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Tudo o que sabemos sobre a relação do clã Bolsonaro com milícias

Atualizado: 23 de Ago de 2019

Publicamente, a família se embrenha na defesa dos grupos paramilitares que comandam o crime no Rio de Janeiro desde pelo menos 2003.

Na manhã desta terça-feira (22) um desdobramento muito importante no combate ao crime organizado no Rio de Janeiro ganhou as manchetes dos jornais: a prisão de parte da cúpula de um dos mais poderosos grupos de milicianos que operava na Zona Oeste e adjacências da capital fluminense, o Escritório do Crime. A operação Os Intocáveis prendeu oito pessoas, incluindo um major e um tenente da polícia militar, que liderariam o grupo ao lado do capitão Adriano Magalhães da Nóbrega, o Gordinho, que está foragido. Além dos crimes cotidianos ligados à milícias, o grupo também atuava na grilagem de terras na região — e, segundo o jornal Extra, estariam envolvidos na execução da vereadora Marielle Franco, morta em março de 2018.


Mas a repercussão política do caso vai além, uma vez que o filho do presidente da República e senador eleito Flavio Bolsonaro (PSL-RJ) mantinha relações no mínimo suspeitas com o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega. Ele foi homenageado por Flavio na Assembleia Legislativa do Rio em 2003 (Flavio também homenageou o major Ronald, agora preso, em 2004), e a esposa e a mãe do foragido trabalhavam no gabinete de Flavio na Alerj até novembro de 2018. O pior de tudo é que a relação do clã Bolsonaro com as milícias não é novidade.


As milícias operam no Rio de Janeiro há pelo menos duas décadas. Antes delas, grupos de extermínio (ou justiceiros, como são chamados por eles mesmos) como a Scuderie Le Cocq já se organizavam como agremiações paramilitares na intenção de “proteger” as comunidades contra bandidos. Esses grupos, formados por policiais, militares, bombeiros e empresários, passaram a controlar vastas áreas do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense — não muito diferente das facções de tráfico de drogas. Entre o leque de crimes cometidos pelas máfias fardadas estão a cobrança de “taxas de proteção” de moradores e do comércio local, cobrança de taxas de operadores do transporte “alternativo” nas regiões dominadas, monopólio na distribuição de gás de cozinha e no chamado “gatonet”, a instalação pirata de TV a cabo, e também através do tráfico de drogas. Hoje 65% do território da cidade é controlado por paramilitares.


No mesmo ano em que Flavio homenageava o capitão foragido, o presidente Jair elogiava um grupo de extermínio que cobrava R$ 50 por homicídio na Bahia. “Enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo”, disse o então deputado.


Em 2008 o caldo começa a engrossar a partir da criação na Alerj da CPI das Milícias, comandada pelo deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ). O clã Bolsonaro se uniu em peso para defender os paramilitares: Flavio votou contra a instalação da CPI, e, mais ainda, quis criar um projeto para regulamentar a ação dos criminosos. O pai não se fez de rogado e também atacou à época no plenário da Câmara: “Querem atacar o miliciano, que passou a ser o símbolo da maldade e pior do que os traficantes”. Em entrevista à BBC, foi mais incisivo: “O governo deveria apoiá-las, já que não consegue combater os traficantes de drogas. E, talvez, no futuro, deveria legalizá-las.”

Já em 2018, na medida em que a eleição se aproximava, o peso das milícias na política fluminense foi ficando cada vez mais escancarado. Após a morte de Marielle, o entorno do clã Bolsonaro se apressou para desqualificar a vereadora: Flavio apagou um tuíte de condolências à família da vereadora, enquanto a fábrica de fake news esquentava os motores espalhando mentiras escandalosas para sujar seu nome.


A ligação direta de Flavio com milicianos foi ficando também cada vez mais clara. O Coronel Salema (PSL), apoiado por Flavio, teve um evento de sua campanha a deputado estadual organizado por uma milícia de São Gonçalo segundo o MP. Em dezembro, dois PMs que trabalharam na campanha de Flavio foram presos. A acusação? Integrar uma quadrilha especializada em extorsões. Para melhorar, Fabrício Queiroz, PM e ex-motorista de Flavio investigado por lavagem de dinheiro, teria se escondido em Rio das Pedras para dar um cambau no Ministério Público antes de se internar no hospital Albert Einstein. A ligação com o caso Queiroz não para aí: Raimunda Veras Magalhães, esposa do capitão foragido, teria realizado depósitos na conta do motorista. Em sua defesa, Flavio afirma que Raimunda foi “indicada por Queiroz”e que está sofrendo uma “tentativa espúria” de ser vinculado aos criminosos - Queiroz não se fez de rogado e abraçou o B.O. com as quatro patas: não só confirmou a indicação como disse, em nota, que é amigo de Adriano.


A operação desta terça é mais uma vitória do Ministério Público do Rio de Janeiro, que tem levado as investigações sobre milícias e também o caso Queiroz no mais absoluto sigilo, uma espécie de anti-Lava Jato, sem holofotes, power-points e promotores tuiteiros. Por fim, em 22 dias de governo já se levantaram mais podres sobre o clã Bolsonaro do que nos quase 30 anos de baixo clero do presidente – o custo político de tomar o elevador da extrema-direita vai ficando cada dia mais caro.


por Amauri Gonzo, via VICE

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