telegrama diplomático enviado pelo embaixador em Kigali é taxativo: o plano começaria com uma provocação às tropas da FPR na capital, para estimular um ataque. “As vítimas ruandesas, que certamente surgiriam como conseqüência de uma reação como essa, seriam então uma razão boa o suficiente para uma eliminação física dos tutsis na capital.

De acordo com o porta-voz da Unamir (a missão da ONU no país), 1.700 homens da milícia Interahamwe teriam recebido treinamento militar e teriam sido armados para tal propósito, com a ajuda do comando das Forças Armadas de Ruanda. A população da capital facilitaria a eliminação de mil tutsis dentro da primeira hora depois do começo dos conflitos”.


Levando-se em consideração que, em cem dias, foram assassinadas 800 mil pessoas, chega-se ao número de pouco mais de 300 mortes a cada hora. No entanto, como a maior parte das vítimas foram dizimadas nas primeiras semanas do massacre, é bem provável que a meta tenha sido alcançada.


Em 6 de abril, a derrubada do avião do presidente Juvénal Habyarimana serviu como estopim. O genocídio se inicia. No fim do mesmo mês, Jean-Michael Marlaud, novo embaixador francês em Ruanda, sustenta a tese de que o conflito era espontâneo, e não planejado: “Enquanto a FPR tentar tomar o poder, eles (os hutus) irão reagir com massacres étnicos”.


No dia 24 de maio, o general Quesnot alerta para o perigo que a FPR representaria para a estabilidade da região, afirmando que a guerrilha seria uma espécie de “Khmer Negro”, uma referência ao Khmer Vermelho, partido sectário de esquerda do Camboja acusado de matar, entre 1974 e 1978, quando esteve no poder, cerca de 2 milhões de pessoas.


Matéria original.

0 visualização

CONHEÇA A NOSSA LIVRARIA! COMPRE OS NOSSOS TÍTULOS!