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Política interna e externa da Ucrânia no contexto de guerra civil


Imagem 01: 112.internacional, 2020.


Texto por: Guilherme Melo


Economia política internacional da guerra civil:

Novembro de 2013, manifestações civis, seja elas espontâneas ou organizadas por ONG’s, partidos políticos e associações de natureza política foram as ruas, pedindo aproximação do país da União Europeia, assim como reformas políticas que visassem o combate ao nepotismo, corrupção e a garantia de respeito aos direitos humanos.


A maioria desses protestos foram feitos na Praça Maidan, localizada na capital, Kiev, o movimento chamado de “Euromaidan” foi uma consequência do adiamento de acordo de associação da Ucrânia com a União Europeia, em função de um acordo generoso que a Rússia ofertou acerca do comércio de energia termoelétrica e compra de títulos da dívida pública ucraniana.


A aproximação daquilo que a Rússia denomina por Ocidente aos antigos países membros do Pacto de Varsóvia, ao menos dentro do nível geopolítico, que são as organizações multilaterais da OTAN e a União Europeia vem se dando desde os noventa, mesmo quando, Mikhail Gorbatchov assinou o fim do Pacto de Varsóvia, na presença do Ex-Presidente norte americano, Georg W. Bush pai.


A condição fundamental do fim deste acordo de defesa mútua, logo no período de degelo das relações entre os Estados Unidos com a União Soviética na década de 1980, tinha por condição a não integração dos antigos países membros na OTAN e a garantia de manter os territórios da antiga Alemanha Oriental desmilitarizada.


Iéltsin se manifesta já em 1995, em uma carta às nações unidas, de forma contrária ao que ele considera uma expansão militar ocidental ilegítima. Isto leva à que em 1996 o presidente nomeie para o cargo de chanceler Eugeni Primakov, um grande crítico da aproximação entre a Rússia e os Estados Unidos, Primakov defendia que os norte-americanos não haviam abandonado a mentalidade da Guerra Fria, de contenção e cercamento da Rússia, e seria ingênuo persistir em uma parceria nestes termos. (AMAL, 2017)


Logo, pode presumir que o evento da guerra civil ucraniana e a intervenção russa na Crimeia não trata-se de uma surpresa na história e sim de um fator de instabilidade geopolítica, que vem se desenvolvendo deste a década de 1990, quando o arranjo internacional de paz, proposto por Gobartchov começa a ser desestruturado.


Boris Yeltsin, na época, se utilizou da grande dependência energética que a Ucrânia tem da Rússia (mais de 50% de seu consumo) para pressionar por uma negociação favorável a seus interesses relativos à Crimeia. Finalmente, foi acordado que a Rússia iria ter livre acesso militar e comercial à Crimeia e o porto de Sevastopol, embora este ainda fosse território ucraniano. Portanto, em troca do livre acesso à região, a Rússia iria provar benefícios comerciais para os ucranianos na compra de gás. (Ibid, 2017).


A Rússia na década de 1990 também tentou desenhar a sua arquitetura internacional, por meio de uma integração energética entre os países da antiga CEI (Comunidade dos Estados Independentes), seja pelo fornecimento de energia termoelétrica ou por meio de obras de infraestrutura de gasodutos.


Para o Ocidente, toda essa integração era uma barreira aos investimentos externos e as exportações de capitais desejadas pela União Europeia e os Estados Unidos da América, por isso, as rodada de negociação de integração da Ucrânia na União Europeia, que foi infeliz e cancelada no dia 21 de novembro de 2013.


O motivo desta mudança brusca se revelou algumas semanas mais tarde. Putin propôs um acordo alternativo ao da EU, que previa investimento russo no setor industrial ucraniano; redução no preço de importação do gás em um terço do valor anterior; e a compra de 15 bilhões de dólares da dívida ucraniana por parte da Rússia. (Ibid, 2017).


Os protestos que começaram em dezembro, em função dessa reviravolta do cenário político da Ucrânia, depois de um fim repentino do acordo com a EU, gerou uma ira na população de Kiev, que não havia parado os protestos até fevereiro, por isso a Rússia e a União Europeia, em 21 de fevereiro de 2014, assinaram um acordo com a Ucrânia para terminar com a repressão dos movimentos civis e começar um diálogo institucional com as suas lideranças.


O acordo previa a legalidade de tudo que havia sido decidido pelo governo ucraniano e estipulava para os manifestantes, as eleições de maio de 2014, para que qualquer mudança em termos políticos fossem decididos, porém, os manifestantes não respeitaram, invadiram prédios e o presidente Victor Yanukovich, temendo por sua vida, foi exilado em Moscou.


Dimensão interna do conflito


O fim da URSS gerou várias unidades estatais independentes uma das outras, logo cada país terá sua complexidade intra-geográfica a ser explorada, suas próprias contradições e isto se aplica ao caso ucraniano, com uma população de 30% de origem russa.


Não obstante este processo de transição, o que se verificou na prática foi que os líderes políticos ucranianos falharam na modernização política e econômica do país. A corrupção e a desigualdade socioeconômica escalaram para níveis inaceitáveis e o fosso entre pró-europeus e pró-russos aumentou consideravelmente. Por outro lado, as ligações pouco transparentes dos oligarcas ucranianos à Rússia, sobretudo no setor energético, agravaram os níveis de dependência do país, deixando-o vulnerável a pressões políticas e econômicas por parte de Moscovo. (Dias, 2015, p.46)



Algo comum ao grande bloco de direita da Ucrânia é que ele é patriótico, porém, não é nacionalista, não no sentido econômico, pois, a integração oligárquica entre os fornecedores de capitais do setor energético da Rússia e a cadeia de produção beneficiada por esta parceria comercial na Ucrânia, ainda que fosse terminada por um novo agente de fornecimento destes capitais, não encerraria o ciclo de dependência e subdesenvolvimento desta cadeia produtiva.


Em resposta a esta oligarquia, o movimento Euromaidan, caracterizado pela sua heterogeneidade, que conseguiu unir diferentes frentes civis da sociedade ucraniana, desde organizações liberais, sindicatos e neonazistas que se empenharam em fazer do movimento de transformação social, um movimento de ódio contra os russos.


A própria diversidade regional da Ucrânia, que contrapunha essa unidade artificial que o Euromaidan tentou construir, que envolve a imagem de uma Ucrânia Liberal ou um Estado corporativo e aristocrático como a Alemanha Nazista, faz com que no leste do país, os descendentes e russos propriamente, organizem movimentos separatistas nas províncias de Donetsk e Lugansk, assim como a anexação da Crimeia por meio de referendo a 18 de março de 2014.


O novo presidente, Petro Poroshenko não tomou iniciativas para a paz, pois o que lhe preocupava naquele momento, era a integridade territorial do Estado ucraniano, pois a anexação da Crimeia, acendeu a esperança da separação de etnias russas no sul e leste da Ucrânia para uma outra rodada de anexações russas.


Uma nova guarda nacional foi montada para entrar em conflito armado contra insurgentes pró-russos, o acordo de Minsk, negociado entre a Alemanha, França, Rússia e Ucrânia em 15 de fevereiro de 2015 reconhecia a soberania ucraniana, criação de uma zona de segurança e retirada da artilharia pesada, mas no final de 2015, as hostilidades entre os rebeldes e o governo permitiu uma nova rodada de conflitos.


O presente artigo tentou demonstrar por meio da visão realista de Kenneth Waltz, que a guerra, o conflito e também a paz são promovidos por agentes internos ao próprio país, antes mesmo de uma solução a nível internacional e que a política externa é uma consequência das decisões dos agentes políticos que tem o acesso aos mecanismos de controle e decisão do país.


Referências


AMAL, Victor Wolfgang Kegel. A intervenção russa na guerra da Ucrânia (2014): raízes históricas do novo dilema geopolítico europeu. In: XXIX SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 29., 2017, Brasília. Anais... . Brasília: Unb, 2017.


DIAS, Vanda Amaro. As dimensões interna e internacional da crise na Ucrânia.Relações Internacionais, Lisboa, n. 45, p. 45-55, mar. 2015, p.46.




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