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O PT é a esquerda que a direita gosta (por Leonel Brizola)

Atualizado: 23 de Fev de 2019

Como a direita gosta


Há tempos, nesta Folha, procurei analisar onde estavam, em nosso país, direita e esquerda –estes conceitos que, apesar das afetações dos intelectuais neoliberais, continuam dividindo as águas da vida política.

Restou-nos, naquela ocasião, expor as razões que nos levam a excluir o PT do campo da esquerda. Diga-se logo que não julgamos assim a maioria das bases, militantes e simpatizantes, mas as cúpulas dirigentes e aparelhos, responsáveis pelo que, de fato, representa o PT na política brasileira.


Diz o professor Darcy Ribeiro que o PT é a esquerda que a direita gosta. Longe de ser um simples jogo de palavras, a afirmação de Darcy traz uma lógica flagrante para quem se disponha a observar o comportamento do conservadorismo e de sua poderosa mídia frente ao petismo, desde sua criação.


Mas vamos aos fatos e às inequívocas conclusões. Ninguém pode negar o caráter autêntico, democrático e popular dos movimentos grevistas do ABC, dos quais surgiram Lula e alguns dos fundadores do PT. O ABC –como, dez anos antes, as greves de Osasco, lideradas por José Ibrahim– foi uma das mais importantes contestações à ditadura, cujos ideólogos, daqui e do exterior, como Golbery e outros, logo passaram a recolher preciosos ensinamentos.


Desde aqueles primeiros momentos, formou-se uma espécie de redomoinho à volta dos sindicalistas.


A eles juntaram-se intelectuais e grupos religiosos (a teologia da libertação) que, progressivamente, foram emprestando ao conjunto uma orientação elitista e pretensiosa, ao mesmo tempo em que revestiam de sofisticações a imagem do movimento e iniciavam o que seria um processo de tutela ideológica sobre aqueles trabalhadores.


Tudo regado pela mídia e generosos patrocínios, daqui e do estrangeiro. Em plena ditadura, quando falar em Brizola, desterrado, dava censura ou cadeia, Lula era capa de revista...


Nós, que voltávamos do exílio, víamos com esperança e admiração o que se passava no ABC. Para nós, a resistência dos trabalhadores e o surgimento de lideranças eram sinais de que o trabalhismo, este grande movimento popular e nacional contra o qual se fez 64, estava vivo nos sentimentos e na consciência de nosso povo.


Nada poderia nos surpreender mais, portanto, que a atitude hostil e presunçosa com que passou a se comportar a cúpula do que viria a ser o PT. Renegavam as lutas sociais do passado ("populismo, pelegos do Ministério do Trabalho etc. etc."), pretendendo que começasse ali e com eles o movimento das forças do trabalho no Brasil, como quem tenta cortar com uma tesoura o fio da história.


A princípio, nossa reação foi de tolerância e compreensão. Imaturidade política, julgávamos, simples infantilismo... Em nossa boa-fé, ignorávamos as evidências de que o PT era um instrumento em processo de montagem, uma peça à qual o sistema destinara um papel na chamada abertura: o de impedir, pela divisão e pelo confusionismo, o ressurgimento do trabalhismo que, desde 64, quis extirpar da cena política e social.


Como na manutenção, por parte do conservadorismo, da geleia geral do velho MDB e na usurpação da sigla PTB, todo estratagema valia para evitar que o povo trabalhador reencontrasse a força histórica e a coerência do trabalhismo.


Assim, seguimos nós em nossa ingênua credulidade. Superamos incompreensões, sabotagens, arrogância e até ofensas pessoais, sempre com esperança de reunirmo-nos todos num grande movimento pela redenção de nosso povo, para derrubar o modelo econômico colonial que nos impuseram desde a 2ª Guerra, pela recuperação de nossa soberania, pelas reformas profundas que a nação precisa para voltar a sonhar com um futuro digno. Repetíamos, candidamente, que eram nossos primos-irmãos, de calças curtas, com suas tolices, mas, no fundo, membros de nossa família popular e socialista.


Hoje, quem observa as contorções do PT entre suas origens históricas e sua ânsia de integrar-se e servir ao mundo das elites, vê um exemplo de como o tempo e o processo social dissolvem tudo o que não é intrinsecamente coerente. Basta notar como vacila o PT na defesa da escola pública e gratuita, na preservação do patrimônio público representado pelas empresas estatais estratégicas, o seu subalternismo frente à questão do monopólio dos meios de comunicação e tantas outras. Ou o que fez seu braço sindical, a CUT, destruindo o sindicalismo brasileiro, hoje mais desprestigiado do que nunca.


A prova cabal, capaz de convencer aos mais incrédulos, foi a adesão em massa da cúpula petista à manobra parlamentarista da direita, que a própria base do PT repudiou e a população acabou por esmagar nas urnas do plebiscito.


Felizmente, estamos diante de um projeto que se desenvolveu, mas, a esta altura, se esgota historicamente. As próximas eleições serão o grande divisor de águas. As cúpulas dirigentes do PT são formadas por uma espécie de pequena burguesia radicalizada. Daí vem seu grande apoio nos bairros de alto padrão das grandes cidades.


Sua missão divisionista está se esgotando. O povo brasileiro irá demonstrar, em 3 de outubro, estar consciente de que só a força de sua união poderá reverter este quadro de crise e sofrimento que recai sobre ele. 


Texto escrito por Leonel Brizola em, 27 de fevereiro de 1994 para a Folha de São Paulo

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