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Por ocasião do 11 de setembro: breves comentários e reflexões sobre Allende

Atualizado: 19 de Dez de 2019

(Bruno Torres, 11 de setembro de 2019).

O dia 11 de setembro é um dia triste para os povos americanos. E quando afirmo isso não quer dizer que eu esteja falando do atentado das torres gêmeas, atribuídos à Osama bin Laden. Falo do golpe realizado pelos EUA contra o povo chileno, num episódio que chocou toda América Latina.


No mesmo fatídico 11 de setembro, um avião atacou um edifício, não de Nova York, mas de Santiago. Era o Palácio de La Moneda no bombardeio americano de apoio ao golpe de Pinochet.


O episódio gera muito tumulto entre organizações de esquerda. Desde as mais moderadas e ‘democráticas’ que reivindica Allende como uma referência maior de como se deve lutar pelo socialismo. Assim como a ojeriza por sua memória por alguns pretensos revolucionários, de linhas mais radicalizadas, por exemplificar o erro da tentativa de implementar transformações sociais passando pelo crivo institucional.


De fato, devemos tirar importantes lições do atentado contra Allende e o golpe no Chile, mas não é o caso de incorrermos em erros por paixões descabidas de um lado ou de outro.


Allende é uma referência inegável para a esquerda chilena e para grande parcela das massas populares daquele país, quer sejamos críticos de seus erros táticos ou não. A esquerda latino-americana precisa compreender isso, e os comunistas chilenos precisam realizar seu trabalho revolucionário dentro deste terreno.


Dito isto, podemos levantar algumas questões importantes, que os renegadores completos (de Allende) aos apaixonados que reivindicam sua memória de forma idílica, costumam ignorar.


AOS ULTRARREVOLUCIONÁRIOS


1 – Não reduzam Allende a um reformista qualquer, a qualquer socialdemocrata. A tradição socialdemocrata há muito havia abandonado o conceito de chegada ao socialismo. Allende nutria certa ilusão – sim, ilusão, precisamos admitir – de que poderíamos chegar ao socialismo (e me refiro aqui ao socialismo científico, advogado pelos marxistas) por meio de reformas e avanços institucionais, uma reviravolta da institucionalidade por dentro. Havia de fato essa concepção, e Allende não era um conciliador no quesito programático-estratégico (apesar de ter sido moderado no quesito tático). O que já era distinto da tradição socialdemocrata à época, que pensava seu projeto apenas a termos de um melhoramento eterno do capitalismo, e não de uma transição a algo novo. Allende nunca pontuou sua política nestes termos.


2 – Seus pronunciamentos deixavam claro que não realizaria um governo de “todas as classes”, cerrava declarações que não pretendia ser um governante de “todos os chilenos”, uma forma sutil de deixar claro sua posição de classe. Portanto, seus erros foram muitos táticos – sobre como chegar lá, sobre a crença de que tinha ganhado a lealdade da cúpula das Forças Armadas e dentre outras questões. Mas, ainda do ponto de vista programático, do ponto de vista estratégico, Allende não tinha ilusões quanto ao “melhoramento do capitalismo”, possuía um programa bem mais radicalizado que, por exemplo, o PSUV venezuelano sob a liderança de Hugo Chávez – que até tem noções táticas avançadas, cooptação bem mais efetiva das Forças Armadas e patrióticas, mas estrategicamente limita o próprio programa, e parece não aprofundar o que eles próprios concebem como socialismo, nem radicalizar a definição de socialismo bolivariano.


3 – Por isto, não reduzam Allende a um presidente golpeado qualquer da América Latina. Ainda que tenha sido vítima de um golpe militar, não podemos reduzi-lo, por exemplo, a algo análogo a um João Goulart: O primeiro não nutria ilusões ad eternas de melhorias incessantes dentro dos marcos do capitalismo, enquanto o segundo era um nacionalista-popular com uma noção estratégica menos profunda. Igualmente: O primeiro se acovardou diante da possibilidade de resistir ao golpe por meios concretos, tendo a dispor parcelas das Forças Armadas e a disposição de trabalhadores armados organizados por Brizola; o segundo, todavia, mesmo não tendo o mesmo nível de recursos que Jango tinha à sua disposição não se acovardou e resistiu até onde pode o intento de golpe em sua nação, tendo inclusive se tornado um mártir por conta disto.


Allende não é um “Fidel Castro”, muito menos uma figura equiparável a um “Lênin”... mas também não pode ser reduzido a um socialdemocrata qualquer. Dentre os governantes vítimas de golpes militares na América Latina ele foi um dos mais singulares nesse quesito. Essa singularidade precisa ser levada em conta.


AOS “DEMOCRÁTICOS”


1 – Se a redução de Allende a um reformista qualquer é equivocada por parte de ultrarrevolucionários, é mais ainda por parte dos ditos “moderados”, que são “democráticos” em demasia no campo da esquerda, e não retiram as mais importantes lições do 11 de setembro chileno.


2 – Neste ponto, eu tomo a liberdade de parafrasear um companheiro, citando indiretamente G. Deslandes, na seguinte asserção: Por Allende ser tido como a representação de algo inédito no movimento comunista, do fato de um comunista chegar ao posto do Chefe de Estado dentro de eleições burguesas, isto é colocado como um mérito por si só, exaltando o feito de Allende como algo a ser repetido, um objetivo inexorável a ser cumprido.


3 – Estes senhores “democráticos”, supostamente socialistas, mas socialdemocratas em sua essência, tomam erroneamente a lição do episódio levantando ideias – ideias estas que talvez nem o próprio Allende concordaria se tivesse sobrevivido e tivesse a oportunidade de rever suas táticas – de que os socialistas devem necessariamente passar pelo crivo institucional. Allende o fez, de fato, mas porque vivia dentro de um cenário de mobilização eleitoral amplamente massiva, amplamente popular; a frente articulada na Unidade Popular que tinha o Partido Comunista como uma de suas principais engrenagens era uma força política e eleitoral quase inconteste. Ainda que de forma ilusória, a defesa da Legalidade por parte da alta cúpula nas Forças Armadas, pareceu para Allende como crível, como um elemento político que legitimaria seu mandato – e essa “defesa a legalidade” é uma coisa que no Brasil não vemos em boa parte das FA brasileiras desde a década de 60 ou antes. Aos militantes da base de Allende ainda podemos ter a licença do erro sobre um fenômeno que parecida inédito, aos reformistas brasileiros que tentam usurpar a memória de Allende sob insígnias de socialismo, isso não cabe de forma alguma.


4 – Estes senhores são politicamente estéreis e querem continuar politicamente estéreis. Querem manter a defesa do socialismo a termos simbólicos, como um mote da suposta resistência que realizam. Aproveitam o fato de Allende não ter conseguido se manter no poder para concretizar a sua plataforma, para usar sua condição de mártir. Com isso, ganham um “argumento” a mais para justificar a falta de proposição na construção e na defesa de um socialismo “real”, palatável, “autoritário” e “imperfeito”, mas defendem um modelo socialista idílico, uma paródia romantizada do que pode ser o socialismo, donde ele nunca chegará na terra (ou no Brasil), mas conformam suas consciências já que estão eternamente lutando por ele, numa condição incessante de agentes democráticos reativos, onde – parafraseando mais uma vez o camarada – estão na condição eterna de “resistência”, e por isso a condição de “vítima ad eternum” que simbolicamente caiu sobre Allende, serve como uma luva na mão destes.


Sem mais delongas, gostaria de dizer que, mesmo com suas limitações, erros táticos, ilusões políticas, Allende ainda assim foi um dos nossos, e frente ao golpe realizado, reagiu como um estadista abnegado deveria agir: sem covardia, resistindo e não renunciando. Devemos tomar as lições políticas do 11 de setembro chileno nestes termos, sem a incompreensão tacanha da singularidade do fenômeno Allende, nem a referência idílica da “vitima ad eternum”.


Devemos exaltar Allende compreendendo naquilo que ele realmente foi – nem mais nem menos do que o que ele é para a História.


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