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O julgamento que mudou a China



Nesta quinta-feira (9), o julgamento de Gu Kailai, a esposa do líder político expurgado Bo Xilai acusada do assassinato do britânico Neil Heywood, evocou comparações na mídia estrangeira com outro caso notório: o de Jiang Qing, a poderosa terceira esposa de Mao Zedong, condenada em 1981 por crimes praticados durante a Revolução Cultural (1966-76).


É claro que há pontos em comum entre os julgamentos de Jiang Qing (1914-1991) e Gu Kailai. Ambos eram frutos de disputas políticas na alta cúpula do Partido Comunista chinês (PC) e envolveram mulheres de destaque da elite chinesa. Jiang ganhou notoriedade como líder de uma facção radical do PC que detinha enorme poder durante a Revolução Cultural (1966-1976). Gu, uma advogada famosa, é casada com Bo Xilai, o carismático, mas controverso líder político que estava cotado para se tornar uma das principais lideranças do PC até ser envolvido num escândalo de corrupção e homicídio no início deste ano.


Apesar das comparações entre Jiang Qing e Gu Kailai, não enxergo grandes semelhanças entre os dois casos. O julgamento de Gu durou apenas sete horas e não despertou muito interesse entre chineses, que preferiam direcionar as suas atenções aos Jogos Olímpicos. Em contrapartida, o de Jiang se arrastou por seis semanas e atraiu os holofotes da mídia estatal. Todas as noites, os chineses assistiam atentamente às imagens do julgamento na televisão.


O julgamento de Gu Kailai carece do simbolismo político e social que marcou o de Jiang Qing. Para os chineses, assistir a Jiang desfilar no tribunal de algemas e ser julgada por crimes praticados durante a Revolução Cultural marcou uma transição para um novo capítulo da história do país.


“Quando vi Jiang Qing na televisão, algemada, pela primeira vez em anos senti que a minha vida iria melhorar”, me disse um professor da Universidade de Pequim. “Se ela não tivesse sido condenada, talvez nunca teríamos deixado para trás o radicalismo política do final da era maoísta, e a China certamente não teria se desenvolvido economicamente.”


Não é exagero afirmar que, naquela época, Jiang Qing era a mulher mais odiada do país. Ela personificava todos os excessos ocorridos durante a Revolução Cultural. Um mês após a morte de Mao Zedong, em 1976, Jiang e seus aliados mais próximos foram presos, numa tentativa do novo líder chinês Hua Guofeng de erradicar a facção extremista do PC. Nos meses que se seguiram, o governo orquestrou uma intensa campanha na mídia estatal contra Jiang Qing e os seus colaboradores mais próximos: Zhang Chunqiao, Yao Wenyuan e Wang Hongwen. Eles passaram a ser rotulados de “Bando dos Quatro” e foram culpados por instigar a violência naquela época. A imprensa chinesa também chegou a publicar as acusações que pesavam contra Jiang e os seus comparsas: a perseguição de 727.420 chineses durante a Revolução Cultural, que resultou na morte de 34.274, entre os quais o então presidente Liu Shaoqi.


O julgamento do Bando dos Quatro se transformou num espetáculo político. Diante de 35 juízes e 880 pessoas que lotaram o tribunal, Jiang atraía os holofotes, frequentemente interrompendo os promotores para rebater as acusações. Em um determinado momento, ela gritava sem parar e teve de ser retirada à força do tribunal. Enquanto seus aliados Yao Wenyuan e Wang Hongwen expressaram arrependimento pelos seus crimes, ela se recusava a admitir qualquer culpa. Em sua defesa, dizia que apenas cumpria ordens: “Eu era o cachorro do Mao. Eu mordia qualquer um que ele me pedia para morder.” Ao término do julgamento, em janeiro de 1981, ela acabou condenada à morte, mas teve a pena comutada em prisão perpétua. Ela cometeu suicídio em 1991.


O desfecho jurídico do julgamento de Jiang já era conhecido mesmo antes de seu início. Segundo o advogado Zhang Sizhi, que na época fora designado para defender Jiang Qing, a sua pena havia sido decidida pela alta cúpula do PC. “[O líder chinês] Deng Xiaoping a queria morta,” disse Zhang recentemente a uma rede de televisão canadense (a facção liderada por Jiang havia sido responsável pelo expurgo de Deng pouco antes da morte de Mao Zedong. Após a prisão do Bando dos Quatro, Deng acabou sendo reabilitado e tomou rédeas do poder em 1978).


Deng Xiaoping e os demais líderes estavam mais interessados no significado do julgamento entre a população do que em seu desfecho jurídico. A campanha contra Jiang na mídia estatal e, principalmente, as cenas do julgamento no noticiário noturno tinham como propósito proporcionar às vítimas da Revolução Cultural uma sensação de que os responsáveis pelos crimes cometidos seriam punidos pela justiça. A liderança do PC pretendia atenuar o trauma coletivo e, ao mesmo tempo, moldar uma narrativa oficial dos acontecimentos daquela época que evitasse manchar a biografia de Mao Zedong. Por este motivo era necessário jogar toda a culpa em Jiang e demais membros do Bando dos Quatro. A Revolução Cultural havia abalado a confiança da população no PC e na ideologia socialista. Para o governo chinês, condenar Jiang e seus aliados seria uma forma de recuperar a sua imagem perante os seus cidadãos.


Por esses motivos, o julgamento de Jiang Qing marcou uma geração de chineses. O caso de Gu Kailai não possui o mesmo peso. Entretanto o seu desfecho irá permitir entender um pouco melhor a atual disputa entre as diversas facções políticas, principalmente num ano de renovação da alta cúpula do PC.


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