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O reforço de uma cultura misógina & mulheres que não deixam os maridos

Na mesma semana, duas notícias viralizaram: uma sobre uma mulher que sofreu uma tentativa de homicídio e estava presente no julgamento desse crime – pasmem – beijando o rapaz, e outra sobre uma jovem que foi assediada num ônibus, tendo o vídeo publicado em um site pornográfico de grande alcance.

Num país onde uma mulher é agredida a cada 4 minutos, notícias como essas não estão longe de acabar. Há poucos dias, voltando do trabalho, ouvi um rapaz conversar com o amigo sobre estar afim de terminar o relacionamento porque a mulher em questão tinha muitas estrias na barriga. Outro dia, estive conversando com uma conhecida na parada de ônibus e ela desabafou que os melhores dias da semana era quando o marido não estava em casa, porque ele não iria insistir por sexo e ela poderia dormir à vontade.


Foi pensando nessas questões que eu sentei para fazer este breve texto.


A condição de classe das mulheres vai dizer a forma em que elas irão vivenciar as diferentes violências que o patriarcado nos traz. Por isso, quero falar sobre como essa nova dinâmica do capitalismo, o neoliberalismo, afeta as mulheres trabalhadoras. Além de trazer algumas reflexões sobre as ferramentas que podemos usar para trilhar um futuro diferente da barbárie em que vivemos hoje.


O neoliberalismo é uma nova forma de organização do Capital, um conjunto de políticas econômicas que esmaga os trabalhadores para extrair volume de dinheiro direto para a mão dos capitalistas. Em outras palavras, preconiza a financeirização da economia, através do argumento do Estado mínimo e liberdade econômica máxima. Na prática é a austeridade para os trabalhadores, que perdem a dimensão pública do Estado, e advém os lucros máximos para os bancos, através da Dívida Pública e altas taxas de juros.


Com a deterioração do padrão de vida da classe trabalhadora, diversos problemas já existentes se acentuam uma vez que a alteração na organização da economia traz modificações nas relações sociais. Um deles é a violência contra as mulheres.


Ainda que não intencional, os problemas causados pelo aumento da desigualdade de renda e da pobreza aumentam em tempos de crise do capitalismo. A contradição entre o desejo dos capitalistas de ampliarem seus lucros e o dos trabalhadores em terem dignidade de vida é a principal contradição em nossa sociedade. Só que, nessa luta, os capitalistas não estão nem aí para os efeitos que a busca por seus lucros possa causar. Por mais que pareça óbvio, acho válido ressaltar esse ponto já que no movimento de mulheres – e de demais minorias – há, muitas vezes, análises puramente empiristas, sem método, que levam a acreditar (e geralmente os mesmos acreditam) que violências, sejam elas físicas, simbólicas, etc., são causadas de forma intencional pela classe dominante, ou elite, ou seja lá quem for.


Entretanto, é algo bem pior do que só intencional.


É uma organização econômica que é insustentável para o planeta porque não há qualquer planejamento sobre seus objetivos. É a ampliação do Capital e só. Não há qualquer compromisso ético com a vida das populações, com os animais, com os mares, as florestas. Com nada. Antes fosse meramente intencional, porque se apenas esta fosse a questão uma política efetiva de conscientização bastaria para a resolução do problema.


Pois bem, o colapso do capitalismo faz com que haja reestruturações, seja através de políticas de austeridade, aumentando a superexploração da força de trabalho, seja através da ideologia, reforçando preconceitos, crenças e tradições que se adequam as necessidades econômicas da crise.


O patriarcado se adapta ao capitalismo com os estereótipos de gênero que se adequam ao trabalho reprodutivo, aqui entendido não só com os afazeres domésticos que as mulheres majoritariamente fazem, mas a tudo que eleve a qualidade de vida dos trabalhadores, como lazer, educação, serviços públicos, etc. No neoliberalismo, o Estado não tem o papel de garantidor do bem comum. Desta forma, o que antes era trabalho da assistência social, saúde, entre outros, passa a ser jogado nas costas das mulheres, que precisam dar conta do cuidado com toda a família.


O papel atribuído a mulher na sociedade capitalista é reforçado o tempo inteiro com imagens de mulheres de forma padronizada. O reforço de um padrão, seja de comportamento, de beleza, de vida, imposto as mulheres, joga também pra elas a responsabilidade da falha desse padrão.


O curioso aqui é que, entre os trabalhadores, vem aumentando o número de homens que fazem os trabalhos domésticos. Ou seja, a imagem ideal que a ideologia dominante mostra como absoluto representa uma parcela ínfima da população, porque a parcela mais numerosa precisa aprender a cozinha desde cedo, afinal não tem quem faça já que as mães desde sempre precisam sair muito cedo para trabalhar e trazer o sustento da casa.


Se, em uma época, as ideias dominantes representam as ideias da classe dominante, e o cotidiano nos mostra que os papeis que se impõe às mulheres não representam a pluralidade de mulheres que existem no mundo, nos resta nos perguntar se a emancipação feminina é possível num sistema onde quem manda não faz ideia do estrago que faz na vida das pessoas.


Ana Carolina

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