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Putin e o Imperialismo Russo

Sobre a categorização leninista de imperialismo, à luz dos recentes acontecimentos. O texto também provoca uma discussão sobre a Rússia dos anos 90.

A confusão conceitual sobre como “classificar” a Rússia reside em algumas assimetrias, que são heranças de seu passado particular.


A incompreensão dessa assimetria é o que mais contribui para pouquíssimas pessoas saberem classificar corretamente a Rússia na ordem mundial atual, ou de definir o caráter do capitalismo russo.


Essa assimetria se dá entre as condições econômicas com o poderio militar. Elas simplesmente “não correspondem” ao que é “normal”, ao que “todos esperam”. É como se a economia russa estivesse em condições econômicas que não são compatíveis com o seu poder bélico – uma incompatibilidade que foge ao padrão de todo o mundo.


Mas há mais questões além disso, como na hegemonia exercita pela Rússia na região.


POTÊNCIA REGIONAL


Entendam que a Rússia é uma potência regional euroasiática, análoga ao Brasil como uma potência regional sul-americana. E os paralelos da Rússia com o Brasil são importantes porque assim entenderemos também o nosso próprio país (e não só a Rússia).


Seja o Brasil um país atrasado e pré-capitalista. Seja um país de capitalismo dependente. Seja um Brasil socialista do futuro... em todos esses casos, o Brasil será uma potência regional sul-americana e uma liderança natural da região.


Podem usar essa nossa “liderança natural” (que é um fato histórico objetivo) para promover a integração com nossos irmãos dos países vizinhos (bem como, para promover os interesses do próprio proletariado brasileiro). Assim como podem instrumentalizar a nossa liderança regional em prol de interesses de países de fora da região (como os EUA), usando o Brasil como tentáculo.


Em um caso ou noutro, em qualquer tempo histórico, e em qualquer projeto societário, o Brasil será uma liderança regional (quando não mesmo, uma potência regional).


Do ponto de vista sul-americano, essa é a nossa “vocação” devido a uma miríade de fatores, mas sobretudo devido ao nosso imenso porte territorial.


Ponto.


Não há nada que mude isso, a não ser que nos desfigurem e que retalhem o Brasil em mini-países, com vários separatismos por todo lugar. Praticamente, essa seria a única maneira de fazer o Brasil perder essa vocação de liderança regional dentro da América do Sul. Dito isto, a Rússia vive em situação análoga à nossa.


Enquanto ela existir enquanto Rússia, enquanto for este país de escala continental, ela será uma liderança natural na região, e terá uma “vocação” de potência regional. Isso era um fato objetivo na antiga Rússia semifeudal, numa Rússia capitalista, numa Rússia socialista ou o que quer que seja.


ASSIMETRIA MILITAR-ECONÔMICA


Mas o Brasil não possui as mesmas assimetrias da Rússia.


Por exemplo, temos um poder militar e bélico “bom” dentro da média da América do Sul, mas muito deprimente e de baixíssimo nível na escala global. E a nossa economia de “fazendão” é mais ou menos compatível com esse estado obtuso do nosso poder militar. Há uma compatibilidade de “caráter da economia” com “nível de poder bélico”.


Na Rússia não há essa compatibilidade: Eles possuem o segundo arsenal nuclear mais poderoso do mundo (e em aspectos determinantes, os russos podem ser considerados até O MAIS poderoso propriamente dito). Isso tudo, além de outros demais aspectos das forças de Defesa e de Guerra (que não tem a ver com poder nuclear) do qual a Rússia também é uma potência global. E isso tudo enquanto encampam uma economia que não é lá tão diferente de algo como o Brasil (dependente, pouco desenvolvida em vários pontos).


Como explicar isso?


Resumidamente: O legado soviético.


A Rússia só não se desmembrou em vários pequenos pedaços, em vários mini-países, porque ela herdou o arsenal nuclear soviético.


Ironicamente, o que garante a atual Rússia (capitalista) uma posição de potência regional, e o que garante a ela não ser completamente destruída e retalhada em vários pedaços, é a estrutura e o poderio militar (sobretudo nuclear) que ela herdou do socialismo!


É um caso sui generis.


A ECONOMIA RUSSA DO COLAPSO SOVIÉTICO AOS ANOS 90


Quanto ao aspecto econômico, também não é difícil entender o que houve.


Vamos voltar nossas atenções sobretudo ao ápice do processo de liberalização e restauração capitalista, ocorrido no final dos anos 80 para início dos anos 90.


A Rússia, hoje, é uma economia definida por esse processo.


Quando "marxistas" tentam usar a categoria leninista de imperialismo para designar a Rússia atual, parece simplesmente que ignoram detalhes cruciais desse processo, assim como ignoram o "que foi" e o "que é" a economia russa. Simplesmente não deixam claro e nem detalham como a liberalização afetou o país economicamente.


É como se não soubessem – ou fingissem que não sabem – do nível do lamaçal em que a Rússia foi enfiada nos anos 90.


Houve um processo de abertura e liberalização plena, já iniciado por Gorbathev, mas que encontrou seu derradeiro agente em Yeltsin.


Yeltsin promoveu um verdadeiro golpe pinochetista contra a Rússia, no melhor entendimento que o termo “pinochetista” pode ter. Ele bombardeou o parlamento russo – literalmente! – e aplicou um imenso “choque de liberalismo” que proporcionalmente superou o liberalismo chileno de Pinochet e Friedman “em dez vezes mais”. Foi o desgraçamento das bases econômicas de um país em um nível inédito.


A economia russa foi toda depenada. A Rússia virou um self-service sem balança das potências capitalistas estrangeiras em conluio com a oligarquia e a nomenklatura local.


As vezes esses "marxistas" passam a impressão aos seus interlocutores de que eles defendem o seguinte: Que na restauração capitalista russa, houve uma imensa tensão política que simplesmente trocou a “apropriação planificada da economia por proletários russos”, por uma “apropriação privada da economia por burgueses russos”.


E resumidamente, assim se deu a restauração capitalista, sem maiores entendimentos de como a economia russa foi afetada.


A restauração capitalista fica parecendo uma decisão administrativa de gabinete, e não um processo de décadas, que tem seu ápice no pinochetismo de Yeltsin.


Até mesmo alguns comunistas mais ortodoxos, e conscientes da importância do legado de Stálin, acabam caindo em certas armadilhas.


São camaradas que estudaram História, e compreenderam muito bem os riscos do revisionismo krushevista e de Brejnev, mas parece que para eles o processo contrarrevolucionário de restauração capitalista terminou aí, e mal sabem o que falar quando o assunto é Gorbathev e menos ainda quando o assunto é Yeltsin.


Concordamos que o revisionismo krushevista foi fundamental para o contrarrevolução e para corroer o Movimento Comunista Internacional.


Mas e depois? Por que diabos vocês não sabem responder satisfatoriamente o que virou a Rússia no pandemônio dos anos 90?


Vamos deixar claro: Houve uma imensa e generalizada RAPINA!


A Rússia foi economicamente “loteada”!


E os maiores beneficiários, nem foram as oligarquias russas locais (embora elas tenham sido beneficiárias também). Quem mais faturou foram as próprias potências estrangeiras. Quando a desfalecida Rússia soviética foi depenada da cabeça ao rabo, o país que mais se beneficiou, de longe, foi a Alemanha (o centro de hegemonia da União Europeia).


Até hoje, largos setores da economia russa precisam aceitar uma “infiltração” até a medula do capital financeiro alemão.


Praticamente toda a economia russa tem as características de uma economia dependente não muito distante da economia brasileira (onde aqui no Brasil temos monopólios de bancos, movidos por interesses estrangeiros, dominando indiretamente a economia do país).


Nesse aspecto, o quadro econômico russo não é lá muito distinto do Brasil, e os monopólios russos são irrisórios num quadro comparativo global.


Um companheiro certa vez me fez a seguinte indagação: “Qual o grande monopólio da Rússia? Gazpron? LADA?”. É trágico e cômico.


É um quadro que não seria muito distante do próprio Brasil com nossa Petrobrás e a Gurgel.


Se você citar umas dez grandes empresas aleatórias da Rússia, você verá que provavelmente cinco delas serão hegemonizadas por capitais financeiros estrangeiros, e muito possivelmente de capital alemão.


Os desenvolvimentos de ponta da tecnologia russa, vão ser extremamente pontuais, e – notem – vão ser quase que absolutamente em campos diretamente ou indiretamente relacionados à Defesa e Soberania.


PARALELOS DA “ERA PUTIN” COM O BRASIL


Partindo de tudo que já apontamos acima, com o contexto de pandemônio do choque de liberalismo dos anos 90, devemos partir para o seguinte ponto: o que a Rússia teve de continuidade dos anos 90, e o que ela teve de mudanças?


Mas antes eu gostaria de fazer alguns paralelos – apenas a termos de analogia, que facilitam “didaticamente” o assunto para um leitor brasileiro – entre os movimentos que se personificam em Putin e em Vargas.


São processos muito distintos, são contextos muito próprios, mas há elementos que resguardam similaridades, e pode ser interessante tanto para um bom entendedor da Rússia aprender sobre o Brasil, ou um bom entendedor do Brasil entender sobre a Rússia.


De Putin a Vargas:


1 – Se originam na “classe política” que depenou a nação e entregou o país à estrangeiros.

1 – Putin: foram os pares de Putin que depenaram a URSS e transformaram a Rússia em um “bordel” do capital estrangeiro. Putin ascendeu na política a partir desse setor.

1 – Vargas: entrou na política no quadro normativo da República Velha, e nasceu politicamente na classe política que representava as oligarquias pró-inglesas.


2 – Personificam um combate e superação dessa mesma “classe política” que nasceram.

2 – Putin: seu projeto se auto-postulava como uma antítese do liberalismo submisso e pró-ocidental de Yeltsin. Visa superar as chagas do projeto pinochetista da Rússia dos anos 90.

2 – Vargas: seu projeto a longo prazo auto-postulava um combate e superação da República Oligárquica, que os próprios getulistas chamavam pejorativamente de República "Velha".


3 – Alegam querer frear a “sangria” que acometia o país.

3 – Putin: ele ascende pós-Yeltsin justamente como alguém que frearia o caos pinochetista trazido por seu antecessor. Não só ele se apresenta como alguém que "quer fazer isso", como foi esse “sentimento” no povo que alçou ele ao posto.

3 – Vargas: além de encarnar o grosso da insatisfação “tenentista”, todo projeto varguista era pensado em termos de estancar a “sangria” do Brasil. A carta do suicídio de Vargas é a síntese disso.


4 – Projetos para mitigar a dependência, mas dentro da institucionalidade burguesa.

4 – Putin: seu projeto é pensado na gradual mitigação do aspecto “dependente” da economia russa. A Rússia herdou toda a dívida pública (gigantesca) ao estrangeiro que os revisionistas pós-Stálin agigantaram (e somente a nação Rússia que herdou, sozinha, e nenhuma outra nação que se desmembrou da URSS sofreu com isso). E Putin tinha como norte pagar essa dívida. O projeto “putinista” foi pensado em termos de um parcial “desenvolvimentismo”, de superação dessa gigantesca dívida, entre outras medidas.

4 – Vargas: na prática, foi o presidente que melhor lidou com as questões da Dívida no Brasil, é o pai de qualquer desenvolvimentismo moderno brasileiro, e visou amenizar a dependência nacional, impulsionando a formação de estatais estratégicas.


RÚSSIA DOS 90’ À ATUALIDADE


O que mudou dos anos 90 para a Rússia atual, sob Putin?


A indústria armamentista e os setores tecnológicos ligados à Defesa são encorpados (com capital privado sob a égide do Estado). Uma vez que Putin pretende manter os padrões de potência militar global que os russos herdaram do socialismo. E na perspectiva dos russos, esse setor não pode ser tratado como coisa qualquer. Há uma preocupação de Estado nesses setores da indústria e tecnologia, não só pelo “desenvolvimentismo” econômico, mas sobretudo pelo aspecto beligerante. Mas isso, obviamente, é parte do quadro econômico russo.


De uma forma ainda muito tímida e muito insuficiente, Putin enquadrou as oligarquias russas. Lembremos que a maior parte da oligarquia russa é filo-ocidental e nada “nacionalista”. Essa oligarquia russa possui um espírito “cosmopolita” igual ao das oligarquias burguesas do nosso país (que não se sentem cidadãos do Brasil). Elas querem se integrar ao primeiro mundo muito mais do que fazer uma “Grande Rússia”.


A dívida bilionária soviética, herdada pela bancarrota administrativa dos revisionistas que governaram URSS (e foram responsáveis pela restauração capitalista), foi totalmente paga e “erradadicada” (em 2017) pelo governo de Vladimir Putin. Esta foi uma das metas de longo prazo traçada pelo “putinismo” desde que ele ascendeu aos holofotes do país nos anos 90.


Além disso, Putin norteia os setores não-oligárquicos da burguesia russa, afim de promover uma agenda desenvolvimentista limitada (seria pertinente dizer que ele próprio personifica, na burocracia política, os interesses dessa classe) e conta, também, como uma das mais importantes bases de apoio, com os setores governistas da Igreja Ortodoxa.


Então, é pertinente dizer que a dependência econômica foi mitigada em alguns aspectos.

Houve a ascensão – e esse programa econômico ainda está sendo tocado – de um “projeto de desenvolvimento”, mas extremamente limitado e assentado em um horizonte burguês, de veia conservadora (muito mais que “apenas” assentado na questão da “moralidade”, mas “conservador” no aspecto das instituições políticas, do Estado, do modelo societário).


Se pudermos usar mais algumas analogias:


É como se, depois da restauração capitalista tornar a Rússia um “imenso self-service sem balança” das potências ocidentais, os setores da nomenklatura e da burocracia oficial percebessem que a selvageria das potências estrangeiras não espoliaria e pisaria somente no proletariado russo, como descartaria e pisaria neles próprios (dignitários da burguesia russa). E aí, de uma forma bem tardia, decidem dar um “basta” à sangria que espoliou o país.


Assegurado pelo arsenal nuclear soviético, o “putinismo” que ascendeu na Rússia pôde ter margem de manobra para estancar a sangria e diminuir paulatinamente o lamaçal da dependência. Não fosse esse arsenal, Putin já teria sido derrubado e a Rússia teria sido literalmente fatiada.


PERMANÊNCIAS


Algumas coisas mudaram, mas muitas continuam as mesmas.


A maior parte dos setores econômicos russos estão sob a égide do capital financeiro estrangeiro. O capital financeiro alemão ainda é dominante e determinante em boa parte da economia russa. Esse entranhamento financeiro dos capitais de outros países segue na Rússia em proporções que só são normais em países periféricos.


Salvaguardo excepcionalidades e de setores muito pontuais e estratégicos, a economia russa é uma “porcaria” em termos de desenvolvimento, se compararmos com as potências do Primeiro Mundo (com a Alemanha, que é o país que mais hegemoniza a Rússia economicamente, essa comparação chega a ser risível).


Comparemos, por exemplo, com a China.


As recentes tensões geopolíticas que envolviam a economia chinesa, tinham como ponta de lança a Huawei e o altíssimo desenvolvimento tecnológico do País do Meio. Enquanto que na Rússia, a coisa se limita a um produto do setor primário (gás) exportado a baixo preço para países de primeiro mundo. E as sanções contra a Rússia quanto a venda desse gás devem afetar e desacelerar a economia russa em um ritmo que nunca aconteceria em um país imperialista e de primeiro mundo com as mesmas sanções.


A própria China, que não chega a ser ainda um dos países de primeiro mundo, não sofreria um baque tão grande quanto a Rússia, numa sanção sobre gás ou carvão. Que dirá as potências imperialistas.


Putin pode ter “retirado a Rússia do caos pinochetista”, mas tomou medidas demasiadas insuficientes para superar de forma plena o quadro de dependência. Quanto a questão da possibilidade e alcance dele fazê-lo, podemos discutir isto em outro momento.


IMPERIALISMO


Esse texto, claro, parte do pressuposto da definição leninista de Imperialismo, sintetizada na obra de Lênin “Imperialismo, fase superior do Capitalismo”. Lidamos aqui com uma categoria bem definida, e com um significado bem específico.


A recente operação russa na Ucrânia reavivou, dentro de grupos de esquerda, as palavras de ordem de "repúdio ao imperialismo russo", ou reduzindo a questão a uma "disputa inter-imperialista". Isso foi visto em notas de organizações e personalidades alinhadas ao trotskismo, à "tradição maoísta", e até em partidos comunistas tradicionais (como o KKE da Grécia).


Supostamente, a operação militar “provou a todos, por A + B, que a Rússia é, sim, um país capitalista de caráter imperialista” (e alegam usar a definição leninista da categoria).


Bem, Estados, sejam eles potências regionais ou países de menor porte, podem realizar invasões, ocupações, intervenções, etc., em países vizinhos, das mais variadas formas, inclusive por interesses “não-altruístas” ou até hegemonistas, sem que esses países sejam, necessariamente “imperialistas” (na definição marxista de imperialismo).


Podemos citar a Turquia em território sírio, ou as variadas tensões entre países do mundo islâmico (entre eles mesmos). Ações militares ultrapassando e invadindo fronteiras são comuns nestes casos.


Países, grandes ou pequenos, cotidianamente realizam ações militares! E cotidianamente realizam ações militares (injustificáveis ou criminosas) sem que esses países se tornem “imperialistas” por conta disto.


A categorização de imperialismo exige uma miríade de elementos. O poder militar até é um desses elementos. Mas o imperialismo não é uma definição de conveniência do qual podemos contar apenas com “alguns pontos” e “ignorar outros”. Não existe “país que é imperialista num ponto X, mas não é nos demais pontos”, nem existe algo como “meio-imperialismo”. Países são imperialistas, ou não o são. Ponto.


Todos os elementos econômicos imprescindíveis para a definição da categoria, no caso russo, fazem da Rússia atual mais próxima de uma categorização como a do Brasil, do que a de uma União Europeia ou Estados Unidos.


O que reina, o que domina, é uma economia com muito mais elementos de um capitalismo de caráter dependente do que propriamente de uma potência imperialista na apreensão correta do termo.


Nós compreendemos quando leigos se confundem com as terminologias, sobretudo ao lidarem com a complexidade da assimetria que é a Rússia ter uma economia tão pouco desenvolvida (em comparação ao Primeiro Mundo), ao mesmo tempo que tem o segundo maior poder nuclear e militar do mundo. Mas revolucionários comunistas deveriam tratar a questão com mais cuidado e abdicarem do direito à ignorância.


IMPERIALISMO BRASILEIRO


Recentemente, em minhas redes, soltei uma provocação sobre o conflito entre Rússia e Ucrânia, usando como um exemplo hipotético, o próprio Brasil.


A provocação consistia no seguinte:


1 – Se os EUA estão, há décadas, causando tensões geopolíticas contra o Brasil...


2 – Se os EUA nos sancionam economicamente e agem diplomaticamente para nos isolar...


3 – Se os EUA convencem (leia-se: forçam) que a comunidade internacional deixe de comprar nosso petróleo e nossas commodities...


4 – Se os EUA apoiam um movimento golpista no Uruguai, bem debaixo do nariz do Brasil...


5 – Se os EUA visam instrumentalizar o Uruguai para colocar uma base militar americana ou da OTAN bem na fronteira com o Brasil (usando o Uruguai)...


6 – Se ocorre um movimento generalizado de uruguaios com ódio a brasileiros, onde uruguaios ultra nacionalistas hostilizam, perseguem, agridem e – nos casos mais brutais – até matam brasileiros e descendentes de brasileiros que residem no Uruguai (literalmente crucificando ou queimando brasileiros vivos)...


7 (CONCLUSÃO) – Se todos esses fatores estivessem acontecendo, eu seria o PRIMEIRO a favor do Brasil agir energicamente em território uruguaio. E se alguém com uma sensibilidade romântica viesse dizer que com isso “os brasileiros estão sendo imperialistas”, eu mandaria essa pessoa comer feno e produzir estrume.


Apesar do caráter meio “chulo” da provocação que soltei sobre o tema, o paralelo é pertinente.


Nossa economia é dominada pelo capital financeiro internacional e atende a um modelo agroexportador digno de “fazendões do Terceiro Mundo”. Com excepcionalidades bem pontuais (a Embraer, por exemplo), estamos em um estágio de desenvolvimento risível comparado a um país imperialista e aos países de primeiro mundo.


Como, diabos, seríamos imperialistas – da noite pro dia – se tomássemos às mesmas medidas que a Rússia tomou?


Independente do juízo de valor que você faça sobre a ação militar russa, se você for um marxista, e se pretende usar as categorias teóricas leninistas, para fazer análises ou notas de repúdio (ou apoio), você precisa se ater aos fatos.


Como alguém, num dado momento, pode classificar o Brasil como uma economia de capitalismo dependente, ou até como uma economia capitalista com traços semicoloniais e semifeudais, e acreditar que da noite para o dia, noutro momento, já temos imediatamente um capitalismo de caráter imperialista por causa de uma ação militar tomada por esse mesmo Brasil com traços semicoloniais e semifeudais?


Como alguém pode classificar o Brasil como uma economia capitalista submetida ao capital financeiro, ao mesmo tempo que classifica um país que tem um estágio de dependência similar ao nosso, como um país imperialista?


A quem interessa essa confusão conceitual?


Bruno Torres


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