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  • Camarada C.

O populismo cambial é antigo



O populismo cambial de Fernando Henrique Cardoso e Gustavo Franco é menos original no Brasil do que eles poderiam imaginar. Valorizar o câmbio para ganhar votos e desvalorizar o câmbio depois da eleição tem sido a regra nos últimos 40 anos.


A constatação é de um trabalho muito interessante de dois professores da Fundação Getúlio Vargas do Rio, Maria Cristina Terra e Marco Bonomo. Eles examinaram o comportamento do câmbio antes e depois de eleições realizadas de 1964 até 1997. Confirmaram o que outros trabalhos constataram em outros países latino-americanos: os políticos, em regimes democráticos, são tentados a ganhar simpatia valorizando o câmbio antes das eleições e acabam tendo que pagar a conta, com desvalorizações, depois das eleições.


É fácil entender a razão. A valorização do câmbio, como aconteceu no primeiro mandato de FHC, reduz o custo dos produtos importados e leva a um déficit nas contas externas. Isso quer dizer que o país aumenta sua capacidade de consumo à custa de mais endividamento. É bom enquanto dura.


É claro que, se as tarifas são baixas e o comércio é aberto, o benefício atinge uma camada maior da população. O ganho, de todo modo, sempre existe.


O desequilíbrio externo, contudo, acaba obrigando o país a se ajustar. Por essa razão, depois das eleições, a tendência é haver desvalorização ou aceleração da desvalorização. Dois grupos saem ganhando: os exportadores e os que estão ligados a setores que produzem para exportação. É, contudo, um grupo muito menor de beneficiados. Ao gerar superávits comerciais, a desvalorização reduz o consumo global. Além disso, a desvalorização representa uma redução no valor dos salários reais. O balanço para a popularidade dos políticos é negativo.


O trabalho classifica os políticos que valorizam o câmbio como mais preocupados com a inflação, pelos efeitos benéficos que essa política tem sobre os preços. Já os políticos que desvalorizam são classificados como preocupados com o balanço de pagamentos.


Mesmo os políticos preocupados com o balanço de pagamentos, no entanto, tendem a se comportar como se seu foco fosse apenas a inflação, antes das eleições, como uma forma de ampliar seu apoio popular.


É claro que os políticos, se pudessem, privilegiariam sempre a inflação baixa e o câmbio valorizado. O problema é que os governantes só conseguem afetar o valor do câmbio real a curto prazo. A longo prazo, o câmbio só se valoriza se isso se justificar por ganhos econômicos permanentes. E esses ganhos são muito menos frequentes do que costumam alegar os governos para justificar suas políticas de valorização cambial.


No México, a "maldição do câmbio" é famosa. Desde os anos 70, o câmbio tende a se valorizar nos seis anos de mandato, até as eleições, que são seguidas por crises cambiais. A eleição de domingo deve ser a primeira exceção relevante à regra.


No Brasil, a percepção de que o câmbio segue um ciclo eleitoral é menor, mas os resultados da pesquisa são inequívocos. Eles definiram primeiro o que seria um "câmbio de equilíbrio", ou seja, a taxa de câmbio compatível com o funcionamento da economia com equilíbrio interno e externo. Usaram um modelo criado pelos economistas Ilan Goldfajn e Rodrigo Valdés. O câmbio de equilíbrio é calculado a partir de uma cesta ponderada de moedas de parceiros e funciona como uma regressão que leva em conta alguns fundamentos que alteram seu valor, como os termos de troca, os gastos do governo e o grau de abertura.


Por essa razão, embora o sistema de minidesvalorizações tenha mantido o câmbio real (deflacionado) mais ou menos constante de 68 a 79, o câmbio de equilíbrio mudou. Depois do choque do petróleo, como o governo decidiu não desvalorizar para ajustar, o câmbio de equilíbrio sofreu, na prática, uma valorização.


De 64 a 97, o Brasil passou por vários regimes cambiais, inúmeras políticas econômicas e choques. Passou, ainda, por um longo período autoritário. O trabalho constatou que no período democrático e no início do período autoritário (quando ainda havia dúvidas se o regime militar se prolongaria), os oito a dez meses que antecederam eleições importantes são de valorização cambial ou de redução na desvalorização. Os 12 meses seguintes a essas eleições são períodos de maior desvalorização cambial.


As razões que levam o câmbio real a estar desalinhado em relação ao que seria o câmbio de equilíbrio podem também ser econômicas. Os meses que antecederam a eleição de Fernando Collor, por exemplo, foram de altíssima inflação, e a forte valorização ocorrida refletiu, em parte, a tentativa de evitar uma hiperinflação descontrolada. O importante, contudo, é que, independentemente dos fatores econômicos e dos regimes cambiais, a correlação entre valorização cambial antes das eleições e desvalorização depois é fortíssima, em termos estatísticos. O populismo cambial tem raízes antigas.


Matéria original.

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