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  • Camarada C.

Somos contra a queima de símbolos nacionais (texto de uma das Torcidas Organizadas do São Paulo FC)

É xadrez, não damas.

Cada ação feita em nome do antibolsonarismo gera uma reação proporcionalmente inversa e vice-versa, e tudo isso é avaliado pela opinião pública, pelas massas, que são quem realmente importa. Quem faz Revolução não é a vanguarda sem retaguarda, não são os grupos militantes que acendem o pavio, mas o povo que essas forças conseguem ou não mobilizar.


Bolsonaro está fazendo um excelente trabalho em destruir sua imagem de patriota, abraçando-se às bandeiras de EUA e Israel, batendo continência ao pavilhão ianque e declarando "i love you" ao caricato presidente Donald Trump, e está perdendo apoiadores por isso. A última coisa que precisamos agora é de gente queimando a bandeira do Brasil em nome do antibolsonarismo, dando oportunidade, pela regra de antítese, de Jair Bolsonaro recuperar todo seu capital político pseudo-patriótico junto às massas.


Somos totalmente a favor da ação direta. Por nós, que caiam todos os bancos, bases e grandes magazines de conglomerados empresariais estrangeiros, mas bandeiras do Brasil? A mesma bandeira que adornava os uniformes dos gloriosos soldados da Força Expedicionária Brasileira que deram a vida contra os nazistas e fascistas na Europa durante a Segunda Guerra?


"Mas segue o modelo da bandeira imperial! É uma bandeira maçônica! É uma bandeira burguesa! Ordem e Progresso é coisa de fascista!"


Foda-se, irmão. Nenhum trabalhador brasileiro liga pras origens e significados da bandeira, mas todos têm uma relação emocional com ela. É o símbolo que cresceram vendo como identidade da pátria, que pintam nas ruas das periferias em anos de Copa do Mundo.


Mesmo na Alemanha, berço do nazismo, onde o ato de queimar bandeiras nazis é comum, arrisque-se a queimar a bandeira nacional tradicional, a tricolor horizontal em preto, vermelho e dourado, pra ver as reações. Tente queimar uma bandeira russa perto de um comunista do país. Tente queimar uma bandeira cubana na ilha ou uma venezuelana na frente dos chavistas.


Todas as revoluções das colônias do mundo têm caráter nacional, patriótico, de defesa da nação contra o imperialismo estrangeiro, o que nada tem a ver com o nacionalismo e o ufanismo das grandes potências econômicas, são conceitos diferentes. Pautados numa distorção do conceito de "internacionalismo", que é a solidariedade entre os trabalhadores do mundo contra as burguesias que os oprimem em seus respectivos países, alguns militantes desrespeitam a cultura popular e a identidade nacional, causando o rechaço das massas. "Internacionalismo" esvaziado de significado objetivo pode ser até capitalista, onde um burguês do seu país te escraviza e te vende como um produto pro burguês do país vizinho.


Ontem ocorreu em Curitiba um ato de lutadores liderado pela estrela do MMA Wanderlei Silva, que pode tornar-se algo gigantesco e fora de controle, que JAMAIS ocorreria se apenas bancos ou lojas da HAVAN tivessem sido depredados, já que o povo odeia os bancos e os ricos naturalmente. Caminharam pela cidade com a bandeira nacional, defendendo-a. Vocês têm noção do impacto que isso tem no imaginário popular? Criaram UM SÍMBOLO extremamente positivo para o bolsonarismo numa semana que era pra ser de vitória nossa.


O trabalhador não pensa nas "origens opressoras" da bandeira quando a vê sendo queimada, ele não fez tese sobre isso na universidade. O trabalhador não pensa na "Inquisição" e nas "Cruzadas" quando você destrói um crucifixo ou queima uma imagem de Jesus: ele pensa na religião dos pais e avós dele, que lhe foi passada. Pensa na benzedeira da rua dele. Essas relações simbólicas e emocionais devem ser respeitadas, não estamos dialogando com um nicho acadêmico, mas com o senso comum.


E estamos falando do trabalhador na terceira pessoa por mera questão retórica: nós somos trabalhadores, pais de família e militantes de esquerda, e ficamos incomodados.


O que ganhamos destruindo a bandeira do Brasil? Apenas reforçamos a narrativa de Jair Bolsonaro de que ele defende "valores patrióticos" e nós somos os inimigos da nação e, consequentemente, do povo. Bolsonaro não é dono dos símbolos nacionais: ele os USURPOU para nos entregar numa bandeja aos estadunidenses.


A ação dos antifascistas curitibanos foi perfeita, exceto por essa parte. E se é pra ter essas ideias individualistas e pequeno-burguesas nas ruas em nome do "antifascismo", caminharemos para um desfecho semelhante ao de 2013.


Bolsonaro está à caça de um inimigo que legitime o recrudescimento de seu regime e um posterior golpe de Estado. Primeiro investiu na narrativa olavista do "Foro de São Paulo" como força dominante na América do Sul (se o fosse, Evo Morales jamais teria sido deposto à força na Bolívia), mas a teoria da conspiração era tão frágil quanto o Foro e nunca emplacou. A bola da vez é a "Antifa", como se fosse uma organização homogênea, hierarquizada e financiada. Não podemos dar munição ao inimigo.


Estamos sob invasão estrangeira, deveríamos estar queimando bandeiras dos EUA, que se apossou do nosso governo, não a nossa.


E antes que a militância adolescente apareça: foda-se o que diz a música do Flicts. Nós aprendemos nos livros e nas ruas, não com o punk rock da classe média.


Por Bonde do Che.

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