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Os Estados Unidos e a ordem mundial.


Fonte: Andrew Angerer, 2021.


Texto por: Guilherme Melo.


Os Estados Unidos da América são o primeiro país da história a envolver os outros, numa ordem mundial, de acordo com os seus interesses internos e com uma lógica universal de relações humanas e entre Estados, nem sequer a Pax Britânica teve este fundo social por detrás de seus objetivos comerciais.


Inspirados pelo Destino Manifesto, a lógica segundo a qual, este seria o país dos eleitos, que respondiam a uma mística inerente a uma visão cósmica de hierarquia antropológica, cujo o povo norte-americano encontrava-se em primeiro lugar, eram os puros.

Segundo este espírito, logo ao início do século XIX, os Estados Unidos começam a ocupar e se expandir pelo continente americano, afirmando não ter pretensões comerciais ou imperialistas, mas que visava apenas o equilíbrio da ordem continental, expulsando assim, o último resquício colonial das Américas, com as guerras hispano-americanas (1898).


A Guerra Hispano-Americana foi resultado da intervenção estadunidense na Guerra de Independência de Cuba, os ataques americanos às poses ultramarinas da Espanha levou em resultado esta guerra, o continente precisava está livre da influência europeia, para que os Estados Unidos da América, pudesse alçar conquistas sobre as nações vizinhas.


Nenhum país desempenhou papel tão decisivo na formação da ordem mundial contemporânea como os Estados Unidos, nem manifestou tamanha ambivalência a respeito da sua participação nesse processo. Imbuído de convicção de que o curso que tomasse acabaria por moldar o destino da humanidade, os Estados Unidos, ao longo de sua história, tem desempenhado um papel paradoxal na ordem mundial: se expandiu através do continente alegando um Destino Manifesto enquanto negava solenemente quaisquer propósitos imperialistas; exerceu influência fundamental em importantes episódios da história ao mesmo tempo que negava qualquer intenção de pôr em prática uma política de poder. (KISSINGER, 2015, p.163)


Os Estados Unidos, para além da filosofia religiosa do puritanismo, que fundamentava o destino manifesto, a nível político, começa a desenhar mais claramente suas doutrinas de geopolítica, a partir de James Monroe, presidente dos Estados Unidos entre 1817 e 1825, em 2 de dezembro de 1823, ele manda mensagem ao Congresso onde declara que os Estados Unidos não intervirá em conflitos relacionados aos países europeus.


Posturas e concepções presentes nos movimentos religiosos, como a ideia de que existem povos escolhidos e abençoados por deus, passariam a povoar o imaginário coletivo da nação que se acreditava eleita para um destino glorioso. A fé nas instituições livres e democráticas também se intensificava.” (KARNAL, 2012, p.148)


Havia algo de singular nos Estados Unidos, diferentemente da Europa, que enxergava no novo mundo, possessões coloniais para fomentação de empresas coloniais, com o objetivo de explorar riqueza, envolvendo mão de obra, na forma da escravidão e dos bens primários, os Estados Unidos se formou como uma nação, cuja a liberdade foi o seu mito fundador.


Era um condição ímpar do seu período, pois não podia ser concebida uma colônia de exploração, foi uma colônia de povoamento de ingleses que fugiam da perseguição anglicana e da expulsão das terras, com base na lei dos cercamentos, a dissolução dos pastos comuns dos senhores e servos, fruto da relação feudal-vassálica, em razão da Revolução Industrial.


Outro condicionante interno é o fato da diversidade de origem dos colonos, Edmund Burke, no parlamento britânico em uma discussão sobre os Estados Unidos, argumentou que a única caracterização que podia ser feita aos americanos naquele contexto era o da liberdade, pois diferentes povos convivendo um com outro, teriam que ter um mínimo de tolerância para que a sociedade não se desintegrasse.


A convivência das comunidades coloniais, sobretudo de origem europeia, que desenvolveram um sentimento de dupla nacionalidade, como os ítalo-americanos, judeus americanos, irlandeses, alemães, polacos, comumente servido como adjetivo pátrio, presente no cinema de Hollywood.


O pragmatismo, advindo de um povo que precisava regulamentar essas relações étnico-raciais, sem sobretudo privar essas comunidades de liberdade, criou noções ético-morais sobre o direito, a política, não só doméstica, mas internacional, as condições internas e a crença no destino manifesto desenvolveu um senso de aprovação e desaprovação de prática dos outros governos.


A abertura da cultura americana e de seus princípios democráticos fez dos Estados Unidos um modelo e um refúgio para milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, a convicção de que os princípios americanos são universais introduziu um elemento de desafio ao sistema internacional porque implica o fato de que governos que não os pratiquem não seriam plenamente legítimos. (KISSINGER, 2015 p.164)


Thomas Jefferson, terceiro presidente americano, via os Estados Unidos não somente como uma nação jovem, mas como um império da liberdade, um país que deveria espelhar e exigir práticas de boa governança para o mundo todo, havia uma forte influência iluminista, dos direitos naturais do homem, presentes nas filosofias de John Locke e Jean-Jacques Rousseau.

Ao mesmo tempo que nos Estados Unidos desenvolviam-se um entusiasmo do futuro do país nas relações internacionais, na condição de representante da nação entre outros Estados, havia também, o desenvolvimento de ceticismo em relação a esse mesmo envolvimento, pois a posição geográfica dos Estados Unidos, criavam condicionantes naturais para tal pensamento.


Protegidos por dois oceanos, um extenso território, a política externa era algo opcional, poderia ser tratada preventivamente, em último caso, a força, por isso, nesta mesma sociedade é possível surgir nomes como Thomas Jefferson e James Monroe, um mais internacionalista e outro isolacionista.


Apesar dessas ambições cada vez maiores, a situação geográfica favorável dos Estados Unidos, assim como seus vastos recursos, facilitou a percepção de que a política externa era uma atividade opcional. Sentindo-se seguros atrás de dois grandes oceanos, os Estados Unidos se encontravam numa posição que lhes permitia tratar a política externa como uma série de desafios eventuais e não como um empreendimento permanente. (Ibid, 2015 p.165)


Os Estados Unidos no mundo e com o mundo


Os fundadores dos Estados Unidos tinham consciência, uma vez o Estado formado, ele entra em relação com o mundo, foi feita uma aliança com a França em razão da guerra de independência contra a Grã-Bretanha, desfeita logo em seguida, em razão da França ter começado sua revolução e por consequência, ter entrado em guerra com o continente europeu.


Neste episódio se desenhou o pragmatismo americano nas relações internacionais, distinto do maquiavelismo desenvolvido pelos Estados europeus, reflexo da Guerra dos 30 anos, onde a moralidade e a política foram consideradas separadas, uma vez que religião e política não conseguiram unir o continente, mas o fragmentar sem precedentes.


George Washington, em 1796, no seu último discurso como presidente aconselhou os Estados Unidos não confiarem em alianças permanentes, somente em aliados passageiros, devido ao mudar das circunstâncias, não se envolverem a assuntos que não digam respeito diretamente à segurança dos Estados Unidos, pois isto colocaria a própria segurança dos Estados Unidos, em risco.


A estratégia de isolamento dos Estados Unidos foi mantida por um século, até 1812, na última guerra com a Grã-Bretanha, até esse momento havia um desinteresse para os seus assuntos além da fronteira, o país tinha se constituído como um sistema de confederação de Estados, cujo tamanho e poder se davam por origens internas.


Além de elementos doutrinários, a expansão ao oeste em 1845 provocou efeitos práticos da noção de direito manifesto, o país se envolveu em uma disputa com a Grã-Bretanha como o território do Oregon e com o México, por conta da República do Texas, que havia se separado do México.



Imagem 02: Mapa de Oregon.

Fonte: World Atlas, 2021


Os eventos aqui descritos mostraram um desenvolvimento sincrônico da história dos Estados Unidos, o país não era mais uma República juvenil e seus fundadores, idealistas, o país ganhou notabilidade no cenário geopolítico, seja por vencer a maior potência da época, a Grã-Bretanha ou por ser a senhora da situação dentro do seu próprio subcontinente, quando decidiu o Texas com o México.


Comparando o Estado com um ser vivo, Kjellén multiplicou–se numa série de analogias: o território seria o corpo, a capital representaria o coração e os pulmões, as vias de transporte corresponderiam às artérias e às veias, os centros de produção seriam as mãos e os pés. Segundo ele, o verdadeiro poderio do Estado resulta da existência de três condições essenciais: a) grande espaço; b) ampla liberdade de movimentos; c) perfeita coesão interna. (AZEVEDO, 2001, P.45)


Os Estados Unidos foi um exemplo prático deste tipo ideal do Estado como um ser vivo, desenvolvido por Rudolf Kjellén (1864-1922), fundador da geopolítica.


Conclusão


Graças a uma geografia peculiar e a um sistema confederado de estados, com legislações e impostos próprios, os Estados Unidos puderam desenvolver uma determinada autonomia econômica com uma espécie de exportação entre os estados de bens agrícolas e industriais.

Esse fenômeno foi mitigado a partir dos anos 1980 com a ascensão do toyotismo, que fragmentou a produção industrial de acordo com fatores espaciais de produção, levando em conta o máximo do princípio da vantagem comparativa de David Ricardo, quando um mesmo produto industrial, teria a depender da fonte primária, parte de sua produção descentralizada em mais de uma fábrica.


Ademais, condições institucionais causadas pelos fenômenos migratórios, que exigiam uma convivência pacífica, testada, sobretudo na guerra civil e que tem os seus desafios cristalizados contemporaneamente, os Estados Unidos conseguiram organizar um território vasto, pluriétnico, com tensões ainda presentes, mas que não permitiram a fragmentação do seu território.


A condição de destino manifesto causada pela religião puritana, permitiu utilizar deste princípio lógico uma fundamentação moral da sua política externa, negando a prestação de contas de suas ações perante o mundo, ao mundo caberia apenas aceitar a marcha do progresso estadunidense, salva as peculiaridades de cada circunstância específica da história universal, os Estados Unidos se envolve nela de acordo com as categorias organizativas da sua sociedade, aqui já apresentada.


Referências


AZEVEDO, Aroldo. Geografia a serviço da política. In Boletim Paulista de Geografia. São Paulo, n. 21, out. 1955, p. 42-68, p.45.


KARNAL, Leandro. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2011, p.148.


KISSINGER, Henry. Ordem mundial. Rio de Janeiro: Objetiva Ltda, 2015, p.163, p.164, p.165.





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