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  • Camarada C.

Reinaldo Azevedo: Olavo afirmar que o Brasil deu meio PIB a esquerdistas é só delírio



Olavo de Carvalho, polemista e prosélito de extrema-direita, influente no futuro governo — afinal, já indicou dois ministros, coisa que nenhum partido conseguiu —, concedeu uma entrevista ao Estadão. A versão, mais longa, publicada na Internet, está aqui. A do jornal impresso f0i bem mais curta. E o editor foi generoso com ele. Os cortes deram alguma unidade a um pensamento desconjuntado, omitindo batatadas e ameaças feitas à entrevistadora. Leiam trecho de uma resposta que expõe de forma constrangedora bobagens assombrosas de ideólogo tão influente. A sorte, pelo visto, é haver um general Hamílton Mourão no meio do caminho de certas alucinações.


PERGUNTA: Para falar das áreas com ministros que passaram pela sua indicação, como o ministro das Relações Exteriores. O assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton, viaja nesta semana ao Brasil e Eduardo Bolsonaro viaja para os Estados Unidos. Como o senhor imagina a aproximação entre EUA e Brasil e como o País vai se colocar no cenário internacional, tendo a China como importante parceiro comercial?


RESPOSTA: O presidente (Donald) Trump disse que tem US$ 267 bilhões esperando para investir no Brasil, eu acho que isso é muito bom. Não adianta nada dizer “ah, isso vai desagradar a China”, como disse aquele idiota do Mino Carta, “ano passado o comércio com a China nos deu 20 milhões de superávit”, muito bem. A China só fez isso porque o governo Lula e Dilma e o Temer também estavam distribuindo dinheiro para os amigos deles, os amigos da China: Cuba, Angola, Venezuela, etc: 1 trilhão. Levamos 20 milhões e distribuímos 1 trilhão. Que beleza, né? Claro que se o governo parar de representar vantagem política para a China, acaba o comércio na mesma hora. Comércio com a China é escravidão. Isso é óbvio e todo mundo deveria saber disso. Vai perguntar para o Tibet se é bom conversar com a China. Agora, para os EUA, é bom, porque a riqueza da China é quase feita toda de dinheiro americano. Outra coisa, tem gente que chega a ser tão idiota que ultrapassa a medida do acreditável. Por exemplo, Mino Carta acha ruim comerciar com Estados Unidos e acha que deve comerciar com a China. Mas a China só quer saber de comerciar com os Estados Unidos, meu Deus do céu. Por que os EUA é bom para a China e é ruim para nós? Essa coisa anti-americana pueril é coisa de estudantezinho comunista de 1950, naquele tempo havia um livrinho que os comunistas distribuíam, a Editora Brasiliense, que é comunista para caramba, chamado “um dia na vida do Brasilino” e tudo o que ele consumia era americano. Só que se você retirasse todos aqueles produtos, o Brasilino retornaria à Idade da Pedra. Tem essa mentalidade ainda. É encrenquismo. Agora encrenquismo com a China não tem, embora estejamos de fato entregando tudo para a China. (…)


Comento Eis aí. É Carvalho em estado puro: imprecisão, chute de dados, ofensas, arrogância, desqualificação do interlocutor, bobagem que aspira a sabedoria superior… A entrevista está no ar desde as 5h do dia 24. Sem pedido de correção. E também sem nota de esclarecimento da edição. Vamos ver. Como se está falando de transações internacionais, a moeda da resposta é dólar, certo?


1: o superávit comercial do Brasil com a China, no ano passado, foi de US$ 20 bilhões, não de US$ 20 milhões — de um total de US$ 67 bilhões. Logo. Se este pensador notável usar a calculadora para dividir US$ 20 bilhões por US$ 20 milhões, vai encontrar o número “1.000”. Isso significa que a vantagem em dólar, em um ano, nas relações comerciais do Brasil com a China é 999 vezes maior do que o número que ele tem na cachola. A China respondeu por 30% do superávit comercial brasileiro. No ano passado, o país conseguiu um superávit com os EUA de pouco mais de US$ 2 bilhões depois de oito anos consecutivos de déficit. Estamos apenas lidando com fatos, não com feitiçaria ideológica;


2: ainda que Trump tivesse mesmo US$ 267 bilhões para investir no Brasil — na verdade, ele não tem um tostão porque empresas americanas investem, não o governo —, colocar numa mesma rubrica investimentos, não importa o valor, e saldo na balança comercial é de uma ignorância econômica assombrosa. Isso pode fazer sucesso junto a seus seguidores, que pouco se importam com a precisão, mas é e será sempre uma bobagem;


3: como é? O Brasil teria distribuído US$ 1 trilhão para países de esquerda, aliados da China? No dia 1º de março deste ano, o IBGE divulgou o PIB brasileiro em valores correntes: R$ 6,6 trilhões. Ou US$ 2,02 trilhões, com a moeda americana cotada a R$ 3,26. Na cotação do momento em que escrevo (R$ 3,90), o nosso pibezinho fica em US$ 1,692 trilhão. Então quer dizer que o Brasil deu aos comunistas ao menos metade do seu PIB em dólares (em valores atuais, 62,5%)? É uma afirmação alucinada. Não peça ao valente que evidencie a fonte dos dados porque inexiste. E, claro!, a exemplo de toda teoria conspiratória, também essa se alimenta da falta de provas. Assim, passou a ser verdade entre os chamados “olavetes” que o Brasil deu US$ 1 trilhão para países comunistas, aliados da China, e recebeu em troca US$ 20 milhões de superávit na relação comercial com a China no ano passado. Carvalho emplacou dois ministros no governo Bolsonaro: o das Relações Exteriores (Ernesto Araújo) e o da Educação (Ricardo Vélez Rodriguez);


4: Outro momento encantador da resposta: “Vai perguntar para o Tibet se é bom conversar com a China. Agora, para os EUA, é bom, porque a riqueza da China é quase feita toda de dinheiro americano.” Se for uma divisa de política externa, então é o caso de a gente pensar, antes de tudo, nos interesses do Tibete ao negociar com aquele país: “Ou vocês libertam o povo tibetano ou não compram mais um quilo de nossa soja e uma fagulha do nosso ferro”. Isso é que é pragmatismo, não? Será essa a tarefa de Ernesto, o olavete?;


5: na relação entre EUA e China, mais este país tem como pressionar aquele do que o contrário. Os chineses detêm 20% da dívida americana em mão de estrangeiros — coisa de US$ 1,17 trilhão (montante perto do que Carvalho diz que o Brasil repassou a países de esquerda; podem gargalhar). Mas atenção! O risco não está em falar “Tome seu título de volta e me dá o dinheiro”, mas em diminuir de maneira gradativa e contínua o interesse pelos títulos americanos, o que significa, na prática, desacelerar o financiamento do déficit americano. O Tesouro precisa é vender mais títulos, não menos;


6: com sapiência muito característica, diz este notável pensador da economia: “Mas a China só quer saber de comerciar com os Estados Unidos, meu Deus do céu! Por que os EUA é (sic) bom para a China e é ruim para nós? Essa coisa antiamericana pueril é coisa de estudantezinho comunista de 1950 (…)”. Em tão poucas palavras, bobagens assombrosas! A China quer comerciar com o mundo inteiro. O próprio entrevistado reclama do peso que o país tem na relação com o Brasil, embora ele erre um tantinho na conta — apenas mil vezes o valor da realidade. Não peça a Carvalho que indique como é que o país se deixa pautar pelo antiamericanismo nas relações comerciais porque ele não saberá dizer, uma vez que não tem noção nem remota do que fala. Em havendo uma relação comercial hostil, um país, se pode, evita comprar, não vender (a menos que haja bloqueio comercial); os EUA, por exemplo, impõem barreiras severas à importação de determinadas commodities brasileiras. Entre 2009 e 2016, a balança comercial brasileira com os EUA foi deficitária: em sete desses oito anos, o país estava sob o governo do… PT! Como diria um pensador, isso é ser “idiota além do limite do inacreditável”.


7: ainda que tenha havido erro de transcrição, e o entrevistado tenha dito “bilhões” em vez de “milhões”, o raciocínio continua estupidamente errado. Nesse caso, então, a fala faz menos sentido ainda porque lhe falta a verossimilhança em que se ancorava o erro. Ou por outra: a única chance de a bobagem ser menor é o texto ser fiel ao erro…


Mais adiante, este singular pensador da o que parece ser um conselho: “Para conversar com a China tem que falar grosso, porra. Tem que ser toma lá, dá cá. E não é isso que está acontecendo, eles estão dando tudo para a China. Estão entregando. É o entreguismo mais descarado que eu já vi na minha vida. Se os americanos fizessem o que a China está fazendo conosco, haveria uma revolução no Brasil. Os caras entregam tudo para a China a preço de banana e ainda dão dinheiro para os parceiros da China. Você acha que esse dinheiro que deram para Cuba, Venezuela, Angola, vai voltar algum dia? Nunca vai voltar. Essas grandes nações comunistas que foram a União Soviética e a China vivem do roubo e do saque. Vocês não perceberam ainda, não? Vou contar alguns episódios que as pessoas não sabem. Durante a Guerra Civil Espanhola, os russos chegaram na Espanha, pegaram todas as reservas estatais de ouro dizendo que era para protegê-las e levaram para Moscou. Nunca devolveram um tostão. Nunca.”


Vocês já ouviram Bolsonaro a dizer que a China está “comprado o Brasil, não do Brasil”. A inspiração está clara. Como resta evidente, não há números na afirmação, só a exposição da tese paranoica. O que seria um “toma-lá-dá-cá” com a China? Uma relação comercial em que o Brasil obtém US$ 20 bilhões de saldo comercial num ano parece bastante amistosa, não é mesmo? Nada menos de 30% do superávit. Mas, claro!, o Ernesto pode resolver endurecer essa relação: “Só vendo a minha soja pra vocês se houver uma mudança de regime e se vocês passarem a adorar o Deus de Donald Trump, que está salvando a tradicional família do Ocidente…”


Segundo se entende, há uma chance razoável de que esse superávit de US$ 20 bilhões anuais seja apenas uma pérfida e sórdida tramoia comunista para a China roubar e saquear o Brasil… Ninguém percebeu isso, claro!, só Olavo de Carvalho. Não fosse ele a fazer a advertência, estaríamos fritos.


Em recente entrevista, o general Hamílton Mourão, vice-presidente eleito, recomendou cuidado e prudência na relação com a China e em outras decisões sobre política externa e relações comerciais. Vai ver também o general foi cooptado pelo Perigo Vermelho. Ou, então, tudo não passa de uma trama da maçonaria, em associação com o globalismo de George Soros, que pega carona no marxismo cultural (ou o contrário), tanto faz.


E, na resposta, há uma “olavada” típica, que corresponde à carteirada intelectual: o que a Guerra Civil Espanhola tem a ver com a China e com as relações comerciais brasileiras. Nada. É só uma nota de rodapé. Assim o olavete pode impressionar a audiência no restaurante: “Sabia que os soviéticos roubaram todas as reservas de ouro da Espanha durante a guerra civil? Precisamos ser mais duros com a China…”


Olavo não passa de uma máquina de disparar ofensas, embora seu pensamento não resista aos fatos. Nem a uma calculadora.


Pronto! Vá lá, Olavão! Comece a disparar a sua máquina de palavrões e grosseiras, a única coisa que realmente o distingue como “pensador”.


Matéria original.

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