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Utopias antipolíticas cultuam polícia e iniciativa privada contra o público

Atualizado: 11 de Dez de 2019



Quem lê o noticiário topa com novas utopias em voga. Desde Thomas Morus, o traço comum das utopias é o diagnóstico dos males da sociedade existente e a proposta de outra nova, superior.


Alguns projetos utópicos recusam o presente em nome do regresso a uma comunidade original, harmônica. Outros produzem visões sombrias, seja de sociedades de controle — como nos clássicos “1984”, de George Orwell, e “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury—, seja de catastrofismos —tecnológicos, ambientais, islâmicos etc.— alardeados em versões hollywoodianas recentes.


Nunca somem, é claro, as utopias idealistas, que empurram igualdade e solidariedade para o futuro. Além das tradicionais, socialistas, encanta a nova geração a cepa autonomista, que tem difundido consigo o próprio vocábulo “coletivo” para designar grupos.


E há as utopias antipolíticas, cujo foco é a satisfação e a segurança pessoais. Nesses casos, abandona-se o princípio democrático da negociação entre divergentes como imperativo da vida comum —em favor do princípio da satisfação individual, via mercado.

Versão notável desse tipo de utopia é a da empresa Seasteading Institute, fundada em 2008 por um empreendedor de tecnologia e um engenheiro de softwares. O segundo é neto de Milton Friedman, assegurando o DNA liberal.


A organização abandonou os “sistemas políticos obsoletos” em favor de “cidades flutuantes que permitirão à próxima geração de pioneiros testar pacificamente novas ideias de como viver em comunidade.” Bem-sucedidas, disseminarão a “mudança”, abolindo os Estados.


Este novo utopismo tem geografia móvel: ilhas artificiais ancoradas em alto-mar. Assim, se insatisfeitas com a vizinhança, levantariam âncora em vez de guerrear.

O residente também se livraria do Estado, cabendo a gestão a especialistas. Escaparia do aborrecimento com políticos, tornando-se cliente de um serviço.


Essa utopia antipolítica concretiza o que pensam muitos: que políticos são parasitas ineficientes e dispensáveis, assim como tudo que os cerca — as Constituições, as instituições políticas, as candidaturas e os votos.


Tal negação extrema da política tem correspondentes no debate brasileiro. A opinião, as redes e as mídias entronizaram o mercado, com seu princípio de eficiência.


Ao mesmo tempo, subiu na consideração popular um Poder não eleito: o Judiciário, único guardião da coisa pública, mais capaz e confiável que os políticos. Produziu-se verdadeira glamorização de juízes e promotores, com livros, eventos, filmes, séries, homenagens e prêmios aos “heróis” da Lava Jato.


O prestígio se estendeu para a Polícia Federal. O empoderamento público da corporação começou jocoso, com o “japonês” que conduzia políticos acusados de corrupção e o culto a policiais-musos. E se assentou na equação “justiça igual a prisão” — apesar de nossa população carcerária ser a terceira no ranking mundial.


Em princípio, como diz o nome do filme — “Polícia Federal: A Lei é para Todos”—, a regra independe de a quem se aplique. Mas como tudo se interpreta, uns são inocentados e outros aprisionados, conforme as conveniências.


Essa moralidade antipolítica incita uma lógica da exclusão e anima o milhão de pessoas que foi ao cinema prestigiar a PF e aqueles que aderem à candidatura presidencial de um militar.


E é o que legitima as idas da polícia aos campi de universidades públicas, onde muitos discordam dos partidários da utopia antipolítica.


As operações da PF se baseiam na crença sincera de que o combate à corrupção lhe confere um mandato tácito da opinião pública para vigiar e punir. A UFMG foi o caso mais recente de uma série de seis operações em universidades federais. Feriu direitos individuais. Não houve intimação para depor que, desobedecida, justificaria a condução coercitiva.


Essa ação e suas congêneres se amparam na tese de que o serviço público é ineficaz e corrupto, ao contrário do mundo privado de Seasteading Institute, Odebrecht, Friboi e similares, onde só existiriam pessoas eficientes e de bem. Mas não é bem assim. Em toda parte há joio e trigo, no Estado e no mercado, na universidade e na PF.


A utopia antipolítica produz um antiestatismo às cegas, que evita a política como esfera de debate entre os divergentes. Ancorados em uma superioridade moral que julgam autoevidente, os novos utopistas excluem, discriminam, impõem. Seus fins justificam seus meios. O apelo à ética respalda a prática da violência.


Pode parecer distopia, mas, como a ilha do neto de Friedman denota, o pesadelo de uns é justamente a utopia de outros.


Angela Alonso

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