Publicações e Posts


 

Esta é a seção de Postagens e Publicações, partilhadas pelos distintos sites vinculados ao Jornal A Pátria. Para retornar a seção ou blog que estava anteriormente, basta clicar nela abaixo (ou voltar no navegador):

  • Camarada C.

O fantástico mundo do gênio italiano Federico Fellini, morto há 25 anos



Um dos cineastas mais influentes do mundo, o italiano Federico Fellini ganhou destaque na sétima arte pela poesia de seus filmes. Eternizado pelo lirismo de seus trabalhos, o diretor uniu em sua obra duas importantes correntes que impulsionaram a produção audiviovisual no pós-guerra: o neorrealismo italiano, objetivo e popular, e o cinema de temática existencial. O realizador, que morreu há 25 anos, aos 73 anos de idade, constituiu um elo entre a metafísica e a magia, a partir do fascínio pela lanterna mágica do cinema.


O jornalista e crítico italiano Indro Montanelli (1909-2001) escreveu, na época do lançamento de “A doce vida” (1960): "Estamos ante algo excepcional, não porque represente mais ou melhor o que já se fez para a tela, mas porque vai muito além, mudando todas as regras e convenções". O estilo de realismo fantástico, tão peculiar na obra de Fellini, mostrava a visão de mundo do prório cineasta, levando ao set de filmagem elementos lúdicos, até mesmos circenses, para expor a noção de sociedade do realizador, responsável por produções como "Os Boas-Vidas" (1953), "A estrada da vida" (1954), que lhe rendeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e "Amarcord" (1973).


Mentiroso, provinciano, preguiçoso, anti-intelectual. Pode-se "acusar" Fellini de tudo isto, sem ofensa. Mentia para testar suas idéias para os filmes, e, despreocupado com a erudição, confessava-se leitor preguiçoso, que preferia os jornais, a Bíblia e um ou outro filósofo. E assumia a condição de provinciano adicionado a curiosidade ao senso de maravilha do forasteiro ao ter a visão da metrópole - e logo a Cidade Eterna.


Morte após 50 anos de casamento


Fellini morreu após passar duas semanas em coma profundo, devido a um derrame. Ele faleceu um dia depois de completar 50 anos de casamento com a atriz Giulietta Masina. O corpo foi velado no estúdio cinco da mítica Cinecittá, onde Fellini filmou quase toda sua obra e onde deveria rodar seu próximo filme, "Anotações de um diretor: o ator", planejado enquanto se recuperava de um primeiro derrame sofrido em agosto. O cineasta foi enterrado em sua cidade natal, Rimini, na costa do Mar Adriático, onde ele nasceu em 20 de janeiro de 1920.


Após a notícia de sua morte, o então presidente da Itália, Oscar Luigi Scalfaro, enviou mensagem de pêsames a Giulietta Masina manifestando "o afeto de todo o povo italiano" e afirmando que a voz de Fellini "continuará repetindo na Itália e no mundo palavras de vida que não conhecem o ocaso". O diretor americano Woody Allen disse que Fellini foi o cineasta mais original de sua época. Segundo o diretor de "Noivo neurótico, noiva nervosa", para os Estados Unidos, Fellini era a própria Itália.


O cineasta estudou inicialmente em colégio religioso, onde ficou dois anos num internato. Aos 7 anos, fugiu de casa, na trilha de um pequeno circo. Aos 19, com Roma na cabeça, parou em Florença, onde se empregou como revisor e desenhista, e criou histórias em quadrinhos. Prosseguindo em caminhos que reconstituiria poeticamente no cinema, foi vendedor de diamantes fajutos, redator do "correio sentimental", de uma revista e colaborador de um semanário humorístico. Em 1940, mudou-se para Roma, onde escrevendo para o rádio conheceu a atriz principiante Giulietta Masina, com quem se uniu em 1943.


No cinema, Fellini trabalhou, no início, como roteirista de pequenos filmes. Durante a ocupação alemã, conheceu Roberto Rossellini, ainda um diretor secundário, com quem começou a trabalhar como roteirista. Naquele momento de caos na Itália, Rossellini rodava quase às escondidas, com recursos ínfimos, e criou "Roma, cidade aberta" - a "explosão" neorrealista.


Fellini chamava Rossellini de seu "mestre". Mas há motivos para crer que o discípulo foi decisivo para o sucesso do mestre. Em 1950, Fellini escreveu a história original, participou da criação do roteiro e apareceu como co-diretor de "Mulheres e luzes", de Alberto Lattuada. No retrato melancólico-humorístico de uma trupe de teatro de revista em desafortunada excursão, nasciam as raízes fellinianas e uma marcante carreira.


Fellini, como todo mundo, teve uma má fase. Em 1976, três anos depois de "Amarcord", seu sorumbático e extravagante "Casanova" foi muito mal recebido. "Ensaio de orquestra" (1978), feito para a TV, teve distribuição internacional atrasada e mambembe. Em seguida, veio "Cidade das mulheres" (1980), que foi massacrado por feministas e por críticos. Em 1983, aos 63 anos, Fellini ganhou uma popularidade nova e impressionante com "E la nave va". Este "novo" Fellini é o autor de quatro filmes do que dizem ser sua fase decadente ou pouco inspirada. Pecado. "E Ia nave va" é um impressionante trabalho de magia, e, principalmente, prestidigitação fellinianas. "Ginger e Fred" (1986) revela o velho Fellini: sábio, ranheta e nostálgico, que ataca com sarcasmo e fúria a atual TV predatória. "Entrevista" (1986) é a despedida do cineasta Federico Fellini. Um filme irregular e egocêntrico que é o último retrato do mestre e, mesmo imperfeito, tem valor inestimável. "A voz da lua" (1990), sim, é um pequeno acidente de percurso, que Fellini não teve tempo de reparar. Não realizou, por exemplo, o velho sonho de filmar "Mandrake". O mundo perdeu o encontro entre seus dois maiores mágicos da ficção, ambos ao mesmo tempo feiticeiros e ilusionistas de mafuá.


A FILMOGRAFIA DO MESTRE:


"Mulheres e luzes" ("Luci dei varietà", 1950) - co-direção com Alberto Lattuada.


"Abismo de um sonho" ("Lo Sceicco Bianco", 1952).


"Os boas-vidas" ("I vitelloni", 1953).


"U'agenzia matrimoniale", episódio do filme "Amore in città" (1953).


"Na estrada da vida" ("La strada", 1954).


"A trapaça" ("II bidone", 1955).


"As noites de Cabíria" ("Le notti di Cabiria", 1956).


"A doce vida" ("La dolce vita", 1957).


"As tentações do Dr. Antônio" ("Le tentazioni dei Doltore Antônio"), episódio do filme "Boccaccio 70" (1962).


"Fellini oito e meio" ("Oito e mezzo", 1963).


"Julieta dos Espíritos" ("Giulietta degli Spiriti", 1965).


"Tobby Dammit", episódio do filme "Histórias extraordinárias" (1968).


"Block-notes di un regista" - telefilme (1968).


"Fellini-Satyricon" (1969).


"I clowns" - telefilme (1970).


"Roma de Fellini" ("Roma", 1972).


"Amarcord" (1973).


"Casanova de Fellini" ("II Casanova di Federico Fellini", 1976).


"Ensaio de orquestra" ("Prova d'orchestra", 1978).


"Cidade das mulheres" ("La città delle donne", 1980).


"E la nave va" (1983).


"Ginger e Fred" (1986).


"Entrevista" ("Intervista", 1987).


"A voz da Lua" ("La voce delia Luna", 1990).


Matéria original, em O Globo.

9 visualizações

CONHEÇA A NOSSA LIVRARIA! COMPRE OS NOSSOS TÍTULOS!