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  • Camarada C.

Utilidade pública pra quem quer falar bem ou mal de macumba

Atualizado: 9 de Jan de 2019



O ataque monorracional de ignorância cognitiva, racista e ignóbil do Padre Fábio de Melo me faz voltar ao tema. Já escrevi sobre isso, mas é impressionante como o próprio povo da curimba comete um equívoco – um erro compreensível de etimologia – sobre a expressão. Confundem o instrumento musical com os cultos religiosos. Não aguento mais escutar a frase “macumba na verdade é um instrumento”. É o seguinte: macumba é instrumento, mas designa também um conjunto de rituais religiosos que bebem na fonte dos complexos culturais bantos. Parece até que o povo tem vergonha de dizer que é macumbeiro. Eu sou macumbeiro e ponto.Tento explicar.


O instrumento macumba designa uma espécie de reco-reco que se tocava com duas varetas,uma fazendo o grave e outra o agudo. O termo tem provável origem no quimbundo “mukumbu”; que significa som. Foi relativamente popular na época dos pioneiros do samba e eu nunca vi um.


Já a macumba como expressão que designa, algumas vezes de forma pejorativa, cultos afro-ameríndios-brasileiros e coisas que o envolvem, gera bons debates. Antenor Nascentes segue Raymundo Jacques (que escreveu a obra de referência “O elemento afro-negro na língua portuguesa”, em 1933), e acha que vem do quimbundo “dikumba” – cadeado ou fechadura – referindo-se a cerimônias secretas de fechamento dos corpos. Nei Lopes – profundo conhecedor do assunto – acha que vem do quicongo “kumba”; feiticeiro (o prefixo “ma”, no quicongo, forma o plural). Outros estudos indicam que a origem é mesmo essa, como menciona Robert Slenes em seu estudo sobre o jongo. Daí a expressão macumba designar tanto uma espécie de reco-reco como as cerimônias, por exemplo. A etimologia, porém, é distinta nos dois casos: uma deriva do quimbundo e outra do quicongo. Muda tudo.


Para as amizades sentirem como o bicho pega, dou mais um exemplo: kumba no quicongo, como citei, é feiticeiro. Já em umbundo, designa tanto o conjunto de serviçais domésticos como um grupo de familiares que moram num mesmo cercado. Kumbi é sol no quimbundo e gafanhoto no quioco, lingua que também forma o plural com o prefixo ma. Makumbi, portanto, designa um bando de gafanhotos. O complexo cultural banto não é mole.


Macumba tanto pode designar o instrumento que ninguém mais conhece (termo de origem quimbundo), como os ritos religiosos (termo de origem quicongo). É nesse sentido que eu uso e afirmo meu pertencimento. Sou da macumba, vou para a macumba, faço macumba e não toco reco-reco. É isso. Mas que troço chato esse reco-reco. Vou te contar… No mais, vem aí Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas.


Curioso e triste é que o padre Fábio de Melo e vários praticantes de religiosidades encantadas brasileiras afro-ameríndias, e de toda a sorte de espiritismos, têm algo em comum: o preconceito contra a palavra (nem entrarei na questão das práticas) “macumba”, empurrada para o não-lugar da desclassificação de suas sapiências múltiplas e rasuradas. Reivindico política e poeticamente a expressão: eu gosto é de macumba mesmo. Essa é a palavra disputada que semantiza os encantos causando coceiras em todos os cânones que não sabem como lidar com ela: macumba.


Por Luiz Antonio Simas.

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