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Publicações e Posts


 

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O inquebrável Maranhão

Este texto é o primeiro de uma série de matérias sobre a Caravana da Resistência, Partilha e Solidariedade. O Jornal A Pátria, por meio do companheiro Gustavo Guimarães, percorreu o Brasil junto com esta caravana, organizada pelo movimento maranhense Fóruns e Redes de Cidadania, conhecendo este tão importante movimento, e conhecendo mais ainda a realidade nos confins deste grande Brasil.


Este primeiro texto é uma apresentação, da qual publicaremos matérias semanais sobre a Caravana da Resistência todas as terças-feiras.

(A ilustração usada neste artigo é da querida companheira Laura Pascoal (@lauradpascoal), que nos acompanhará nessa série de publicações).
Vai nascer um novo homem de outros costumes, fazer uma orquestra com instrumentos simples, subir de degrau e degrau a caminho da justiça, sem tombar, o novo homem vai lutar pela vida enquanto vida tiver.

Há alguns dias acompanho o movimento Fóruns e Redes de Cidadania em sua revigorante caravana do norte ao sul do país. Por convite de uma das suas lideranças, me atentarei a escrever sobre os sentimentos e aprendizados oferecidos por cada parada que o ônibus faz. Ao todo, serão por volta de nove mil quilômetros de estrada, do dia 24 de junho com a previsão de voltar no dia 12 do próximo mês.


Partindo do Maranhão direto até Santa Catarina, lá faremos uma visita ao assentamento Conquista da Fronteira; no mesmo estado será feito uma celebração e um almoço coletivo com duas comunidades tradicionais indígenas; pra marcar o ponto de retorno ao nordeste faremos parte de um ato de julgamento popular sobre o caso do vereador da cidade de Chapecó que foi brutalmente assassinado; faremos duas paradas na Bahia, em visita aos Tupinambás e ao Mov. 11 de Dezembro; uma em Pernambuco em visita a área revolucionária José Ricardo; outras duas no Ceará, ao banco de sementes do seu Juvenal e o banco comunitário Palmas; e mais uma no Piauí, em visita ao Mov. Força Tarefa Popular, de onde tomaremos o rumo de volta para o estado do Maranhão.

No chão da terra insiste o pé talhado e rígido, debaixo de pernas de quem anda com medo, do busto firme, estufado e castigado – do coração humilde que celebra –, na cabeça as velhas ciências da vida, nada mais que as velhas ciências da vida.

O movimento maranhense nasce de um esforço para reorganizar os lutadores sociais em seu estado, que mastigados por decepções políticas com partidos, sindicatos, entidades da igreja e de outros tipos, tomam para si a missão de ser o ponto de mudança e resistência para a luta popular em suas comunidades. Com uma forte esperança na justiça social, o Fóruns e Redes traçou estratégias e planejamentos, metas e formação. Dos desafios acometidos teve conquistas gigantescas em trabalho de massa, atingindo de forma aguda o trabalho de base e as mudanças nas condições de vida das comunidades em que se formou seus núcleos. Atuante, reconhecido e temido pelas elites de sua terra ou que por lá chegam, completa 11 anos em 2018 com uma vivacidade de fazer inveja a qualquer um. Agrega pessoas de todas as idades, desde de recentes jovens até senhores jovens de mais tempo. Presente em diversas regiões, cidades e comunidades do Maranhão, os militantes sociais em constante expansão agora buscam compartilhar e trazer experiências de todo Brasil para levar à sua terra e acirrar ainda mais a luta engajada.

Mas vai nascer um novo homem de outras preocupações, da mais poética filosofia das pessoas simples, quantas risadas hão de dar das nossas vidas encenadas, achar graça dos incontáveis sentidos cíclicos, sentidos com desvios, com feridas ou essas coisas da vida.

Duas de suas mais importantes lideranças recebem o título de comandante, de forma espontânea e não planejada por eles. Não há uma hierarquia, e sim um respeito maior àqueles que têm mais responsabilidades. Uma delas que estava presente na caravana, na verdade, não gosta que o chamem assim. Tem uma íntima relação com quem o acompanha, conversa nas rodas de papo furado, para e acompanha as cantorias dos militantes, dança, faz piada e larga um sorriso aberto, são todos como sua própria família. Nascido em berço do campo, sem conforto ou mordomia, estudou para representar seu povo onde quase nenhuma representação há: foi juiz de direito do estado do Maranhão.


O amigo Jorge Moreno conquistou a confiança de todos ali na base das reivindicações de luta, na prática real de fiscalização, denúncia e ação. Carrega consigo as tradições de seu povo, seus costumes e maneiras. Conhece os vários pedaços de terra, as distintas comunidades, e seus problemas particulares. Uma liderança que amou tanto as pessoas que não se podia esperar de volta senão um verdadeiro amor delas a ele mesmo. Fez do povo seu reflexo, e foi reconhecido e refletido por eles. Com um jeito manso e contundente, assim como os militantes do movimento, quase posso dizer que o Fóruns e Jorge estão de jeito e maneira um do outro. Da sua luta vieram algumas consequências previsíveis, foi compulsoriamente aposentado do cargo de juiz de direito. Pobre de quem pensou que sua luta iria parar com isso.


Existe uma outra grande liderança chamada Iriomar Teixeira, advogado popular que dedica sua vida inteiramente a defender na justiça ou na marra os mais humildes. Não tive muito contato com ele, o que é uma pena. Do pouco que o ouvi, foi poderoso e inspirador. Seu discurso na confraternização de despedida da caravana, ainda no Maranhão, demonstrou um grande amor em suas palavras, na sua relação com a comunidade. Do pouco que eu sei sobre ele foi de ouvir falar, não que ninguém tivesse perguntado, mas as pessoas sentiam um prazer e um carinho tão grande ao mencionar o companheiro que eu acredito que não há fonte melhor para se entender quem ele é. Iriomar tem sido perseguido por poderosos detentores de terra no Maranhão, recebeu seis processos para lhe retirar a carteira da OAB. De uma breve conversa que tiver com ele, para o militante não importa a carteira de advogado: ela é apenas um instrumento entre tantos outros para ajudar seu povo, é seu povo aquilo que realmente importa.


Todo o custo da viagem foi arrecadado pelo próprio movimento. Entre outras formas criativas, seja vendendo rifas, frangos, frutas e verduras, ou até tirando do próprio salário. As formas de autofinanciamento foram realizadas com esforço e dedicação, algo que eles sentem muito orgulho. Assim é feito com o movimento, assim foi com a caravana. A diversidade de representações foi muito refletida no tempo de um ano de preparação e seleção para estarem aqui. De jovens a veteranos, tem lavrador, pescador, catador de coco, professor, estudante, enfim, de quase tudo.


Dos ganhos políticos e sociais do movimento existem muitos, foram através destes que o movimento conseguiu uma capilaridade tão grande entre o povo maranhense. Apesar de pouco conhecido fora de suas terras, ele conseguiu abarcar diversos militantes das comunidades interioranas. Tem gente de diversas referências e inspirações para lutar: o que os une, acima de tudo, é o sentimento de querer a mudança da realidade de oprimidos e explorados pelo latifúndio e elites locais. Foram ganhos em obras públicas, cursos de formação cidadã, seis anos de curso de formação de lideranças sociais, fizeram até candidatos a prefeituras e governanças assinarem cartas de compromisso com o povo: deixando a população tão mobilizada que muita gente não conseguiu se eleger porque não assinou a bendita carta. Isso ainda é pouco: fizeram desde a última década a pioneira e antecipadora luta que hoje toma destaque no cenário nacional, a luta diante do judiciário, com os Tribunais Populares do Judiciário. Espalhando essa tática-prática para muitos outros estados. Entre auditorias populares em prefeituras e marchas contra a corrupção que chegou a colocar mais de dez mil pessoas nas ruas da capital São Luís, ainda retomaram quatro grandes áreas na cidade de Santa Maria, derrubaram com facão e martelo mais de cinquenta quilômetros de cercas em Anajatuba e Arari. Para não me alongar muito, devo parar por aqui. Mas o movimento é um exemplo de casamento perfeito entre a teoria e a prática.


O estado do Maranhão foi abandonado às oligarquias. É um estado economicamente pobre, violento, que age violentamente através da negação das políticas públicas mais básicas, como negar a água, a luz, ter uma casa ou até mesmo um trabalho digno. O governo Lula foi visto como um vislumbre daquilo que poderiam ser, distribuição de renda, programas governamentais diretos aos mais humildes – mais investimentos e prosperidade. Foi um pequeno ganho social e econômico, confessam, de uma grande decepção política: basta imaginar a cena do ex-presidente apertando as mãos do José Sarney, e lembrar que só visitou o estado uma vez nos oito anos de mandato.


Roseana Sarney e sua turma controlou o governo estadual com mãos pesadas durante mais de uma década, até quando parecia haver uma mudança através das eleições, em um golpe jurídico que todos pensaram como impossível ela e sua família retornaram ao trono com o apoio da coligação nacional do próprio PT.


Os ventos da mudança trouxeram uma nova perspectiva para o povo maranhense, estavam todos tão exaustos com a oligarquia do Sarney que exigiam algo novo. Seja para o que fosse, o peso da história cobrara uma ruptura. Sem adversário, ela veio com um governo do PCdoB, para o espanto e ânimo do resto do país, para o sentimento de que agora as coisas iriam dar certo para aquele paupérrimo pedaço de terra, estavam todos confiantes nisso, estavam todos assistindo e lendo as fortes propagandas do novo governo carcomido maranhense. Flávio Dino não entra ao executivo do estado depois de um sentimento de confiança e conquista desse povo, ele aproveita um vácuo de poder e se instala como uma continuação daquelas mesmas políticas públicas, agora com um forte investimento na propaganda a nível nacional e nenhum contato com os movimentos de fato sociais.


Ora, se o Maranhão tem o melhor piso salarial de professores do Brasil: lhe faltam escolas e contratos para professores. Seguiu um caminho já conhecido a nível nacional: a aliança com setores de centro e direita. Apenas com um parêntese, no Maranhão ele foi além do próprio sarneysismo e realizou alianças com setores tão atrasados e violentos que o próprio Sarney cerrava uma linha de limite entre eles. Grilagem de terra, roubo de carga, assassinato de lavrador, coronel latifundiário, é esse tipo de gente que ele se juntou.

Foi no meio da madrugada que um velho no seu barco de pesca viu na praia sem acreditar um enorme leão dourado lhe encarando; que nem olhar para as estrelas e ser reconhecido; foi um coronel deitado na rede momentos depois de ter atirado em seu próprio coração e errado; um desvairado que se jogou ao mar para achar a ilha desconhecida – e morreu sem encontrar. Muitos morreram sem se encontrar.

A caravana da resistência, partilha e solidariedade do Fóruns e Redes de Cidadania é uma forma de energizar ainda mais os militantes sociais maranhenses. Foram escolhidos a dedo 47 lideranças, de 16 cidades e mais de 20 comunidades, para fazer esse percurso e voltar para suas terras com mais força e experiências práticas de luta. Desde entender melhor a opressão que o sistema judiciário incorre sob os mais humildes, a favor dos latifundiários e de elites locais; indo a assentamentos para ver e atestar o funcionamento de um uso da terra coletivo e cooperativo; se aproximar da questão indígena e quilombola e sua luta pela demarcação de sua região originária; pegar as experiências de organização social de quem usou com criatividade a questão da cidadania; compartilhar forças entre os oprimidos e negados da própria terra, e ver as diversas formas de resistência e ação destes... Não há como listar todo o aprendizado que irá ser absorvido durante a caravana.

Correm ao destino de Salomão, caminhante dos fins, nunca descansarão até ver o novo. São os filhos de Adão, de olhar triste e pensar em voltar ao Éden. Quando ele nascer, vai brilhar com a intensidade de mil sóis.

O cansaço natural de uma viagem tão longa é esperado. Mas esse movimento tem uma mística diferente, é gente que não se abate e sabe das dificuldades que certamente vão ter e recebem cada uma delas como algo a superar. Não param de organizar diferentes dinâmicas de coletividade no grupo, não deixam passar o dia sem pedir uma avaliação individual e coletiva de cada um. A importância de um conhecer o outro como seu próprio irmão é levada a devida importância pela coordenação. Brincam, riem, cantam e dançam onde chegam, como quem está no quintal de casa confraternizando com velhos amigos. São organizados, disciplinados e não perdem a ternura. Um sanfoneiro, dois no pandeiro, uma no batuque e outro no triângulo: está feita a festa. A alegria de querer mudar as coisas e amá-las tão intensamente que se negam a acreditar que existe outro caminho a não ser a vitória, não, não, não existe. Conhecendo essas pessoas é impossível acreditar que há outro caminho a não ser a vitória.


O novo homem é inquebrável.


Santa Catarina, junho de 2018, Gustavo Guimarães



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