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Polêmicas sobre a burguesia nacional: respostas para as indagações mais frequentes

(Bruno Torres, 20 de outubro de 2017).

Há pouco publiquei um breve texto para expor a existência de setores médios da burguesia brasileira (atribuídos, geralmente, na linguagem não marxista como “pequenas e médias empresas”), setores estes que eu e alguns camaradas nos sentimos a vontade para categorizarmos como burguesia nacional.


O texto claro, era curto. Possuía algumas notas, fontes e dados, mas tinha uma intenção de ser breve e não aprofundado.


Citando os “marxistas” que não reconhecem a existência material deste setor burguês, houveram aqueles que se identificaram com estas “acusações”, e soltaram de volta, indagações, apontamentos, questionamentos, contrapontos, e até mesmo ofensas. Parecem que realmente se sentiram incomodados. Como o diz o bom ditado: a “carapuça serviu”.


Mas não adianta apontar os equívocos de muito dessas acusações e as falácias perpetradas contra o que eu disse. É importante que isto seja demonstrado. Portanto, assim o farei.


Colocando as indagações mais frequentes que foram postas sobre o texto, em particular sobretudo pelos partidários da análise caiopradiana, e também sintetizando as dúvidas comuns de pessoas que estão começando a estudar o assunto, pretendo tocar tal “polêmica” de uma forma mais abrangente para além do “introdutório” – como se proponha a outra tão criticada matéria.


“Esses setores que são supostamente uma burguesia nacional, citados no texto, não são relevantes economicamente falando”


Resposta: A linha de raciocínio de quem advoga isso se limita a falar em termos de “rendimentos”. De fato, estas camarada proprietárias não possuem os maiores lucros, caso sejam equiparadas aos setores como o capital financeiro, o agronegócio, as multinacionais, etc. Entretanto, “relevância” econômica não deve ser definida apenas nestes termos.


Uma fração da classe proprietária que por si só, emprega a maioria absurda da mão de obra assalariada do país (nas estimativas da fonte do texto anterior, mais de 80%) e que, portanto, é parcialmente responsável para o nível de desemprego do país não ser maior do que já é, mantendo os atuais números de uma população economicamente ativa, proporcionando, entre as camadas trabalhadoras, um mercado consumidor (ainda que precário e não ideal), não pode ser considerado um setor irrelevante.


Não é nem necessário ser um marxista – basta ter bom senso – para perceber que este tipo de posição é irresponsável.


“Mas a burguesia brasileira é umbilicalmente ligada ao imperialista, e não há bem uma contradição entre a burguesia brasileira e o imperialismo. O que a burguesia ganha o imperialismo ganha e vice-versa. Portanto, um marxista levantar um projeto político que leve em conta esta burguesia é cair em ilusões”.


Resposta: Mesmo? Não há contradições reais entre estes diferentes setores do empresariado?


Temos as multinacionais estrangeiras que ganham anos e anos de isenções fiscais promovidas pelo Estado “nacional” brasileiro e, junto a eles, temos a grande burguesia brasileira associada ao imperialismo (como a “brasileira” AmBev, hegemonizada pelo capital belga da InBev) que se aproveita de empréstimos do BNDES para especularem (como típicos ratos rentistas que são).


Para além desses dois grandes setores do empresariado que atua no Brasil, temos um outro setor empresarial nacional que não possui tais facilidades fiscais, e que quase nunca são contempladas pelos incentivos do BNDES (que deveriam promover o desenvolvimento nacional, mas promovem a desnacionalização e a especulação).


Além da classe trabalhadora ser espoliada pela atual estrutura tributária do país (geralmente para fins de pagamento da Dívida Pública), estes setores do empresariado nacional TAMBÉM são “sufocados” por tais taxas tributárias.


A nível da classe burguesa, temos um setor (o imperialista, e o “brasileiro” associado) que SE APROVEITA e LUCRA, a partir da nossa estrutura tributária e orçamentária (exemplo: Dívida Pública e BNDES). ENTRETANTO, temos um outro setor que verdadeiramente contribui para o erário público (não mais que a classe trabalhadora e a classe média, é claro).


Ou seja, há diferenças claras, reais, materiais, etc., entre o imperialismo + grande burguesia em relação ao que chamamos de burguesia nacional.


“Ah, de fato há diferenças entre as frações burguesas no Brasil. Mas esta ainda é uma classe burguesa e que, portanto, é inimiga do proletariado. Os comunistas não devem considera-la como uma classe amiga. Mas sim uma classe inimiga como qualquer outra”.


Resposta: Não exatamente. Como eu mesmo citei Mao Tsé-Tung no último texto: é necessário identificar as contradições principais e as contradições secundárias.


Toda burguesia é necessariamente um inimigo histórico do proletariado. A emancipação do segundo só poderá haver por intermédio do declínio do primeiro. Do ponto de vista histórico, uma contradição irreconciliável.


Entretanto, há contradições no capitalismo brasileiro que saltam às vistas para além da contradição Capital-Trabalho. Mais agressivo até mesmo que estes pequenos e médios setores empresariais brasileiros, é o próprio imperialismo. As classes que conformam o bloco antinacional (os rentistas, a grande burguesia, o agronegócio, o latifúndio) sobrevivem em detrimento daquilo que vem à ser nacional (o proletariado brasileiro, os camponeses, a pequena burguesia e, por último, a ambígua burguesia nacional).


Portanto, a contradição Imperialismo-Nação constitui-se como a principal contradição do capitalismo brasileiro.


Quando dizemos (me refiro a mim, meus camaradas e outras pessoas que partilham de tal ponto de vista) que devemos considerar esta burguesia nacional em nossas análises, e nos projetos políticos a serem defendidos, nos referenciamos ao fato de que o programa defendido pelos marxistas devem dar ênfase naquilo que é prioritário do ponto de vista das contradições, focando no ataque ao imperialismo e a grande burguesia como um inimigo principal (ou no caso, taticamente mais imediato) do proletariado brasileiro.


Uma vez que estas camadas nacionais da burguesia possuem algumas contradições com o imperialismo e com a grande burguesia associada, uma plataforma política que foque seus ataques no imperialismo e, ao menos momentaneamente, não ataque esta mesma burguesia nacional, cria um terreno político propício para que esta classe nacional – ou parcelas dela – apoiem o eventual avanço de uma plataforma nacional e popular (de desenvolvimento independente) que seja promovida pelo proletariado e demais classes aliadas.


Historicamente, é claro, esta burguesia um dia teria de perecer. Ela cumpriria um papel político pontual, mas logo deve se sucumbir para o avanço do projeto de uma sociedade sem classes.


Deste ponto de vista, a análise das CONTRADIÇÕES PRINCIPAIS, submetendo à elas as CONTRADIÇÕES SECUNDÁRIAS, contribui com os objetivos estratégicos do proletariado, dividindo os inimigos principais dos secundários, utilizando-se politicamente das contradições entre os inimigos principais e secundários, atacando primeiramente os inimigos principais, para somente depois atacar os inimigos secundários.


Para tanto, a burguesia nacional deve ser considerada na análise dos marxistas brasileiros.


“Mas quando Mao Tsé-Tung formulou isto na China, havia uma inclinação da burguesia nacional chinesa a apoiar o movimento democrático popular liderado pelos comunistas. No Brasil já está provado que a inclinação da burguesia nacional SEMPRE FOI e SEMPRE SERÁ a de apoiar o imperialismo. Ou ao menos é isto que se prova a longuíssimo prazo”.


Resposta: Engraçado que fui acusado de simplificação e superficialidade no meu texto por várias pessoas, mas esta linha de raciocínio justamente simplifica e esconde o que realmente Mao formulou quanto a questão da burguesia nacional.


Mao Tsé-Tung percebeu as contradições entre a burguesia nacional chinesa para com aquela que ele identificou como burguesia burocrático-compradora e com o imperialismo, e percebeu que esta burguesia nacional poderia vir a apoiar o projeto democrático-popular defendido pelos comunistas a partir do que já abordei acima (sobre as contradições principais e secundárias).


Segundo Mao esta burguesia nacional não possui uma tendência definida, se a apoiar as forças anti-imperialistas ou se o próprio imperialismo. Ela é, portanto, dual (segundo as palavras do mesmo). Possui uma postura ambígua. Por sua falta de capacidade de implementar um projeto político próprio, ela se sucede as diversas pressões podendo cambiar entre um lado e o outro.


O que, segundo Mao, pode contribuir para esta burguesia nacional se colocar do lado contrário ao imperialismo? A força do movimento nacional e democrático, composto pelo proletariado e campesinato, liderada por um forte Partido Comunista.


O que, em contrapartida pode colocar esta burguesia nacional do lado contrário aos próprios interesses nacionais e populares? A força da reação e do imperialismo.

A burguesia nacional, portanto, é incapaz de tocar um projeto político próprio, e adere a um ou a outro, mais por intermédio da pressão e da correlação de forças do que de qualquer outra coisa. Em outros termos: da luta de classes (neste caso, concebida a nível internacional).


Até agora, claro, estamos falando do exemplo chinês. Mas e o caso brasileiro?


Se acreditarmos na afirmação de que a burguesia nacional no Brasil sempre se colocou em prol do imperialismo, então concordaríamos que essa inclinação inerente ao imperialismo foi provada historicamente. Este, entretanto, não é o caso.


Se é a força dos interesses nacionais (por meio das massas) ou a força dos interesses imperialistas que vai fazer a burguesia nacional no Brasil se sujeitar a pautas de um ou outro lado, é necessário reconhecer que foi assim que a burguesia nacional participou ativamente da campanha “O Petróleo é Nosso!”, que estava envolvida diretamente na defesa da Siderúrgica Nacional, e dentre as outras pautas que podem ser entendidas como populares ou minimamente anti-imperialistas (do ponto de vista dos interesses escusos dos parasitas internacionais).

Ora, é fato que esta mesma burguesia, sujeita também as pressões de classes do imperialismo (sobretudo no contexto da Guerra Fria e do exacerbado anticomunismo), anos mais tarde, se colocará contra os próprios interesses nacionais chegando a apoiar – não toda a burguesia nacional, mas boa parte dela – o golpe militar de 1964.


Até aí temos duas viradas de posições. A burguesia nacional se comportou mais ou menos inclinada aos interesses nacionais por certo tempo. Depois se comportou inclinada aos interesses imperialistas em 1964.


“Mas as nuances e mudanças das ações políticas dessa burguesia nacional vão parar por aí, e desde então elas vão SEMPRE se inclinar ao imperialismo!”


Resposta: Essas mudanças nas ações políticas da burguesia nacional ora pró-nacional ora pró-imperialista vão parar por aí? Será mesmo que vão parar?


Após o golpe militar, na primeira oportunidade que houve de se implementar uma nova lei referente ao controle da remessa de lucros para o estrangeiro (medida que viria a favorecer bastante o imperialismo caso aprovada), o apoio dessa burguesia nacional à agenda imperialista do golpe é logo repensada.


Foi uma das votações mais apertadas da história do parlamento brasileiro.


Houve a vitória da mesma por um voto. Praticamente metade dos parlamentares (representantes, em sua maioria, desta burguesia nacional) votou contra um projeto de lei que era justamente um das propostas centrais da agenda do golpe. Isto, claro, não configura uma oposição franca e aberta, “revolucionária”, mas mostra que, ao menos internamente, mesmo dentro dos limites institucionais de um regime de exceção (que foi a ditadura), esta mesma burguesia nacional resistiu a tais intentos desnacionalizantes.


Isso nos prova que a burguesia nacional sempre apoiará a agenda imperialista e sempre negligenciará os interesses nacionais e populares? Há quem diga que sim. O que seria uma abordagem praticamente determinista e mecanicista do papel que esta fração burguesa desempenha. E eu digo que “não necessariamente”.


O fator que faz a burguesia nacional se inclinar a um ou a outro projeto não está em si mesma, mas no contexto histórico de cada momento, sobretudo a depender do nível de organização do proletariado e também do nível de força que há num projeto nacional e popular hegemonizado por este proletariado.


Considerando o refluxo que se encontra no movimento comunista, a desorganização da classe operária, e a falta de um consenso entre as esquerdas no que se refere a um projeto comum de Nação; é justamente esperado que a burguesia nacional não esteja inclinada a tais interesses.


Este fato (da burguesia nacional hoje não apoiar um projeto nacional) não é suficiente para demonstrar supostas incoerências ou equívocos no meu argumento, porque este é um fato do qual eu reconheço e faço a minha análise em cima disso!


A questão é que há diferentes interpretações para o fato desta burguesia nacional não apoiar este tipo de projeto na atualidade.


Por uma série de motivos (alguns dos quais já elenquei nesse texto) acredito que a interpretação que eu apresento está muito mais próxima da realidade do que a colocação quase determinista de que a burguesia nacional “sempre ficará ao lado do imperialismo, custe o que custar”.


Historicamente, nós sabemos – e isto é um fato, não é uma interpretação – que a burguesia nacional se constituiu como uma classe “tímida”, covarde, dúbia, ambígua em suas ações, e que já se colocou de ambos os lados da contradição Imperialismo-Nação em diferentes momentos históricos. E – agora entra a “interpretação” – isto torna pouco crível a ideia de uma burguesia nacional que sempre seja necessariamente pró-imperialista.


“De fato pode haver um empresariado brasileiro ou latino-americano, mas porque eles seria uma burguesia nacional? Como eles são burguesia nacional se eles não possuem um projeto de classe próprio? Se eles nem tem um programa nacionalista?”


Resposta: Primeiro que, como já foi falado, esta classe está impossibilitada de ter um projeto político próprio ou, mesmo se vier a ter um projeto nacionalista, ela nunca demonstrou-se preparada para levar este projeto político econômico até as últimas consequências do enfrentamento com o imperialismo.


Isto é fato, e eu já reconheci em várias partes desse extenso texto.


Todavia, a falta de um projeto político nacionalista consciente por parte desta classe não torna-a inexistente; tal como a falta de apoio à um projeto político norteado pelo socialismo e pelo marxismo, por parte do proletariado, não significa que este proletariado é inexistente.


É possível, inclusive haver – e há! – vários trabalhadores que sejam tragados pela ideologia dominante e, portanto, pela ideologia burguesa. Assim como é possível esta burguesia nacional ser seduzida a defender os interesses imperialistas – interesses que não são seus – por meio dessa ideologia dominante.


Isso não torna a burguesia nacional uma burguesia umbilicalmente associada economicamente ao imperialismo tal como não torna o proletariado uma classe umbilicalmente ligada a burguesia.


A burguesia tem mecanismos de cooptar parcelas da classe operária tal como o imperialismo tem mecanismos de cooptar a burguesia nacional.


Obviamente tais intentos são mais fáceis numa classe ambígua como a burguesia nacional do que no proletariado. Mas não desmente nada do que levantei.


“Há algum exemplo, até mesmo “empírico”, desta burguesia nacional que poderia ser citado nos dias atuais?”

Resposta: Embora esse assunto demande uma profunda pesquisa de economia, muito trabalhosa até para profissionais da área (fica a dica de pesquisa para os economistas marxistas), é possível ainda sim citar exemplos.


Vejamos alguns casos do estado de Pernambuco (do qual sou mais próximo e conheço melhor que em outras localidades). Na cidade de Recife nós temos alguns quarteirões e ruas que são praticamente ruas “comerciais” divididos por setores e venda (ou até de produção, em alguns casos).

Nas diversas ruas próximas ao famoso Pátio São Pedro, há várias empresas comerciais especializadas na venda de tecidos (e alguns outros comércios de outros ramos). De pequenos a grandes comércios que empregam um largo corpo de funcionários.


Igualmente, nos “Coelhos” (final da Rua da Aurora, antes do IMIP) há vários comércios de móveis e estofados, alguns dos quais com fábricas de estofados ou oficinas de manutenção já “anexados” à própria loja. Além, claro, dos armazéns de construção e outros comércios.


Os donos de muitas dessas empresas de comércio citadas são donos também de fábricas que produzem o que eles mesmos vendem (sobretudo no ramo dos estofados), isso quando não são “revendedores” de empresas de distribuição ou produção de tecidos, de médio ou grande porte, do próprio estado ou região – muitas das quais também são empresas nacionais.


No ramo dos estofados eu diria que uma das mais conhecidas é a GMAG, que tem a fábrica sediada no município de Camaragibe e possui várias e várias lojas ligadas a própria fábrica espelhadas por Recife e outros locais de Pernambuco.

Havia também em Pernambuco, há alguns anos, um refrigerante chamado Frevo, produzido por uma empresa local, que chegou já por longa data a hegemonizar as vendas de refrigerante no estado, sobretudo na Região Metropolitana do Recife. Assim como havia o Guaraná Jesus no Maranhão que, infelizmente, foi desnacionalizada (comprada pela The Company Coca-Cola).

Este “fenômeno” de marcas locais (estaduais ou regionais) com certa força e mercado consumidor fiel, se dá sobretudo em empresas desse ramo (produção de comes e bebes).


Além, claro, das produções de bebidas alcoólicas, muitas das quais típicas de vários estados nordestinos, tendo bebidas de maior expressão, que são exportadoras de nível razoável, como a Pitú e a 51 (que possuem mercado de vendas até na Europa), e até as de expressão mais local como a cachaça “Matuta”.

Outro exemplo clássico que podemos enumerar em Pernambuco são algumas marcas de produtos de limpeza locais que ainda conseguem ter força para concorrer com produtos da grande burguesia ou das multinacionais. Ninguém nunca ouviu falar do slogan “Sujou? Usa Dragão!” (propaganda de uma das maiores empresas de Água Sanitária local)?


E há mais exemplos de empresas regionais ou locais que sobrevivem a concorrência desleal dos grandes monopólios internacionais. Por exemplo, a ASA Indústria, que tem como carro chefe o sabão em pó Bem-Te-Vi (mais “em conta” e conhecida localmente do que a marca inglesa OMO, da multinacional Unilever). Daí temos algumas outras marcas locais como a Vitamilho, Palmeiras, Invicto e etc. Todas marcas diferentes de um grupo empresarial que possui certo corpo (possuem mais de 1500 funcionários empregados somente nos parques industriais), e tem uma expressão regional digna de nota (com 20 anos a empresa tem 3 fábricas distribuídas entre Pernambuco e Paraíba e comercializa com outros estados do Brasil).

Todas estas empresas citadas, claro, atuam em ramos que não demandam “do que há de mais avançado” em termos de tecnologia. Não à toa boa parte dessa burguesia nacional está no ramo da indústria alimentícia e semelhantes e não, por exemplo, “na produção de peças computadores”. São setores produtivos importantes, capazes de gerar rendimentos, lucros, extração de mais-valia por meio do emprego do trabalho assalariado (em menor ou maior escala a depender do porte das empresas), e isso sem largos investimentos em tecnologia produtiva de ponta, não necessitando sempre de uma alta densidade tecnológica.

Porque é maior o caso dessas burguesias nacionais em setores de menos densidade tecnológica? Pelo fato de que, em grande parte dos casos para você poder usufruir “do que há de mais avançado”, elas acabam tendo de se associar ao imperialismo ou aos grandes empresários já associados (via de regra, deixando de serem nacionais independentes, passando a serem dependentes ou associadas).


Isto é fruto da dependência tecnológica do Brasil perante o imperialismo.


“Mas há também setores ‘nacionais’ da burguesia entre a indústria mais pesada?”


Resposta: Sim, há. São mais raros que nos setores de mais baixa densidade tecnológica, mas existem.


O exemplo mais claro está entre a Indústria Naval. As ações políticas e posições políticas do SINAVAL (que é um sindicato patronal deste ramo industrial) demonstram que entre eles há uma relativa contradição com as multinacionais estrangeiras e o monopolismo imperialista.

As gerências do Estado brasileiro, alinhadas em última instância às multinacionais e ao mercado internacional coadunaram com uma medida da ANP que liberaria a Petrobras para construir cascos de Libra no exterior. A medida prejudicaria a Industria Naval do próprio Brasil, lesada por uma concorrência desleal com os monopólios internacionais.


Segundo o próprio SINAVAL quando a ANP realizou tal medida alegando que “seria mais barato no exterior” ela, nem ao menos, consultou os estaleiros locais! Já se colocou prontamente a serviço das transnacionais estrangeiras.


Lesada a indústria nacional naval, SINAVAL deu sinais que entraria com recurso.

E isso aconteceu agora no começo do mês de outubro de 2017.


Outras contradições deste setor são demonstradas a partir da Medida Provisória (MP) 795: a medida, entre outras coisas, defendia relativamente os interesses deste setor da indústria nacional. Uma vez que haviam grupos entreguistas interessados na importação de navios estrangeiros com largos incentivos fiscais (as típicas isenções dadas as multinacionais) que poderia promover uma desleal concorrência com os estaleiros locais, o SINAVAL realizou grande pressão, enviando uma proposta de emenda defendendo seus interesses.


Há entre os estaleiros brasileiros, onde boa parte deles pertencem à esta burguesia nacional, contradições claras com o imperialismo, que acabam se desdobrando no Estado e em votações legislativas. Estes setores, formado por empresas maiores, conseguem ter alguma força para defenderem alguns de seus interesses no seio do Estado.


Eles conseguem com maior força levantar seus interesses na política, ao contrário da maioria da burguesia nacional (dos ramos de menor densidade tecnológica) que possuem menor expressão, por não estarem entre as grandes empresas nacionais como estes estaleiros estão.


“Mas fazer um projeto político baseado nesta burguesia é perigoso. O projeto político deve ser baseado no proletariado!”


Resposta: Senhores, quem afirma isto parece ter redescoberto a roda!


Em nenhum momento estamos excluindo o protagonismo do proletariado no projeto político que defendemos. A colocação desta linha de raciocínio é, no mínimo, falaciosa.


A burguesia nacional tem se demonstrado incapaz de levar adiante um projeto nacional e anti-imperialista próprio para a Nação brasileira (ainda que, se espera que isto seja um papel dela). Há somente uma classe que possui condições de levar a cabo um projeto anti-imperialista até as últimas consequências. Esta classe é o proletariado.


Portanto, a formação de uma ampla frente nacional e popular, baseada sobretudo no proletariado, e nos setores da sociedade aliados (ou potencialmente aliados) ao proletariado – os camponeses e demais trabalhadores rurais, além da vacilante pequena burguesia, setores progressistas da intelectualidade e dos profissionais liberais, setores religiosos progressistas, etc. – deve ser a nossa política central.


Este projeto anti-imperialista de Nação não está dado, necessita ser debatido e construído. A própria união entre estes setores não está colocada de forma prática, e mesmo as atuais frentes políticas existentes no Brasil (a exemplo da Frente Povo Sem Medo) ainda estão se desenvolvendo, e não possuem um debate fechado em torno de um “projeto de Brasil”.


A única questão que coloco, é que este projeto de Nação, deva enfatizar as contradições do povo brasileiro com o imperialismo, focando seus ataques ao capital financeiro, às multinacionais e, porque não, à grande burguesia “brasileira” associada; não atacando – ainda – esta burguesia nacional em seu projeto (falando por exemplo, abertamente em expropriação e nacionalização não só do capital imperialista, mas também em expropriação imediata desta burguesia nacional para implantar o socialismo).


A questão colocada não é perder de vista que a burguesia e o proletariado são inimigos históricos e irreconciliáveis, mas sim que, devamos explorar as contradições entre esta burguesia nacional e o imperialismo, aproveitar o caráter ambíguo desta burguesia nacional para pressioná-la a apoiar projetos anti-imperialistas por meio da demonstração de força do proletariado no enfrentamento ao imperialismo.


A questão aqui elencada é a promoção de um projeto amplo de independência nacional e de desenvolvimento que enfoque uma forma e aparência nacionalistas (sobretudo nas atuais condições subjetivas, com a permanência forte do anticomunismo exacerbado no seio da sociedade, e nas camadas médias), ainda que, o conteúdo destas formas possua, a médio e longo prazo, as intenções de transitar esse projeto de libertação Nacional ininterruptamente para a Construção do Socialismo. Ou seja, do poder popular à ditadura do proletariado.


São nestes termos que colocamos a questão. Não retirando o papel protagonista do proletariado, mas sim o reforçando.


“CONSIDERAÇÕES FINAIS: sobre os ‘críticos’ e sobre a polêmica”


Surgiram outros questionamentos e debates conceituais e de categorias, alguns derivados de debates teóricos em torno da historiografia econômica marxista. Caio Prado Júnior, Ruy Marini, Florestan Fernandes… ironicamente, claro, quase nenhum deles citou Nelson Werneck Sodré (por que será?).


O texto aqui, obviamente, tem como foco complementar meu texto introdutório e “panfletário” anterior, por meio da resposta de algumas indagações e questionamentos “frequentes”, dando ênfase naquilo que corresponde a existência ou não de uma burguesia nacional, assim da postura histórica que esta burguesia nacional tem no Brasil.


Os debates conceituais mais teóricos, sobre as divergências de categorias e de interpretações de história brasileira, entre Caio Prado Jr e Nelson Werneck Sodré, por exemplo, poderão ser enfocados em um outro texto, um outro trabalho. Não é, é óbvio, a função do presente escrito. Aprofundar também este debate historiográfico neste mesmo texto, poderia deixar sua estrutura confusa e deixar turvo quais os objetivos centrais aqui. Entretanto, não descarto a possibilidade de mais à frente responder sobre estes tópicos historiográficos e conceituais em específico.


Se eu não havia sido claro o suficiente no outro escrito – sobretudo para aqueles que denunciam em nossa concepção um “desvio etapista”, uma suposta “conciliação de classes”, um disparate de um “paspalho economicista” – acredito que pude ser claro o suficiente no presente texto.


É óbvio, há aqueles que soltaram verborragias e acusações mesmo entendendo o que o texto quis dizer. Assim o fizeram porque foram denunciados, porque foram contrariados, e eles se incomodam com o que lhes contrarie e com a clareza das ideias. À eles não adianta o debate, o levantamento dos fatos, a discussão; estão por demais presos a seus púlpitos “teóricos” que, segundo eles “provam” os seus pontos de vista.


Estes serão os primeiros a levantar as – já esperadas – falaciosas acusações do mecanicismo e da conciliação de classe e as ofensas de paspalho. E, na verdade, eu não espero atitudes diferentes de garotos de maioridade com a maturidade menos desenvolvida que a de uma criança.


A discussão levantada por mim – e pelos outros marxistas que partilham tal ponto de vista – não está em termos de dizer que o proletariado não é mais o principal sujeito da Revolução Brasileira. A discussão não está em termos de colocar a burguesia nacional como o centro de nossa política. Quem assim nos acusa precisa retomar as aulas de interpretação de texto do ensino básico. Talvez seja um problema de QI.


A única colocação feita foi a de considerar a existência desta classe, levando em conta a sua postura cambiante e ambígua – provada à nós pela própria história brasileira!


Os “críticos” ditos “marxistas” continuam a negligenciar a história – e os fatos – para justificar seus pontos de vista, ao invés de adaptar seu ponto de vista à realidade.


Não cortam os sapatos para fazer seu pé entrar no pequeno calçado. Para ajustar seu pé no sapato, preferem amputar os próprios dedos dos pés.


Esta não é a postura de um marxista, que deve se portar de forma científica quando os fatos comprovam o equívoco de seu ponto de vista. Esta é a postura de um antiquado fanático religioso, resistente a qualquer mudança, inclusive em suas concepções, porque certos fatos e práticas entram em conflito com seus dogmas.


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